Raso

Parece haver um senso de urgência

Non sense

Inúmeros devaneios de prestígio

Provincianos

Falas em excesso, poucos silêncios

A despojar a musicalidade das coisas.

Ao me deparar com o ridículo

Me calo

(mais do que de costume)

Pois não serei aquela a apontar

A bestialidade dos seres

A desimportância dos fatos

O absurdo dos gestos

O caricato do gozo desmedido

A superficialidade dos afetos

E tantos outros desacertos

Que – graças! – não encontro nas páginas

Em que submerjo.

Pena! Parece faltar poesia ao mundo.

O nascimento do mundo. Joan Miró, 1941.

De hoje

Se te pareço ausente, não creias:
hora a hora minha dor agarra-se aos teus braços,
hora a hora meu desejo revolve teus escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites nesse breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.

Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de calar.

Lya Luft (1938 – 2021)

Inferno

Na mulher nefasta que habita suas fantasias e enredos esboçados, mora uma criança tola, assustada e ávida por algum apreço. Nas linhas tortuosas de suas histórias amargas e das palavras de onde irrompe fel, mora o deleite de quem esqueceu o gozo. Nos fatos arranjados das tramas nas quais a culpa é sempre alheia, habita a desonestidade terapêutica de quem delega a cura à racionalidade turvada de miragens. Nos desajeitados gestos de quem condena o silêncio de um, vive o desejo da palavra congruente, quiçá crédula de toda leviandade. Nos aborrecimentos estampados lá e cá nas letras dos versos, esconde-se o inferno dos outros, as artimanhas de si mesmo e os pecados inumeráveis de todos.

Inferno segundo Hieronymus Bosch (1450-1516).

Parecer

Todas as vezes

Que te vejo olhar para as coisas

E construir explicações sobre as histórias

Leio interpretações inautênticas

Ideias desordenadas

Frases escalafobéticas.

Posso afirmar sem medo

Que para quem aparenta entender de tudo

Você não entendeu nada.

Obra de Susano Correia.