promessas
rezas
aflições
(des)crenças
patuás
intenções.
(…)
traga-me as senhas
os prêmios
os ganhos
os (bons) números
para eu acreditar
em redenções.

Escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra.
promessas
rezas
aflições
(des)crenças
patuás
intenções.
(…)
traga-me as senhas
os prêmios
os ganhos
os (bons) números
para eu acreditar
em redenções.

talvez eu seja como toda menina
a sonhar, desde sempre,
com um belo tapete cor-de-rosa
(sim, cor-de-rosa!)
a aquietar meus passos.

Parece haver um senso de urgência
Non sense
Inúmeros devaneios de prestígio
Provincianos
Falas em excesso, poucos silêncios
A despojar a musicalidade das coisas.
Ao me deparar com o ridículo
Me calo
(mais do que de costume)
Pois não serei aquela a apontar
A bestialidade dos seres
A desimportância dos fatos
O absurdo dos gestos
O caricato do gozo desmedido
A superficialidade dos afetos
E tantos outros desacertos
Que – graças! – não encontro nas páginas
Em que submerjo.
Pena! Parece faltar poesia ao mundo.

Não há redenção a um poema
Quando os versos que penetram os olhos
Foram afiados na língua.

Se te pareço ausente, não creias:
hora a hora minha dor agarra-se aos teus braços,
hora a hora meu desejo revolve teus escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites nesse breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.
Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de calar.
Lya Luft (1938 – 2021)

Quando a boca muito fala
E se queixa em demasia
As palavras se perdem
No emaranhado de lamentos, injúrias
E vazios.
Palavras, elas sim,
Janelas da alma.
Não há poema que as salve.

ainda que tudo gire
em torno de fins
e recomeços
calendários
e previsões
sigo desejando
amanhecer.

o louco, a morte, a torre
o descarrilamento do comboio
a (des)crença no destino
a tormenta inclemente
na mente
nos sonhos
nos fatos
na gente.

Na mulher nefasta que habita suas fantasias e enredos esboçados, mora uma criança tola, assustada e ávida por algum apreço. Nas linhas tortuosas de suas histórias amargas e das palavras de onde irrompe fel, mora o deleite de quem esqueceu o gozo. Nos fatos arranjados das tramas nas quais a culpa é sempre alheia, habita a desonestidade terapêutica de quem delega a cura à racionalidade turvada de miragens. Nos desajeitados gestos de quem condena o silêncio de um, vive o desejo da palavra congruente, quiçá crédula de toda leviandade. Nos aborrecimentos estampados lá e cá nas letras dos versos, esconde-se o inferno dos outros, as artimanhas de si mesmo e os pecados inumeráveis de todos.

Todas as vezes
Que te vejo olhar para as coisas
E construir explicações sobre as histórias
Leio interpretações inautênticas
Ideias desordenadas
Frases escalafobéticas.
Posso afirmar sem medo
Que para quem aparenta entender de tudo
Você não entendeu nada.
