Trivial

as palavras me tomam

quando eu leio

e ainda mais

quanto mais escrevo

transbordam quando

estou triste e

dançam

(em minha mente)

quando estou bem.

as palavras apenas

me faltam nos

mais ou menos

da vida

a poesia, talvez

não aceite a mediocridade.

Fotografia de Yevgeniy Repiashenko

Passeio

O andar acompanhado pela música rouca

Da colcha de retalho de folhas sob os pés

A paisagem bucólica das inúmeras espécies

Por vezes folhosas

Ou floridas

Algumas altas, outras retorcidas

Com seus caules ora lisos

Ora grossos, ora secos

Ora mortos

Impregnam a memória de lembranças

Imagens

Cheiros

E sensações

Esquecidas tão rapidamente

Quanto nossas aflições.

Imagem: ge_casagrande

Raso

Parece haver um senso de urgência

Non sense

Inúmeros devaneios de prestígio

Provincianos

Falas em excesso, poucos silêncios

A despojar a musicalidade das coisas.

Ao me deparar com o ridículo

Me calo

(mais do que de costume)

Pois não serei aquela a apontar

A bestialidade dos seres

A desimportância dos fatos

O absurdo dos gestos

O caricato do gozo desmedido

A superficialidade dos afetos

E tantos outros desacertos

Que – graças! – não encontro nas páginas

Em que submerjo.

Pena! Parece faltar poesia ao mundo.

O nascimento do mundo. Joan Miró, 1941.