Inferno

Na mulher nefasta que habita suas fantasias e enredos esboçados, mora uma criança tola, assustada e ávida por algum apreço. Nas linhas tortuosas de suas histórias amargas e das palavras de onde irrompe fel, mora o deleite de quem esqueceu o gozo. Nos fatos arranjados das tramas nas quais a culpa é sempre alheia, habita a desonestidade terapêutica de quem delega a cura à racionalidade turvada de miragens. Nos desajeitados gestos de quem condena o silêncio de um, vive o desejo da palavra congruente, quiçá crédula de toda leviandade. Nos aborrecimentos estampados lá e cá nas letras dos versos, esconde-se o inferno dos outros, as artimanhas de si mesmo e os pecados inumeráveis de todos.

Inferno segundo Hieronymus Bosch (1450-1516).

Publicado por Ana Bittencourt

escrever para remendar a infância a loucura escrever para estranhar o pai a mãe semelhanças escrever para cerzir terra corpo paisagem escrever carne viva (Tatiana Pequeno)

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