Não há redenção a um poema
Quando os versos que penetram os olhos
Foram afiados na língua.

Escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra.
Não há redenção a um poema
Quando os versos que penetram os olhos
Foram afiados na língua.

Se te pareço ausente, não creias:
hora a hora minha dor agarra-se aos teus braços,
hora a hora meu desejo revolve teus escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites nesse breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.
Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de calar.
Lya Luft (1938 – 2021)

Quando a boca muito fala
E se queixa em demasia
As palavras se perdem
No emaranhado de lamentos, injúrias
E vazios.
Palavras, elas sim,
Janelas da alma.
Não há poema que as salve.

ainda que tudo gire
em torno de fins
e recomeços
calendários
e previsões
sigo desejando
amanhecer.

o louco, a morte, a torre
o descarrilamento do comboio
a (des)crença no destino
a tormenta inclemente
na mente
nos sonhos
nos fatos
na gente.

Na mulher nefasta que habita suas fantasias e enredos esboçados, mora uma criança tola, assustada e ávida por algum apreço. Nas linhas tortuosas de suas histórias amargas e das palavras de onde irrompe fel, mora o deleite de quem esqueceu o gozo. Nos fatos arranjados das tramas nas quais a culpa é sempre alheia, habita a desonestidade terapêutica de quem delega a cura à racionalidade turvada de miragens. Nos desajeitados gestos de quem condena o silêncio de um, vive o desejo da palavra congruente, quiçá crédula de toda leviandade. Nos aborrecimentos estampados lá e cá nas letras dos versos, esconde-se o inferno dos outros, as artimanhas de si mesmo e os pecados inumeráveis de todos.

Todas as vezes
Que te vejo olhar para as coisas
E construir explicações sobre as histórias
Leio interpretações inautênticas
Ideias desordenadas
Frases escalafobéticas.
Posso afirmar sem medo
Que para quem aparenta entender de tudo
Você não entendeu nada.

Da velhice
Sempre invejei
o adormecer
no meio da conversa.
Esse descer de pálpebra
não é nemidade nem cansaço.
Fazer da palavra um embalo
é o mais puro e apurado
senso da poesia.
Mia Couto

Há coisas que têm existência apenas em nossa mente
Nas pueris invencionices que nossa criança interior arquiteta
Sem o filtro da realidade que nos detém e assegura
Sem os laços verdadeiros que nos pertencem
Longe da vida mesma apenas a morte as espera
E quando findas, estremecemos pela infância que habita nossa sensatez
Pelos impulsos impermanentes de outrora
Por ser a aurora tão doce e tão perversa
Por nos colonizarem desejos imperativos e nefastos.
