Cuida-te!

Apropria-te de tua singularidade, antes que esta seja morta por quem elegeres mais capaz de fazer este trabalho por ti, ditando caminhos e definições que não consideram tua alma…

Imposições disfarçadas de benfeitoria escondem predadores que visam, como sempre, sujeitar.

Afasta-te dos que se cobrem de luz. Olha mais de perto, lembra-te que um extremo sempre dá vida ao outro e que a compensação da luz fora, são as trevas dentro.

Contudo não te enganes sobre as trevas.
Sombras negadas são perigosas. Sombras assumidas são cura.

Nina Zobarzo

Óleo sobre linho, Kaye Donachie.

Guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso, melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que de um pássaro sem voos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

(Antonio Cícero)

Lawrence Ferlinghetti, A poesia como arte insurgente, Ed. Relógio D’Água, 2016.