o fundo se fez
raso.
enigma
impulso
fantasia
crença no
não ser.
puxar os fios
soltos.
tecer novas
urdiduras
a partir de
tramas
(mais)
tesas.

Escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra.
o fundo se fez
raso.
enigma
impulso
fantasia
crença no
não ser.
puxar os fios
soltos.
tecer novas
urdiduras
a partir de
tramas
(mais)
tesas.

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso, melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que de um pássaro sem voos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
(Antonio Cícero)

a delicadeza nos chega
na medida em que,
fundo em nossa existência,
dúvidas e enigmas,
começamos a perceber
as dobras e fissuras
de nossa singularidade
em pequenas tragédias
indubitavelmente universais.

Porque a vida é sempre descoberta…

amor é estada
suporte
carinho
que preenche
nossas fissuras
mesmo quando
estamos sozinhos

do amor conheço
o cio
o arrepio
e o rivotril.

há coisas (grandes e pequenas)
nuances de preto ou branco
que só somos capazes de ver
se estivermos (um pouco) cegos.

Sozinhazinha
Me afundo em lembranças
Histórias, tentações
Criadas por mim
Por teadorar.
Dangerousíssima forma de viver
Perdida em enredos
Perfeitos somente
Em histórias ficcionais.

a melodia toca dentro
e o corpo traz materialidade
à composição
transcende tempo e ritmo
imprime intensidade aos movimentos
por vezes, a dança é frenética
subverte os gestos
outras vezes, cadenciada
como uma orquestra,
adiciona, aos poucos, ao ritmo
instrumentos e acordes,
até chegar ao clímax
extasiando, por fim,
músicos e plateia.

Há resgates que passam
por desnudar-se
e se ouvir.
