Corpos bailantes

a melodia toca dentro

e o corpo traz materialidade

à composição

transcende tempo e ritmo

imprime intensidade aos movimentos

por vezes, a dança é frenética

subverte os gestos

outras vezes, cadenciada

como uma orquestra,

adiciona, aos poucos, ao ritmo

instrumentos e acordes,

até chegar ao clímax

extasiando, por fim,

músicos e plateia.

Imagem: Art Colour Ballet Group.

Memória

Não me lembro da primeira vez que li Pessoa, mas não me esqueço do maravilhamento que senti quando conheci seus textos. Também não me esqueço da primeira vez que vi o Tejo, naveguei em suas águas e me senti nos escritos do poeta.

Não me lembro de quando conheci Leminski, nem de quando comprei seu primeiro livro de poemas. Mas lembro de ter pensado, ao lê-lo, que poucos e bons versos compõem uma poesia mais sensível e precisa do que o rebuscamento e o excesso de estrofes.

Não me lembro da primeira vez que escutei as palavras urdidura, insólito ou materialidade, mas sei dos sentidos que, pouco a pouco, elas foram construindo em minha vida e em minhas palavras.

Não sei quando pensei, pela primeira vez, no significado dos versos de Manuel de Barros: “escovar as palavras.” Mas sei que tenho me dedicado, cada vez mais, a remover as interpretações recheadas de lugares-comum das coisas e impregna-las de análise.

Não me lembro da primeira vez que li a expressão “acrescentar camadas ao argumento”, mas posso dizer que esse movimento se torna cada vez mais presente em minha vida para que minhas deduções não sigam apressadas. Do sensível, do detalhe, do fundamental, eu não me esqueço (não mais).

Leituras ininterruptas, de Francine Van Hoven.

Loucura

As coisas da mente são fascinantes, para o bem e para o mal. É maravilhosa a nossa capacidade de pensamento, aprendizado e, ao mesmo tempo, são assustadores os caminhos desviantes que qualquer espírito, em algum momento, pode tomar. Os transtornos mentais são como perguntas que podem ficar sem respostas sobre o nosso sentido de ser e estar no mundo.

A doença mental é apavorante. Por um lado, muitos de nós desconhecem suas causas e, portanto, não sabem se podem vir a sofrer daquele mal. Por outro lado, há sempre dúvidas – inconscientes ou não – sobre possibilidades de “contágio” daquele mal e sobre se, ao estar muito próximo de uma pessoa mentalmente transtornada, podemos adoecer também. Talvez, por estas razões meio estranhas, meio escondidas, meio enigmáticas as doenças da alma sejam as que mais desejamos negar.

Ainda hoje é comum ouvir pessoas dizerem que psicólogos, psiquiatras e psicanalistas são “coisas para malucos”. Em pleno século XXI. E essas “coisas para malucos” me fazem pensar: será que não somos todos um pouco doentes? será que não somos todos, em algum aspecto e frente a determinados desafios, capazes de atitudes estranhas?

Não estou negando a existência de transtornos mentais porque já os vi em pessoas próximas. Sei que o que vivenciei era doença mesmo, não problema de mau comportamento. Entendo, também, que nem todos fazemos loucuras (embora todos sejamos capazes). O que fica em minha mente é o quanto olhar para esses comportamentos nos desconcerta. Lembro que me assustava pensar em quão terrível é perder o controle da própria vida, em como é difícil ver a doença tomar conta da existência de alguém, sobressair à essência do que conhecíamos. Reconheço o quanto é doloroso deixar de enxergar as graças e extravagâncias de algumas atitudes e passar a ver tudo como enfermidade apenas.

Passar a acolher com certa compaixão os comportamentos humanos, os medos, as doenças, a sanidade, as virtudes e defeitos é tarefa árdua e importante. Sair da sombra do horror dos comportamentos estranhos é difícil e desafiador. Assim como é a própria vida, com tantos percalços e julgamentos alheios.

Talvez certa estivesse Lygia Fagundes Telles: solução melhor é não enlouquecer mais do que já enlouquecemos, não tanto por virtude, mas por cálculo. Controlar essa loucura razoável: se formos razoavelmente loucos não precisaremos desses sanatórios porque é sabido que os saudáveis não entendem muito de loucura. O jeito é se virar em casa mesmo, sem testemunhas estranhas. Sem despesas.

Le désespéré, 1844, Gustave Coubert.

Carta

Minha irmã, há quanto tempo não nos vemos! Esta pandemia atrapalhou tudo, os planos, as idas e vindas, os encontros. Já faz meses que não nos encontramos, muito mais do que o período que normalmente passamos afastadas. Isso sem falar do último ano, quando o convívio foi praticamente inexistente.

A falta que os encontros afetivos nos fazem repercute no nosso espírito. Ficamos um pouco mais angustiados e carentes. Há também o medo, enorme em relação a todo este desconhecido.

Estamos mais em casa. Isso tem um lado bom, de voltarmos para dentro, para o que importa. Voltei-me para dentro também em outros sentidos: nos muitos livros que tenho lido, nos filmes que assisto nas tardes de sábado junto às crianças e no tempo maior para o jardim, os cachorros, as estrelas. O vinho está acabando, é verdade. Não, não estamos alcoólatras, apenas podemos desfrutar mais vezes de uma taça ao jantar. Assim como os restaurantes têm me visto menos, a cozinha aqui de casa ficou mais criativa. Há espaço, tempo e apetite para novos pratos, algumas experimentações e bolos aos finais de semana. Sim, você sabe como gosto de café com bolo nas tardes. Isso não mudou.

O que espero que mude é essa distância toda. Desejo que muito em breve possamos nos reunir para partilhar a vida. Às vezes bate um pouco de inquietude e desespero, mas não é possível seguir assim sem adoecer. Então é melhor cuidarmos de nossas fragilidades. As plantas têm me ensinado um pouco sobre o curso das coisas. Não desistiram de florescer em meio a tanto caos.

Imagem: arquivo pessoal.

Outstanding Blogger Award

Nesses últimos dias fui surpreendida por duas indicações, do Ph Vieira e do Guilherme Angra para o Outstanding Blogger Award. Ainda não sei exatamente do que se trata ou como participar, mas, nada que não possa descobrir a contento! 🙂

Muito obrigada a ambos. Senti-me lisonjeada por isso.

REGRAS:

1. Forneça o link para a postagem do prêmio original do criador Colton Beckwith RCP.

2. Responda às perguntas fornecidas

3. Crie 7 perguntas exclusivas. Indique 10 blogueiros. Certifique-se de que eles estão cientes de suas nomeações. Nem o criador do prêmio do blog, nem o blogueiro que o indicou podem ser indicados .

4. No final de 2021 , todos os blogs que enviarem um ping -back da postagem original do criador serão inscritos para ganhar o prémio 2021 OUTSTANDING BLOGGER.

Clique na imagem a baixo e será redirecionado para o link

Seguem as perguntas de Ph Vieira, o primeiro que fez a indicação:

1. Prefere o dia ou a noite, por quê?

Embora adore admirar a lua e as estrelas, sou uma pessoa diurna: acordo e durmo com as galinhas. Assim, o dia sempre me foi mais favorável.

2. Se for dar um tempo, prefere ir para o campo ou litoral? Por quê?

Praia, sempre. Tenho verdadeira paixão pelo litoral.

3. Qual seu diretor de cinema favorito?

De verdade, não faço a menor ideia.

4 .Acredita em Aliens?

Acredito que o universo em que vivemos é muito vasto e complexo para estarmos aqui sozinhos.

5. Prefere vinho ou cerveja?

Vinho, sempre.

6. Tem um poema favorito? Qual?

Difícil escolher um entre tantos que gosto. Mas posso citar alguns: O guardador de rebanhos, de Alberto Caeiro/ Fernando Pessoa, poemas de Mia Couto, Leminski, Manoel Bandeira, Drummond… uma lista que pode se tornar interminável.

7. Por que começou a escrever?

Por necessidade mesmo. Precisava falar, organizar meu pensamento e minhas emoções. Falar e escrever têm um componente analítico. Quando comecei a fazer análise, a escrita ganhou outras camadas: catarses, lapsos, alter-ego e criações.

Seguem meus indicados (há outros que poderia indicar, porque há muitos bons. Alguns não couberam, outros vi que já foram):

capitu está de ressaca

[de repente solteira]

DISCUTINDO CONTEMPORANEIDADES

Amarela Space

Crônicas e Agudas

entre conversas e flores

Peixinho de Prata

Guilherme Lê

Tem Flor

Meus Amores

Minhas perguntas:

1. Que livros leu, gostou e indicaria?

2. Cinema, teatro ou TV? Explique, por favor.

3. Como vê o papel da cultura e da arte na sua vida? Explique, por favor.

4. Cachorro ou gato? Por quê?

5. Se pudesse, viajaria à Lua? Por quê?

6. Cite dois filmes prediletos.

7. Astrologia ou astronomia? Explique, por favor.

É isso! 🙂

Mal dito

Mal ditas são todas as narrativas que nos afastam da verdade. São as palavras que professamos e que escondem mentiras inconfessas. São as rasgaduras forjadas em almas alheias por não sabermos nos expressar corretamente. As coisas que calamos ao engolirmos o que precisa ser dito. Figuras de linguagem que nos afastam do conteúdo ao nos aproximar apenas da forma. Toda a nossa necessidade infantil de aplausos que nos faz ocultar, nos ditos, dores, hiatos, complexidades, contradições, idiossincrasias – o que nos faz humanos.

Mal ditas são todas as falas em demasia que nos cansam pelo excesso. São todos os silêncios que explodem dentro de nós em histórias insensatas. São os versos sem sentido, as vozes em desafino, as opiniões não solicitadas, as alegações inclementes. O mal dito não nos permite construir a urdidura de nossa existência, capaz de nos libertar da escuridão dos vazios sem palavras.

Menhir, Anne Magill, 2020.

Vicissitude

Respeite seu tempo, o fluxo que as coisas dentro de você precisam para se transformar. Olhe para dentro de si e perceba o que necessita para viver os processos. Se outros não gostam dos seus caminhos ou criticam as formas que escolhe para se refazer, lembre-se: eles não calçam seus sapatos.

Não aceite nada menos do que diálogos respeitosos. Afaste-se de quem te faz críticas destrutivas, de quem fala de ti com desprezo ou rancor. Vire a página em relação aos que se afastam sem justificativa: esteja certo que, aos poucos, a tristeza transforma-se em raiva e a raiva em indiferença.

Esteja rodeado por aqueles que multiplicam afeto. Pelos que te amam sem muitas condições; pelos confiáveis e que confiam em ti; pelos gratos, de palavras e gestos que afagam. Sobretudo, fique longe de quem te tira a paz ou subverte a sua sanidade. Viver bem deve ser sempre objetivo de vida.

FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify, 2006.