Aniversário

Meu pequeno hoje faz 15 anos, o que o faz não ser mais tão pequeno assim. Nasceu num belo dia de inverno, ensolarado e frio, final de uma Copa do Mundo. Enquanto todos assistiam ao jogo entre Itália e França, ele se aninhava em meus braços, em meio a murmúrios de recém-nascido.

Gostava muito de colo e continua gostando, embora esteja bem mais alto do que eu. Sempre muito carinhoso e doce, mostrou-se, ao longo do tempo também bravo e espirituoso. Gosta de longas prosas, de piadas, de partilhas de momentos em família, de conversas sobre tudo e sobre o nada. Traz assuntos para discutir entre todos, outros apenas para seu pai e alguns, ainda, apenas para mim.

Curte brincos, pulseira, roupas extravagantes. Faz combinações de peças não tão agradáveis aos mais conservadores. Toca vários instrumentos: saxofone, piano, violão e guitarra. Pede para que o ensine a cozinhar e arrisca preparar alguns pratos. Sabe o que quer e sabe ser ele mesmo. Tem certeza de que é amado e que sempre poderá contar conosco.

Trouxe vida, barulho e movimento para nossa vida e nossa casa. Trouxe ciúmes para o irmão mais velho, com quem divide os pais, a casa, os planos, as conversas. Virou de cabeça para baixo nosso mundo, em meio a uma mudança que veio junto ao seu nascimento. Mas realinhou-nos em outros caminhos, em novos sorrisos e grandes experiências. Trouxe-nos, sobretudo, a certeza do milagre da multiplicação do amor.

Interstício

acabou o baile

e a fantasia jaz

ao lado

da pista

turvam-se

os brocados

desfazem-se

os sorrisos

empoeiram-se

os enfeites

inertes

aproxima-se

o inverno

e as noites

ficam mais

longas

recolho-me

sem sol

sem sonidos

sem esperas.

Melancolia, Amedeo Bocchi, 1927.

Pretérito

Pedi à cartomante

Mudar meu passado

Rasguei as cartas

Tua caligrafia

Insultei tuas neuroses

Escondi minhas manias

Gritei com a parede

Chutei os sapatos

Baguncei tudo

Joguei fora os versos

Tomei taças de gim

Na vã tentativa

De voltar atrás.

The sleep of reason produces monsters, Goya, 1797.