Vertigem

há laços desatados

que se acumulam dentro, em nós na garganta,

atos perversos

que nos poluem com histórias que não queremos viver,

intensos afetos

que nos ferem como lanças em chama na boca do estômago.

há o cansaço,

que rechaça o deboche e mantém apartada a raiva

e a longa espera

diariamente atualizada

por novos dias, novas gentes

e alguma brandura.

Joaquín Sorolla, 1906.

Mãos que abrem portas

(sobre um menino que não aceitava brincar na areia)

Permitir-se. O gesto ancestral do menino, mãos na terra, permite uma conexão que abre portas, quebra barreiras, restaura a experiência.

Abrir-se. O binômio fantástico, tal como em Rodari, mãos-areia abre possibilidades, do sentir da textura ao ver-se sujo de infância.

Entregar-se. O movimento tímido das mãos que se estende aos pés, na areia, retoma a conversa sensorial bebê-mundo e reinaugura o gesto de se entregar à mãe-terra.

Fotografia: arquivo pessoal

Réquiem

“Nenhum problema é insolúvel, nenhuma resposta é derradeira” (Galimberti)

os sentimentos

que brotaram entre os vãos

(que mantive abertos)

se dissipam

quando os deixo escorrer

por entre os medos

(que não mais tenho).

Obra de Riona Buthello.

Calor

sinto tanto medo

dos fantasmas que povoam meus sonhos

e das sombras que se escondem pelo perímetro

que acordo antes do raiar dia

e adormeço ainda com sol.

a vida parece não cansar

de cobrar em dobro

faturas quitadas

excessos incorridos

planejamentos mal feitos

projetos mal sucedidos.

o inverno recomeça

antes que eu tenha vivido

(novamente)

o calor da estação mais tropical.

Obra de Pablo Picasso, 1901

Alheios

há becos escuros em minha garganta

palavras não ditas que se transformam

em anseios sombrios,

vigília e assombrações.

o passado a desamparar o presente

o presente a desconfiar do futuro

o futuro a sepultar idealizações.

o inferno, talvez, sejam mesmo os outros.

Picasso, 1963