abraçar os desígnios
com franqueza
perceber os afetos
com nitidez
entregar-se ao tempo
com mais clareza
corrigir os erros
com calidez
prosseguir
com doçura
reencantar-se
(novamente)
com a vida.

Escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra.
abraçar os desígnios
com franqueza
perceber os afetos
com nitidez
entregar-se ao tempo
com mais clareza
corrigir os erros
com calidez
prosseguir
com doçura
reencantar-se
(novamente)
com a vida.

com quantas cores
se faz um universo?
qual a paleta
do entardecer?

há laços desatados
que se acumulam dentro, em nós na garganta,
atos perversos
que nos poluem com histórias que não queremos viver,
intensos afetos
que nos ferem como lanças em chama na boca do estômago.
há o cansaço,
que rechaça o deboche e mantém apartada a raiva
e a longa espera
diariamente atualizada
por novos dias, novas gentes
e alguma brandura.

(sobre um menino que não aceitava brincar na areia)
Permitir-se. O gesto ancestral do menino, mãos na terra, permite uma conexão que abre portas, quebra barreiras, restaura a experiência.
Abrir-se. O binômio fantástico, tal como em Rodari, mãos-areia abre possibilidades, do sentir da textura ao ver-se sujo de infância.
Entregar-se. O movimento tímido das mãos que se estende aos pés, na areia, retoma a conversa sensorial bebê-mundo e reinaugura o gesto de se entregar à mãe-terra.

Manhã de inverno
Sozinha em casa
Uma xícara de café
No exercício
Do meu direito
Inalienável
De não mais pensar
Em você.

“Nenhum problema é insolúvel, nenhuma resposta é derradeira” (Galimberti)
os sentimentos
que brotaram entre os vãos
(que mantive abertos)
se dissipam
quando os deixo escorrer
por entre os medos
(que não mais tenho).

quando a zombaria nervosa
e debochada
da sandice
substitui o antes riso largo
e espontâneo
da amabilidade
é porque a curva já se fez
fechada
e os olhos só descansarão
se bem abertos.

sinto tanto medo
dos fantasmas que povoam meus sonhos
e das sombras que se escondem pelo perímetro
que acordo antes do raiar dia
e adormeço ainda com sol.
a vida parece não cansar
de cobrar em dobro
faturas quitadas
excessos incorridos
planejamentos mal feitos
projetos mal sucedidos.
o inverno recomeça
antes que eu tenha vivido
(novamente)
o calor da estação mais tropical.

é mito ou é fato
achar que dá sorte
uma borboleta
na cortina do quarto?

há becos escuros em minha garganta
palavras não ditas que se transformam
em anseios sombrios,
vigília e assombrações.
o passado a desamparar o presente
o presente a desconfiar do futuro
o futuro a sepultar idealizações.
o inferno, talvez, sejam mesmo os outros.
