o concerto de corpos
ritmado por risos
e sussurros
torna-se suspenso
nos instantes
em que assumem
a regência
nossos lábios impuros.

Escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra.
o concerto de corpos
ritmado por risos
e sussurros
torna-se suspenso
nos instantes
em que assumem
a regência
nossos lábios impuros.

os versos a serem escritos
perderam-se no precipício
dos instantes infinitesimais
entre o antes e o agora
emaranharam-se no rol
de silêncios abissais emitidos
morreram nos desejos
insustentáveis profanados
no céu da sua boca.

teus olhos felinos
a me espreitar o sono
tuas mãos vacilantes
a acariciar meu dorso
teus argumentos exaustivos
a rodopiar em minha mente
tuas paranoias criativas
a martelar meu espaço distante
traços fantasmagóricos
de uma outra história
estranhas lembranças
de alguma outra vida
a arrancar palavras suaves
para calar a cobiça
a gritar silêncios cortantes
para declarar a ruína.

às seis da manhã passo um café
e sento com meus fantasmas
botamos as cartas na mesa
sobre luto, cicatrizes, memórias.
falamos das marcas gravadas na pele
dos caminhos, escolhas e histórias
e discutimos sobre
reparações.
choro revelando
lembranças que permanecem
(embora não permaneçamos os mesmos),
incômodos que ficam
e tropeços.
confesso que os sonhos da noite
são cada vez mais raros durante os dias
e que a perda da inocência
é quase tão dura
quantos os golpes, quase tão triste
quanto a morte.

O contraponto
do príncipe
é o sapo.
O da quimera,
a realidade
sempre a nos gritar
os fatos.

O frio seco desgrenha os cabelos e
traz ventos de memórias antigas,
desejo de desconhecer dores,
de reescrever capítulos,
e restaurar afetos.
Ontem, um pouco de chuva
veio molhar meus olhos.
Hoje, há jazz e café servidos na mesa.

Por quase 360 dias
Nos embriagamos
De versos
Champanhe
E risos.
Pena a sobriedade
Me cair tão bem.

abraçar os desígnios
com franqueza
perceber os afetos
com nitidez
entregar-se ao tempo
com mais clareza
corrigir os erros
com calidez
prosseguir
com doçura
reencantar-se
(novamente)
com a vida.

com quantas cores
se faz um universo?
qual a paleta
do entardecer?

há laços desatados
que se acumulam dentro, em nós na garganta,
atos perversos
que nos poluem com histórias que não queremos viver,
intensos afetos
que nos ferem como lanças em chama na boca do estômago.
há o cansaço,
que rechaça o deboche e mantém apartada a raiva
e a longa espera
diariamente atualizada
por novos dias, novas gentes
e alguma brandura.
