Epílogo

os versos a serem escritos

perderam-se no precipício

dos instantes infinitesimais

entre o antes e o agora

emaranharam-se no rol

de silêncios abissais emitidos

morreram nos desejos

insustentáveis profanados

no céu da sua boca.

Obra de Malcolm T. Liepke

Escombros

teus olhos felinos

a me espreitar o sono

tuas mãos vacilantes

a acariciar meu dorso

teus argumentos exaustivos

a rodopiar em minha mente

tuas paranoias criativas

a martelar meu espaço distante

traços fantasmagóricos

de uma outra história

estranhas lembranças

de alguma outra vida

a arrancar palavras suaves

para calar a cobiça

a gritar silêncios cortantes

para declarar a ruína.

Aquarela de Robert Duxbury.

Invernal

às seis da manhã passo um café

e sento com meus fantasmas

botamos as cartas na mesa

sobre luto, cicatrizes, memórias.

falamos das marcas gravadas na pele

dos caminhos, escolhas e histórias

e discutimos sobre

reparações.

choro revelando

lembranças que permanecem

(embora não permaneçamos os mesmos),

incômodos que ficam

e tropeços.

confesso que os sonhos da noite

são cada vez mais raros durante os dias

e que a perda da inocência

é quase tão dura

quantos os golpes, quase tão triste

quanto a morte.

Obra de Picasso, 1902.

Ficção

O frio seco desgrenha os cabelos e

traz ventos de memórias antigas,

desejo de desconhecer dores,

de reescrever capítulos,

e restaurar afetos.

Ontem, um pouco de chuva

veio molhar meus olhos.

Hoje, há jazz e café servidos na mesa.

Obra de Ron Hicks.