há uma fissura em
algum lugar
da alma
de onde emergem
demandas
pueris
tolas
infantes
incrustadas num
beco escuro
da memória
dos tempos
imemoriais.

Escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra.
há uma fissura em
algum lugar
da alma
de onde emergem
demandas
pueris
tolas
infantes
incrustadas num
beco escuro
da memória
dos tempos
imemoriais.

na aridez dos tempos
achar por entre as frestas
risos em cores
cafés com creme
conversas em si bemol
e um punhado
de estrelas
amontoadas no meio
do peito.

sempre nos é permitido
repensar o pensado
rever um argumento
escolher outro caminho
reparar uma história.
como um jogo nada infantil
a vida sempre pode ser desfeita
e refeita
com um novo arranjo
de novo
e de novo
outra vez
e mais uma.

me perdi entre as vírgulas do texto
sem palavras
em busca do sentido metafórico
das estrofes entre
parênteses
querendo algum indício de sua
caligrafia perfeita
para guardar com os cartões postais
dos lugares
onde não estivemos.

ainda que o frio da noite
e o escuro dos dias
nos deixem menos
confortados
ainda que o estranho dos outros
e os tormentos da mente
nos tornem menos
crentes
é certo que o dia nasce
e o sol amanhece.

a chuva fez sumir
os pássaros
os credores
e os dilemas.
a noite, muda,
seguiu tão escura
quanto o quarto dos fundos,
tão silenciosa
quanto uma sala de espera.

da janela
observo o gato do vizinho
roçar as unhas
nas almofadas da varanda
de outra casa
depois de caminhar
incólume
pelo capô dos carros.
o gato do vizinho
só não é mais calhorda
do que os teus poemas.

escutar os carros
que correm pela avenida
ao longe
e pensar com quantos
decibéis
se gritam
os desejos mais
urgentes

matar um leão por dia
me ensinou a rosnar
mesmo quando, deitada sob o sol,
me esqueço dessa vida
selvagem.

às vezes não me lembro e,
se recordo, não me reconheço
de tantas que fui
do quanto mudei.
renasço!
quem fui, não sou mais
quem vou ser, ainda não sei.
