Guarida

vou passar por aí nesta semana

para combinarmos de sair um pouco dos trilhos

não que a vida já não esteja descarrilada

mas preciso tomar uma soda italiana

e lembrar das risadas que dividíamos

quando imitávamos os mais velhos

dando sermões por quase nada

preciso pegar em suas mãos

para guardar a certeza de que não estou só

e de que a vida sempre pode renascer

na próxima estação

mesmo que deixemos umas partes de nós

pela estrada.

Óleo de Joseph Lorusso.

Glacial

faz frio

e a chuva escorre gotas

de inverno

sinto o corpo trêmulo

tão gelado

quanto a aurora

busco outras pernas

para enlaçar nas minhas

num desesperado desejo

por qualquer conforto

aqueço-me

no mormaço do corpo

como quem bebe

para afastar

os maus espíritos

os turbilhões

e as crises

como quem pede

para dormir

esquecer

e continuar.

Óleo de Casey Baugh.

Experimentação

quando mergulhei naquele rio lodoso, eu estava de costas, nunca havia mergulhado em rio, tampouco de costas, não conhecia a profundidade, o terror escuro do fundo, as águas que pareceram me carregar para a morte, machuquei-me ao tocar o piso quando alcancei o pé e um tanto mais ao sair da água e carreguei as marcas, o sangue escorrido, a sensação de desespero por muito tempo.

entendi que não posso com rios, não gosto da textura suja de suas águas, da sensação de se perder em seu leito, um escuro inominável, do desespero por não conseguir respirar, não conseguir pensar, em ter que sair aos tropeços, abruptamente, desejando fugir de suas margens, de seu curso incerto, de seus peixes sem escamas.

voltei ao mar, seu movimento azul, seu tempero úmido e salgado, seus abraços quase a me derrubar.

tornei a colecionar conchas de muitas estrias e formatos, com sua música a lembrar tempos uterinos.

estendi-me ao sol, pés muito fincados no chão de areia branca, quente, delicados grãos.

voltei à minha casa, talvez destino, escrito nas estrelas do zodíaco de meu mapa astral desconhecido.

meu signo decerto é solar.

Obra de Aykut Aydoğdu, 2019.

Resistência

no átrio

ou ventrículo

(não sei)

ficou alojada

a bala de prata

que tentou matar meus sonhos.

não morri

tampouco os planos.

meu coração

se sustenta

em costuras de teimosia

e persistência,

em camadas

de diligência

e paixão.

Escultura em madeira de Jean-Baptiste Boutin.

Enfrente as feras

a ferocidade do viver

ao subjugar o caos

o inevitável e

o (quase) incontornável

ao enfrentar

o descrédito na humanidade

e o medo da iniquidade

sobrevive aos nossos piores dias

aos nossos piores medos

aos caprichos da vida

ao imprevisto das horas

para nos amparar

no ontem, no agora e

(queira deus)

pelos séculos

(amém).

Desenho de Vladimira Fokanov.

Desmonte

numa quase distopia

análises nada sintéticas

engendram argumentos falaciosos

e marcam outros corpos e mentes

com medos inconscientes

e duras palavras terminantes

a diáspora da fantasia perdida

é sempre incontornável.

Escultura em aço de Regardt Van Der Meulen, 2020.

Meia-idade

Quando temos 18, fazer 50 anos nos parece tão distante…

Lembro-me quando completei 39 e (privilégio dos 9), tive uma crise de meia-idade. No instante em que me dei conta de que aquele era o último ano com 30, senti, de súbito, o tempo passar em mim. Afinal, quando eu era criança e ouvia alguém dizer que tinha 40 anos, pensava: que velho! Pois, então, pensei o mesmo de mim ao me dar conta de que no ano seguinte faria 40: que velha!

Essa crise durou alguns meses e veio acompanhada de alguns sintomas: pensei em engravidar novamente (segundo minha terapeuta, a fertilidade é uma espécie de “prova de juventude”), comecei a fazer academia todos os dias, quis fazer botox, fiquei mais ansiosa. Em vão! No ano seguinte, inequivocamente, fiz 40. Com o passar do tempo, comecei a achar que eu nem estava tão velha assim, como eu achava que eram os quarentões quando eu era criança.

Hoje, fazendo 50, olho para trás e rio disso. E conto isso para os amigos em crise de meia-idade. Ainda me sinto bastante jovem, trabalho, vou à academia sem angústia, tenho mil afazeres, além de planos (comecei a fazer doutorado no último ano). Replico minha avó: só fica velho quem não morre. Sim, embora o tempo não nos perdoe com algumas ruguinhas e fios brancos, é um privilégio fazer 40, 50, 60, 70, 80…, o privilégio dos que vivem, dos que estão no jogo, dos que permanecem.

Não que a vida seja fácil. É complicada, difícil, intrigante, exigente. Às vezes dá vontade de chorar, sair correndo, sumir por alguns dias, fazer birra, gritar de raiva… Mas também vamos aprendendo, pouco a pouco, a nos acalmar, a não ligar para um monte de bobagens, a rir um pouco mais de tudo e de nós mesmos, a curtir muitos bons momentos que temos. Vamos encarando os desafios com uma outra cara (literalmente!). Seguimos vivendo a marcha inexorável da vida, como quem aceita estar aqui e agora (nesse pedaço de tempo-espaço que nos foi destinado), eternamente aprendendo a cair, levantar e escolher nossas batalhas. Talvez, envelhecer seja sobre isso e somente isso.

Obra de Silvio Alvarez.

Aleatórias

a maturidade

apaga arrependimentos

e aquieta o desejo

de perfeição

****

errei muito,

várias vezes,

errarei

até o fim

***

dançamos sob a lua

e nossos risos ecoaram

pela noite

o sol

não apaga a felicidade

da madrugada

**

não quero mágoas

nem tantas lembranças

tenho preferido

vodka com gelo e limão

*

ando mais atenta

aos detalhes

e muito distraída

dos supérfluos.

Escultura de Małgorzata Chodakowska, 2019.