Desmonte

numa quase distopia

análises nada sintéticas

engendram argumentos falaciosos

e marcam outros corpos e mentes

com medos inconscientes

e duras palavras terminantes

a diáspora da fantasia perdida

é sempre incontornável.

Escultura em aço de Regardt Van Der Meulen, 2020.

Meia-idade

Quando temos 18, fazer 50 anos nos parece tão distante…

Lembro-me quando completei 39 e (privilégio dos 9), tive uma crise de meia-idade. No instante em que me dei conta de que aquele era o último ano com 30, senti, de súbito, o tempo passar em mim. Afinal, quando eu era criança e ouvia alguém dizer que tinha 40 anos, pensava: que velho! Pois, então, pensei o mesmo de mim ao me dar conta de que no ano seguinte faria 40: que velha!

Essa crise durou alguns meses e veio acompanhada de alguns sintomas: pensei em engravidar novamente (segundo minha terapeuta, a fertilidade é uma espécie de “prova de juventude”), comecei a fazer academia todos os dias, quis fazer botox, fiquei mais ansiosa. Em vão! No ano seguinte, inequivocamente, fiz 40. Com o passar do tempo, comecei a achar que eu nem estava tão velha assim, como eu achava que eram os quarentões quando eu era criança.

Hoje, fazendo 50, olho para trás e rio disso. E conto isso para os amigos em crise de meia-idade. Ainda me sinto bastante jovem, trabalho, vou à academia sem angústia, tenho mil afazeres, além de planos (comecei a fazer doutorado no último ano). Replico minha avó: só fica velho quem não morre. Sim, embora o tempo não nos perdoe com algumas ruguinhas e fios brancos, é um privilégio fazer 40, 50, 60, 70, 80…, o privilégio dos que vivem, dos que estão no jogo, dos que permanecem.

Não que a vida seja fácil. É complicada, difícil, intrigante, exigente. Às vezes dá vontade de chorar, sair correndo, sumir por alguns dias, fazer birra, gritar de raiva… Mas também vamos aprendendo, pouco a pouco, a nos acalmar, a não ligar para um monte de bobagens, a rir um pouco mais de tudo e de nós mesmos, a curtir muitos bons momentos que temos. Vamos encarando os desafios com uma outra cara (literalmente!). Seguimos vivendo a marcha inexorável da vida, como quem aceita estar aqui e agora (nesse pedaço de tempo-espaço que nos foi destinado), eternamente aprendendo a cair, levantar e escolher nossas batalhas. Talvez, envelhecer seja sobre isso e somente isso.

Obra de Silvio Alvarez.

Aleatórias

a maturidade

apaga arrependimentos

e aquieta o desejo

de perfeição

****

errei muito,

várias vezes,

errarei

até o fim

***

dançamos sob a lua

e nossos risos ecoaram

pela noite

o sol

não apaga a felicidade

da madrugada

**

não quero mágoas

nem tantas lembranças

tenho preferido

vodka com gelo e limão

*

ando mais atenta

aos detalhes

e muito distraída

dos supérfluos.

Escultura de Małgorzata Chodakowska, 2019.

Ondeante

foi tempo a descobrir

que o compasso da música é dado de dentro

que dançar é mesmo o movimento da vida

esse bailado sem pausas

em ritmos diversos

escolhidos

no vai e vem dos ruídos e dos silêncios

das pessoas e dos gestos

das histórias e dos anseios.

Obra de Michele Poirier-Mozzone, 2021.

Metade

não me agradam antigas versões minhas

estranhas escolhas, outros pensamentos

a vida se aproxima da metade de um século

e me pego em fase revisional –

entristeço-me pelos erros,

pelas histórias sedentas de paz,

pelas saudades dos que foram,

pelos que nunca deveriam ter vindo,

pelos lapsos de reflexão,

pelas prioridades invertidas,

pelas certezas desleixadas e

por só conseguir me acalmar agora,

já na metade de um século,

quando me vejo menos distraída

e mais cansada,

quando percebo que a vida

corre como flecha, sem volta,

sem freio,

no caos.

Obra de Andrea Berni