a chegada do outono
parece nos perdoar
de nossos erros
até mesmo daqueles
que cometemos
sem querer.

Escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra.
a chegada do outono
parece nos perdoar
de nossos erros
até mesmo daqueles
que cometemos
sem querer.

foi tempo a descobrir
que o compasso da música é dado de dentro
que dançar é mesmo o movimento da vida
esse bailado sem pausas
em ritmos diversos
escolhidos
no vai e vem dos ruídos e dos silêncios
das pessoas e dos gestos
das histórias e dos anseios.

não me agradam antigas versões minhas
estranhas escolhas, outros pensamentos
a vida se aproxima da metade de um século
e me pego em fase revisional –
entristeço-me pelos erros,
pelas histórias sedentas de paz,
pelas saudades dos que foram,
pelos que nunca deveriam ter vindo,
pelos lapsos de reflexão,
pelas prioridades invertidas,
pelas certezas desleixadas e
por só conseguir me acalmar agora,
já na metade de um século,
quando me vejo menos distraída
e mais cansada,
quando percebo que a vida
corre como flecha, sem volta,
sem freio,
no caos.

O tempo voa
disse-me o pássaro
ao pousar.
Vi, em seus olhos,
que ele entendia
de tempo
(e de voo)
melhor do que eu.

travada na porta
giratória
penso –
com quantos
aneis
se planeja
um delito?

entrevistador parece
esquecer de perguntar
sobre as questões mais fundamentais:
1. são muitas as suas dores?
2. com quem você pode contar?

querer e querer
esquecer
do caos do mundo e
de cada um
das pequenas tragédias
pessoais
e públicas
da nossa humanidade
frágil
e altiva
desta vida
estranha
e imprevisível.

quis encontrar uma estrela em teus olhos
dançar, inda menina, nos teus palcos
ser-te atriz principal de meus melhores papeis
enquanto rompia as correntes de um vazio sem nome
e buscava alguma crença em qualquer merecimento.
esqueci-me menina nas minhas fantasias inseguras
nos desejos que busquei atrás das portas
ou entre as frestas nas janelas
quis encontrar sentido em mistérios, contos e horóscopos
e deixei de cultivar a antiga mania de temer o que não conhecia.
que dor profunda em se crescer!
fui extirpar pedaços, carcaças, lágrimas secas
mergulhei fundo e toquei o lodo que esconde nossos pés quando afundamos
larguei as roupas velhas, úmidas, floridas
deixei os cadernos, as cartas, os adereços em cores
ao lado do jazigo onde enterrei minhas antigas versões acabadas
vez ou outra procuro estrelas, agora no céu, onde repouso meus olhos
enquanto algumas lembranças percorrem meus lutos
para eu me ter finalmente presente em mim mesma.

quando te conheci
me perdi
enlouqueci
me consumi.
isto pode parecer
lindo
romântico
poético
mas a verdade
dura
nua
crua
é que isso é
o fim
