querer e querer
esquecer
do caos do mundo e
de cada um
das pequenas tragédias
pessoais
e públicas
da nossa humanidade
frágil
e altiva
desta vida
estranha
e imprevisível.

Escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra.
querer e querer
esquecer
do caos do mundo e
de cada um
das pequenas tragédias
pessoais
e públicas
da nossa humanidade
frágil
e altiva
desta vida
estranha
e imprevisível.

quis encontrar uma estrela em teus olhos
dançar, inda menina, nos teus palcos
ser-te atriz principal de meus melhores papeis
enquanto rompia as correntes de um vazio sem nome
e buscava alguma crença em qualquer merecimento.
esqueci-me menina nas minhas fantasias inseguras
nos desejos que busquei atrás das portas
ou entre as frestas nas janelas
quis encontrar sentido em mistérios, contos e horóscopos
e deixei de cultivar a antiga mania de temer o que não conhecia.
que dor profunda em se crescer!
fui extirpar pedaços, carcaças, lágrimas secas
mergulhei fundo e toquei o lodo que esconde nossos pés quando afundamos
larguei as roupas velhas, úmidas, floridas
deixei os cadernos, as cartas, os adereços em cores
ao lado do jazigo onde enterrei minhas antigas versões acabadas
vez ou outra procuro estrelas, agora no céu, onde repouso meus olhos
enquanto algumas lembranças percorrem meus lutos
para eu me ter finalmente presente em mim mesma.

quando te conheci
me perdi
enlouqueci
me consumi.
isto pode parecer
lindo
romântico
poético
mas a verdade
dura
nua
crua
é que isso é
o fim

há uma fissura em
algum lugar
da alma
de onde emergem
demandas
pueris
tolas
infantes
incrustadas num
beco escuro
da memória
dos tempos
imemoriais.

na aridez dos tempos
achar por entre as frestas
risos em cores
cafés com creme
conversas em si bemol
e um punhado
de estrelas
amontoadas no meio
do peito.

sempre nos é permitido
repensar o pensado
rever um argumento
escolher outro caminho
reparar uma história.
como um jogo nada infantil
a vida sempre pode ser desfeita
e refeita
com um novo arranjo
de novo
e de novo
outra vez
e mais uma.

me perdi entre as vírgulas do texto
sem palavras
em busca do sentido metafórico
das estrofes entre
parênteses
querendo algum indício de sua
caligrafia perfeita
para guardar com os cartões postais
dos lugares
onde não estivemos.

ainda que o frio da noite
e o escuro dos dias
nos deixem menos
confortados
ainda que o estranho dos outros
e os tormentos da mente
nos tornem menos
crentes
é certo que o dia nasce
e o sol amanhece.

a chuva fez sumir
os pássaros
os credores
e os dilemas.
a noite, muda,
seguiu tão escura
quanto o quarto dos fundos,
tão silenciosa
quanto uma sala de espera.

da janela
observo o gato do vizinho
roçar as unhas
nas almofadas da varanda
de outra casa
depois de caminhar
incólume
pelo capô dos carros.
o gato do vizinho
só não é mais calhorda
do que os teus poemas.
