Acordei pensando no quão injusto é que só possamos experienciar a vida a partir do nosso corpo. Uma vida todinha a partir do mesmo corpo, que sequer é o mesmo a vida toda. E quão injusto é com o mundo que cada habitante só saiba de si. Os passarinhos cantam lá fora e não sei o que os causa. Por que me importo? Como alguém não se ocupa disso? É segunda-feira e as pessoas bem adaptadas seguem em seus mundinhos ordinários. Eu sigo mais ou menos adaptada com minha vida mediana. Há quem me agradeça por escrever e até por existir. Quase tenho vergonha, porque eu só faço isso porque não sei como não fazer isso. Queria ao menos uma vez sentir a vida, a comida, o amor a partir de outro corpo. Mas isso não seria arrebentar-me? Existir nesse corpo já é excessivamente trabalhoso. Sempre há uma conta no banco a ser fechada, recomendações médicas a atender. Existir é trabalhoso, exige dedicação e tempo. Então escuto pessoas, leio livros, amo e às vezes até escrevo. É uma pequena forma de quase borrar a enorme limitação que é viver a partir do mesmo lugar, meu mirrado eu. Os gurus, cada vez mais, vendem técnicas de como viver, de como amar a própria imagem e fazer os outros pensarem que a amam. Pra quê? Para nos distrairmos da radical falta de sentido disso tudo? Lembro de Adélia Prado, que escreveu que às vezes Deus lhe tira a poesia, que olha pedra e vê pedra mesmo. É porque às vezes Deus me tira poesia que escrevo. Será que é Deus também que me acorda e me faz escrever esse texto? Deus me tira o sono e me dá a escrita? Será que Deus é, para muitos, a possibilidade de suportar a vida apostando que há algo antes e depois de nossas abissais limitações? E os gurus, cada vez mais jovens, vendendo técnicas de como viver e sentir alegria. Sabemos tão pouco, somos tão pouco! Talvez isso seja eu, é só do que posso saber. Do meu escasso corpo, da minha pequenina mente, do meu limitado amor, meu meu meu, eu eu eu. Tão pouco e tão trabalhoso. Há quem leia meus dilemas existenciais e siga me agradecendo por escrever. Há quem vá escrever algo aqui ou para mim dizendo uma intimidade sua, um pequeno grão de sua verdade. O inverso dos gurus grandiosos. Como as pequenezas me interessam!…
Ana Suy









