o que estou pensando
quando me furto
de ver obviedades
quando me convenço
de que há uma saída
quando finjo
que pode ser possível?
onde estou quando
não estou pensando?

Escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra.
o que estou pensando
quando me furto
de ver obviedades
quando me convenço
de que há uma saída
quando finjo
que pode ser possível?
onde estou quando
não estou pensando?

a vida entrecortada por tua ausência
a espera quase sem trégua
pelas tuas aparições
deserto sem nome
noite sem lua
sede sem solução
nada é mais cortante que
a tua falta.

Monocórdicas
Foram as tardes
Que sucederam
Aquela sentença
Entrecortadas apenas
Pelo som do vento
A nos afastar do destino.

deita comigo
para desvendar meu sono
entrelaça suas pernas nas minhas
enquanto enlaçamos nosso gozo
acende mais meu desejo
(se for possível)
me chama a sonhar a vida
enquanto descanso em seu corpo

curativos não escondem machucados
tatuados a lâmina,
globulares carimbos de cigarro
muitas marcas aparentes
que (sem desejar, sem avisar)
jogam meus olhos para as peles lisas
para os sonhos realizados
para aqueles a quem a vida
parece ser indolor.

sinto-me rendida ao seu sorriso
entregue, desnuda, ganha
sorriso-convite aos teus encantos
teus mistérios, teu universo
a me encantar, me abandonar, me vencer
a viver e morrer na sua boca.

há tempestades incontidas em meu peito
que entrelaçam chuvas de amor e desassossego
cujos trovões me despertam na madrugada, sem rumo
ou me mantem em vigília enquanto durmo
precipito, por vezes, cega e doente que me sinto
não sei se pela falta de fé ou desejo de futuro
mas o descanso me escorre pelas noites
pelos barulhos dos raios e pelos meus murmúrios
te tenho em mim como um vício
as crises de abstinência de tua ausência
me viram do avesso, me atingem fundo
te querer é quase como uma febre, um desatino
e, ao mesmo tempo, descanso dos meus infortúnios

Acordei pensando no quão injusto é que só possamos experienciar a vida a partir do nosso corpo. Uma vida todinha a partir do mesmo corpo, que sequer é o mesmo a vida toda. E quão injusto é com o mundo que cada habitante só saiba de si. Os passarinhos cantam lá fora e não sei o que os causa. Por que me importo? Como alguém não se ocupa disso? É segunda-feira e as pessoas bem adaptadas seguem em seus mundinhos ordinários. Eu sigo mais ou menos adaptada com minha vida mediana. Há quem me agradeça por escrever e até por existir. Quase tenho vergonha, porque eu só faço isso porque não sei como não fazer isso. Queria ao menos uma vez sentir a vida, a comida, o amor a partir de outro corpo. Mas isso não seria arrebentar-me? Existir nesse corpo já é excessivamente trabalhoso. Sempre há uma conta no banco a ser fechada, recomendações médicas a atender. Existir é trabalhoso, exige dedicação e tempo. Então escuto pessoas, leio livros, amo e às vezes até escrevo. É uma pequena forma de quase borrar a enorme limitação que é viver a partir do mesmo lugar, meu mirrado eu. Os gurus, cada vez mais, vendem técnicas de como viver, de como amar a própria imagem e fazer os outros pensarem que a amam. Pra quê? Para nos distrairmos da radical falta de sentido disso tudo? Lembro de Adélia Prado, que escreveu que às vezes Deus lhe tira a poesia, que olha pedra e vê pedra mesmo. É porque às vezes Deus me tira poesia que escrevo. Será que é Deus também que me acorda e me faz escrever esse texto? Deus me tira o sono e me dá a escrita? Será que Deus é, para muitos, a possibilidade de suportar a vida apostando que há algo antes e depois de nossas abissais limitações? E os gurus, cada vez mais jovens, vendendo técnicas de como viver e sentir alegria. Sabemos tão pouco, somos tão pouco! Talvez isso seja eu, é só do que posso saber. Do meu escasso corpo, da minha pequenina mente, do meu limitado amor, meu meu meu, eu eu eu. Tão pouco e tão trabalhoso. Há quem leia meus dilemas existenciais e siga me agradecendo por escrever. Há quem vá escrever algo aqui ou para mim dizendo uma intimidade sua, um pequeno grão de sua verdade. O inverso dos gurus grandiosos. Como as pequenezas me interessam!…
Ana Suy

a cidade se mostra com seus muros altos e cinzas
de onde florescem concertinas, alarmes e cercas
as ruas semi cheias de grandes carros inurbanos
a compensar as pequenas mentes dos proprietários
o seco calor que inflama as ideias e os afetos
com grandes enxurradas de incômodos
as rasas crenças em diminutas autoridades
servis a gestos e juízos censuráveis
os saltos muito finos das opulentas senhoras
deselegantes em seus inumeráveis e ridículos excessos
a superficialidade perene dos gestos e afagos
a nos atirar fundo em desejos de trair
o pretenso ordenamento do caos,
de ruptura às histórias toscas e pueris,
de fuga para uma Pasárgada à beira-mar.

no caminho indeterminado da vida
– poeira, cascalhos, atalhos e curvas-
há imprevistos que nos desconcertam,
nos fazem perder a marcha,
ralar os joelhos, machucar as mãos.
sentimo-nos cochos, vulgares,
desprovidos da beleza
que o balé dos movimentos
provoca em quem o vê.
nem sempre fecham-se as feridas,
quase nunca esquecem-se os tombos,
fatalmente permanecem as cicatrizes.
