Febre

há tempestades incontidas em meu peito

que entrelaçam chuvas de amor e desassossego

cujos trovões me despertam na madrugada, sem rumo

ou me mantem em vigília enquanto durmo

precipito, por vezes, cega e doente que me sinto

não sei se pela falta de fé ou desejo de futuro

mas o descanso me escorre pelas noites

pelos barulhos dos raios e pelos meus murmúrios

te tenho em mim como um vício

as crises de abstinência de tua ausência

me viram do avesso, me atingem fundo

te querer é quase como uma febre, um desatino

e, ao mesmo tempo, descanso dos meus infortúnios

Marc Chagall, aquarela e guache, 1917.

Introspectar

Acordei pensando no quão injusto é que só possamos experienciar a vida a partir do nosso corpo. Uma vida todinha a partir do mesmo corpo, que sequer é o mesmo a vida toda. E quão injusto é com o mundo que cada habitante só saiba de si. Os passarinhos cantam lá fora e não sei o que os causa. Por que me importo? Como alguém não se ocupa disso? É segunda-feira e as pessoas bem adaptadas seguem em seus mundinhos ordinários. Eu sigo mais ou menos adaptada com minha vida mediana. Há quem me agradeça por escrever e até por existir. Quase tenho vergonha, porque eu só faço isso porque não sei como não fazer isso. Queria ao menos uma vez sentir a vida, a comida, o amor a partir de outro corpo. Mas isso não seria arrebentar-me? Existir nesse corpo já é excessivamente trabalhoso. Sempre há uma conta no banco a ser fechada, recomendações médicas a atender. Existir é trabalhoso, exige dedicação e tempo. Então escuto pessoas, leio livros, amo e às vezes até escrevo. É uma pequena forma de quase borrar a enorme limitação que é viver a partir do mesmo lugar, meu mirrado eu. Os gurus, cada vez mais, vendem técnicas de como viver, de como amar a própria imagem e fazer os outros pensarem que a amam. Pra quê? Para nos distrairmos da radical falta de sentido disso tudo? Lembro de Adélia Prado, que escreveu que às vezes Deus lhe tira a poesia, que olha pedra e vê pedra mesmo. É porque às vezes Deus me tira poesia que escrevo. Será que é Deus também que me acorda e me faz escrever esse texto? Deus me tira o sono e me dá a escrita? Será que Deus é, para muitos, a possibilidade de suportar a vida apostando que há algo antes e depois de nossas abissais limitações? E os gurus, cada vez mais jovens, vendendo técnicas de como viver e sentir alegria. Sabemos tão pouco, somos tão pouco! Talvez isso seja eu, é só do que posso saber. Do meu escasso corpo, da minha pequenina mente, do meu limitado amor, meu meu meu, eu eu eu. Tão pouco e tão trabalhoso. Há quem leia meus dilemas existenciais e siga me agradecendo por escrever. Há quem vá escrever algo aqui ou para mim dizendo uma intimidade sua, um pequeno grão de sua verdade. O inverso dos gurus grandiosos. Como as pequenezas me interessam!…

Ana Suy

Óleo sobre tela de Donna Young

Cidade Terminal

a cidade se mostra com seus muros altos e cinzas

de onde florescem concertinas, alarmes e cercas

as ruas semi cheias de grandes carros inurbanos

a compensar as pequenas mentes dos proprietários

o seco calor que inflama as ideias e os afetos

com grandes enxurradas de incômodos

as rasas crenças em diminutas autoridades

servis a gestos e juízos censuráveis

os saltos muito finos das opulentas senhoras

deselegantes em seus inumeráveis e ridículos excessos

a superficialidade perene dos gestos e afagos

a nos atirar fundo em desejos de trair

o pretenso ordenamento do caos,

de ruptura às histórias toscas e pueris,

de fuga para uma Pasárgada à beira-mar.

Acrílico recente de Josef Kote.

Imprevisível

no caminho indeterminado da vida

– poeira, cascalhos, atalhos e curvas-

há imprevistos que nos desconcertam,

nos fazem perder a marcha,

ralar os joelhos, machucar as mãos.

sentimo-nos cochos, vulgares,

desprovidos da beleza

que o balé dos movimentos

provoca em quem o vê.

nem sempre fecham-se as feridas,

quase nunca esquecem-se os tombos,

fatalmente permanecem as cicatrizes.

Escultura em bronze de Lotta Blokker.