Perdão

Não vou te perdoar

Simplesmente porque não há razões

Não há mal algum

Desajuste

Instabilidade

Ou colapso

Que tenha causado

Que eu não tenha feito antes

(e pior)

A mim

E a ti.

Não precisas de perdão

Desculpas

Ou retratações.

Nunca foi necessário.

Quanto a mim,

Que Deus, pelo menos,

Tenha piedade das minhas faltas

Estranhezas

Loucuras

E dos males que causei

Mesmo que despropositados.

Obra de Seyo Cizmic

Análise

Deito-me no divã

E me escuto falar

Da minha compreensão obtusa

Dos papéis encenados

Dos imbróglios tão pouco alheios

Dos meus hiatos

Dos meus lapsos de juízo

Das minhas atuações…

Vejo-me tola e insensata

Amaldiçoada por rastros de devaneios

Que criam irrealidades

E perpetuam gestos hiperbólicos.

Encontro-me menina de novo e de novo

Farto a memória

Expio culpas e rearranjo histórias

Calo-me, por fim.

E meus silêncios dizem mais do que me fiz escutar.

Anoiteço e amanheço do avesso

Entrecortada que estou por tanta singularidade.

Arquivo Pessoal, Museu Freud, Viena.

Distimia

Um diagnóstico nunca é uma solução; talvez a explicação para eventos da vida que atrapalham e incomodam a si e aos outros. Um tapa na cara ao perceber que a culpa pelas falhas cometidas nas relações com os outros é quase exclusivamente sua. Mas, também, a possibilidade de começar a buscar mudanças.

Também conhecida como doença do humor, neurose depressiva ou neurose de angústia, a distimia (CID 10 F34.1) é um transtorno psíquico (transtorno dos afetos) semelhante à depressão, porém com um quadro crônico. Não é considerado como transtorno de personalidade, mas sim como da ordem da relações afetivas. O transtorno é melhor considerado como uma depressão de baixa intensidade, flutuante e duradoura, vivenciada como parte do self habitual e representando uma intensificação dos traços observados no temperamento depressivo. Ela se manifesta por meio de mudanças radicais nos sentimentos, especialmente quando está presente um grande prazer ou um grande ganho. É uma espécie de sabotagem ao bom sentimento, uma auto-punição inconsciente, porém intencional.

A distimia é uma forma de depressão crônica, não-episódica, de sintomatologia menos intensa do que as chamadas depressões maiores. O padrão básico desses pacientes é um baixo grau de sintomas, os quais aparecem insidiosamente, na maioria dos casos antes dos 25 anos. Apesar dos sintomas mais brandos, a cronicidade e a ausência do reconhecimento da doença fazem com que o prejuízo à qualidade de vida dos pacientes seja considerado maior do que nos demais tipos de depressão.

Os pacientes com transtorno distímico freqüentemente são sarcásticos, niilistas, rabugentos, exigentes e queixosos. Eles podem ser tensos, rígidos e resistentes às intervenções terapêuticas, embora compareçam regularmente às consultas. Apesar de o transtorno cursar com um funcionamento social relativamente estável, essa estabilidade é relativa, visto que muitos desses pacientes investem a energia que têm no trabalho, nada sobrando para o prazer e para as atividades familiares e sociais, o que acarreta atrito conjugal característico.

Além do humor triste de forma prolongada, pode haver mudanças de apetite, insônia, baixa auto-estima com pensamentos de não ter valor ou não ser bom o bastante. Podem ser generosos quando têm pouco (bens, dinheiro) e temerosos quanto a perdas quando têm muito. Há também, muito frequentemente e com grave intensidade, um sentimento de auto-piedade que faz com que os distímicos se tornem ingênuos e com pouco juízo crítico quanto a decisões de suas vidas, podendo facilmente ser manipulados.

Entretanto, o sentimento mais constante dos distímicos, é o medo de suportar o prazer, ou seja, ou medo de ter prazer e poder perdê-lo, o que faz com que esses indivíduos entrem em uma espiral de auto-sabotagem, na medida em que tentam ter controle sobre possíveis perdas de suas vidas, antecipando-as. É portanto uma doença que versa sobre ansiedade, medo, ilusão de controle e auto-punição, acarretando perdas afetivas e sociais, dadas as confusões amorosas em que se envolvem.

A distimia, em geral, requer tratamento medicamentoso associado à psicoterapia específica. Apoio familiar e conhecimento a respeito da doença são também fundamentais. Um diagnóstico preciso é sempre o caminho para a transformação. Nas doenças e na vida, vale sempre a recomendação de Caetano: é preciso estar atento e forte.

Golden tears, Gustav Klimt.

Sentido

Trazia nos olhos turvos

A névoa da renúncia

A certeza do carrossel de aflições

Que atinge os errantes.

Emoldurava os sorrisos de outrora

Na vã tentativa de se agarrar

A nacos de certezas

E memórias de calmaria.

Seguia em ritmo de ciranda

Meio vaga, um tanto evanescente

Nessa busca atordoante que fazemos por algum cabimento.

Desenho de Alireza Karimi Moghaddam.

Inventário de medos

Tenho medo de emergir em mim mesma

De não achar o fio da trama dos sentimentos absurdos

Tenho medo de encontrar os fios

E descobrir enredos internos obtusos.

Tenho medo de acreditar na sorte

De confiar em caminhos cheios de sonhos

Tenho medo da falta de sorte

Do inesperado, do desespero, da ausência de controle.

Tenho medo da falta de amor

Dos outros descobrindo o mar de defeitos em que me derramo

Tenho medo do amor mesmo

E do desespero que nos toma não nos sentirmos credores.

Tenho medo da morte

De descobrir na derradeira hora que o fim é pó e nada mais

Tenho certo medo da vida

Das retas serem sempre curvas e as curvas, sempre tortuosas.

Tenho medo de escrever

E, escrevendo, afundar-me em meus redemoinhos de dores

Tenho medo de deixar de escrever

Porque se calaram as vozes, apagaram-se as ideias, murcharam os amores.

Tenho medo de altura e já tive medo de elevadores

Tenho medo de rios e de sujeitos beligerantes

Tenho medo do próprio medo, da vista escura, da respiração ofegante

Tenho medo de perder o medo, perdendo-me, por fim, naquele instante.

Desenho de Virginia Mori.

Porvir

fez-se um silêncio turvo depois da desordem,

e o ar sólido embaçou os pensamentos.

atrás da vidraça,

desvio de tempo imensurável

onde se dependuraram assombros

se apagaram propósitos

e irradiaram incertezas.

ficaram os barulhos soporíferos

os anseios em semitons

e as tristezas em festivas danças.

o percurso que se avizinha

árido, desnudo, solitário

despido de gentes partidas

segue encoberto em íntimos segredos.

Tito Merello, Galeria de Arte de Barcelona.

O fim, enfim

A noite havia sido de merecido descanso. O dia amanheceu leve, claro e belo. O sol anunciava calor pelo correr das horas e os vizinhos iniciavam animadas conversas nos arredores.

Mesmo assim, ele acordou com uma horrível expressão no rosto. Mal humorado e sombrio, começou a desfiar um rosário de reclamações. Cheio de argumentos, encontrou em cada frase razões para falar de si mesmo e de suas vontades.

Discutiu com ela sem descanso a manhã toda. Repetiu silogismos trocando expressões e palavras. Refez incansavelmente as mesmas indagações e dúvidas. Exaltou-se por vezes, proferiu ameaças e fabulou por horas.

Cansada, quase exaurida em seu desejo de se colocar frente a tudo aquilo, ela viu, pouco a pouco as palavras tomarem todo o espaço da sala, carregadas que estavam com o peso dos sentimentos narcísicos debulhados na sua frente. Seu hálito – o dele – foi ganhando odor cada vez mais ocre, quase soturno. Suas expressões foram colapsando sua face em uma desarmonia sem volta. Seu corpo foi se curvando e retorcendo e sua estatura, diminuindo. Tornou-se um Quasímodo perverso, quase reptiliano.

Arrumou e jogou, já sem paciência, a mala daquele homem para fora, esquecendo-se da gentileza que tem por característica. Pediu para que fosse, quase como uma ordem. Os minutos que se seguiram em uma vã tentativa de ficar com ela e desfazer o malfeito pareceram mais que um século. Por fim, ele pegou suas coisas e desapareceu no hall.

Ela fechou a porta atrás de si com um sentimento de peso do qual se livra. Sentiu-se leve, livre e tola pelo tempo passado com ele. Estava cansada dos jogos que ele fazia, testando a todo momento a crença que ela tinha nele. Estava desacreditada de suas histórias, de seus arranjos sintáticos e verbais, eximindo-se da culpa de suas escolhas confusas e coroando-se de qualidades, ávido por aplausos. Estava, sobretudo, vazia de sentimentos, oprimida que estava pelo peso das últimas horas ou, talvez, dos últimos anos.

Trancou a porta. Ligou para o chaveiro. Mudaria as chaves, a casa, a vida para passar a viver de verdade, sem desvios, atalhos e palavras alheias, as suas verdades. Levaria anos ou, quiçá, o resto da vida para se livrar daquele cansaço.

Óleo sobre tela de Lena Rivo.