Lua Nova

A noite surgiu estrelada

Com seus milhões de anos de lampejos

Brilhos no céu, claridade de outrora

Que viajam em anos-luz até nossos olhos.

Me encontram farta de passado

Bufando inquietudes em automóveis

Cruciando memórias no divã da analista

Fingindo mansidão que não sou!

Pouco importa a claridade

Estou imersa em meus escuros

Corro os olhos e busco a lua

Desejo-a, sobretudo, nova…

Imagem @luisebmoreira

Sensorial

Sentir o toque, a pele

O perfume, a maciez

Viver a sensação

Arrepiar-se

Fechar os olhos

E entregar-se

Aos beijos, suspiros, desejos

Ouvir os sons e sabores

Ver a dança e os aromas

Degustar a pele

Enlaçar olhares

Prender os lábios

Permitir os sons

Sensuais

Do corpo

Da garganta

Da alma

Viver plenamente o(s) sentido(s)

De tudo.

“Eles se conheceram. Ele a conheceu e a si mesmo, porque ele nunca tinha se conhecido. E ela conheceu-o e a si mesma, porque mesmo tendo-se sempre conhecido, nunca se reconheceu assim.”
(Italo Calvino, O Barão Rampante)

Eterna Primavera, Rodin, 1884.

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo (…)

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!

Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses! 

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado, 

Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca! 

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, 

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? 

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil, 

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). – 312.

Fernando Pessoa, 1914.

Perdão

Não vou te perdoar

Simplesmente porque não há razões

Não há mal algum

Desajuste

Instabilidade

Ou colapso

Que tenha causado

Que eu não tenha feito antes

(e pior)

A mim

E a ti.

Não precisas de perdão

Desculpas

Ou retratações.

Nunca foi necessário.

Quanto a mim,

Que Deus, pelo menos,

Tenha piedade das minhas faltas

Estranhezas

Loucuras

E dos males que causei

Mesmo que despropositados.

Obra de Seyo Cizmic

Análise

Deito-me no divã

E me escuto falar

Da minha compreensão obtusa

Dos papéis encenados

Dos imbróglios tão pouco alheios

Dos meus hiatos

Dos meus lapsos de juízo

Das minhas atuações…

Vejo-me tola e insensata

Amaldiçoada por rastros de devaneios

Que criam irrealidades

E perpetuam gestos hiperbólicos.

Encontro-me menina de novo e de novo

Farto a memória

Expio culpas e rearranjo histórias

Calo-me, por fim.

E meus silêncios dizem mais do que me fiz escutar.

Anoiteço e amanheço do avesso

Entrecortada que estou por tanta singularidade.

Arquivo Pessoal, Museu Freud, Viena.

Distimia

Um diagnóstico nunca é uma solução; talvez a explicação para eventos da vida que atrapalham e incomodam a si e aos outros. Um tapa na cara ao perceber que a culpa pelas falhas cometidas nas relações com os outros é quase exclusivamente sua. Mas, também, a possibilidade de começar a buscar mudanças.

Também conhecida como doença do humor, neurose depressiva ou neurose de angústia, a distimia (CID 10 F34.1) é um transtorno psíquico (transtorno dos afetos) semelhante à depressão, porém com um quadro crônico. Não é considerado como transtorno de personalidade, mas sim como da ordem da relações afetivas. O transtorno é melhor considerado como uma depressão de baixa intensidade, flutuante e duradoura, vivenciada como parte do self habitual e representando uma intensificação dos traços observados no temperamento depressivo. Ela se manifesta por meio de mudanças radicais nos sentimentos, especialmente quando está presente um grande prazer ou um grande ganho. É uma espécie de sabotagem ao bom sentimento, uma auto-punição inconsciente, porém intencional.

A distimia é uma forma de depressão crônica, não-episódica, de sintomatologia menos intensa do que as chamadas depressões maiores. O padrão básico desses pacientes é um baixo grau de sintomas, os quais aparecem insidiosamente, na maioria dos casos antes dos 25 anos. Apesar dos sintomas mais brandos, a cronicidade e a ausência do reconhecimento da doença fazem com que o prejuízo à qualidade de vida dos pacientes seja considerado maior do que nos demais tipos de depressão.

Os pacientes com transtorno distímico freqüentemente são sarcásticos, niilistas, rabugentos, exigentes e queixosos. Eles podem ser tensos, rígidos e resistentes às intervenções terapêuticas, embora compareçam regularmente às consultas. Apesar de o transtorno cursar com um funcionamento social relativamente estável, essa estabilidade é relativa, visto que muitos desses pacientes investem a energia que têm no trabalho, nada sobrando para o prazer e para as atividades familiares e sociais, o que acarreta atrito conjugal característico.

Além do humor triste de forma prolongada, pode haver mudanças de apetite, insônia, baixa auto-estima com pensamentos de não ter valor ou não ser bom o bastante. Podem ser generosos quando têm pouco (bens, dinheiro) e temerosos quanto a perdas quando têm muito. Há também, muito frequentemente e com grave intensidade, um sentimento de auto-piedade que faz com que os distímicos se tornem ingênuos e com pouco juízo crítico quanto a decisões de suas vidas, podendo facilmente ser manipulados.

Entretanto, o sentimento mais constante dos distímicos, é o medo de suportar o prazer, ou seja, ou medo de ter prazer e poder perdê-lo, o que faz com que esses indivíduos entrem em uma espiral de auto-sabotagem, na medida em que tentam ter controle sobre possíveis perdas de suas vidas, antecipando-as. É portanto uma doença que versa sobre ansiedade, medo, ilusão de controle e auto-punição, acarretando perdas afetivas e sociais, dadas as confusões amorosas em que se envolvem.

A distimia, em geral, requer tratamento medicamentoso associado à psicoterapia específica. Apoio familiar e conhecimento a respeito da doença são também fundamentais. Um diagnóstico preciso é sempre o caminho para a transformação. Nas doenças e na vida, vale sempre a recomendação de Caetano: é preciso estar atento e forte.

Golden tears, Gustav Klimt.