Talvez Clarice estivesse falando de mim…

Escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra.
Talvez Clarice estivesse falando de mim…

A noite surgiu estrelada
Com seus milhões de anos de lampejos
Brilhos no céu, claridade de outrora
Que viajam em anos-luz até nossos olhos.
Me encontram farta de passado
Bufando inquietudes em automóveis
Cruciando memórias no divã da analista
Fingindo mansidão que não sou!
Pouco importa a claridade
Estou imersa em meus escuros
Corro os olhos e busco a lua
Desejo-a, sobretudo, nova…

Malfeitos
Desfeitos
Refeitos
Imperfeitos.
A vida ainda há
De me olhar por cima
De minhas tolices
E meus defeitos
E gritar bem alto:
Bem feito!

Ver e ouvir
Não se faz (apenas)
Com os olhos
Ou com os ouvidos.

Sentir o toque, a pele
O perfume, a maciez
Viver a sensação
Arrepiar-se
Fechar os olhos
E entregar-se
Aos beijos, suspiros, desejos
Ouvir os sons e sabores
Ver a dança e os aromas
Degustar a pele
Enlaçar olhares
Prender os lábios
Permitir os sons
Sensuais
Do corpo
Da garganta
Da alma
Viver plenamente o(s) sentido(s)
De tudo.
“Eles se conheceram. Ele a conheceu e a si mesmo, porque ele nunca tinha se conhecido. E ela conheceu-o e a si mesma, porque mesmo tendo-se sempre conhecido, nunca se reconheceu assim.”
(Italo Calvino, O Barão Rampante)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo (…)
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). – 312.

Não vou te perdoar
Simplesmente porque não há razões
Não há mal algum
Desajuste
Instabilidade
Ou colapso
Que tenha causado
Que eu não tenha feito antes
(e pior)
A mim
E a ti.
Não precisas de perdão
Desculpas
Ou retratações.
Nunca foi necessário.
Quanto a mim,
Que Deus, pelo menos,
Tenha piedade das minhas faltas
Estranhezas
Loucuras
E dos males que causei
Mesmo que despropositados.

Deito-me no divã
E me escuto falar
Da minha compreensão obtusa
Dos papéis encenados
Dos imbróglios tão pouco alheios
Dos meus hiatos
Dos meus lapsos de juízo
Das minhas atuações…
Vejo-me tola e insensata
Amaldiçoada por rastros de devaneios
Que criam irrealidades
E perpetuam gestos hiperbólicos.
Encontro-me menina de novo e de novo
Farto a memória
Expio culpas e rearranjo histórias
Calo-me, por fim.
E meus silêncios dizem mais do que me fiz escutar.
Anoiteço e amanheço do avesso
Entrecortada que estou por tanta singularidade.

estrada oblíqua
atravessa a mente
e corta o peito
em atos
enredos
e fatos
(todos falhos)
deixando, por fim
somente pó
e nada mais.

Um diagnóstico nunca é uma solução; talvez a explicação para eventos da vida que atrapalham e incomodam a si e aos outros. Um tapa na cara ao perceber que a culpa pelas falhas cometidas nas relações com os outros é quase exclusivamente sua. Mas, também, a possibilidade de começar a buscar mudanças.
Também conhecida como doença do humor, neurose depressiva ou neurose de angústia, a distimia (CID 10 F34.1) é um transtorno psíquico (transtorno dos afetos) semelhante à depressão, porém com um quadro crônico. Não é considerado como transtorno de personalidade, mas sim como da ordem da relações afetivas. O transtorno é melhor considerado como uma depressão de baixa intensidade, flutuante e duradoura, vivenciada como parte do self habitual e representando uma intensificação dos traços observados no temperamento depressivo. Ela se manifesta por meio de mudanças radicais nos sentimentos, especialmente quando está presente um grande prazer ou um grande ganho. É uma espécie de sabotagem ao bom sentimento, uma auto-punição inconsciente, porém intencional.
A distimia é uma forma de depressão crônica, não-episódica, de sintomatologia menos intensa do que as chamadas depressões maiores. O padrão básico desses pacientes é um baixo grau de sintomas, os quais aparecem insidiosamente, na maioria dos casos antes dos 25 anos. Apesar dos sintomas mais brandos, a cronicidade e a ausência do reconhecimento da doença fazem com que o prejuízo à qualidade de vida dos pacientes seja considerado maior do que nos demais tipos de depressão.
Os pacientes com transtorno distímico freqüentemente são sarcásticos, niilistas, rabugentos, exigentes e queixosos. Eles podem ser tensos, rígidos e resistentes às intervenções terapêuticas, embora compareçam regularmente às consultas. Apesar de o transtorno cursar com um funcionamento social relativamente estável, essa estabilidade é relativa, visto que muitos desses pacientes investem a energia que têm no trabalho, nada sobrando para o prazer e para as atividades familiares e sociais, o que acarreta atrito conjugal característico.
Além do humor triste de forma prolongada, pode haver mudanças de apetite, insônia, baixa auto-estima com pensamentos de não ter valor ou não ser bom o bastante. Podem ser generosos quando têm pouco (bens, dinheiro) e temerosos quanto a perdas quando têm muito. Há também, muito frequentemente e com grave intensidade, um sentimento de auto-piedade que faz com que os distímicos se tornem ingênuos e com pouco juízo crítico quanto a decisões de suas vidas, podendo facilmente ser manipulados.
Entretanto, o sentimento mais constante dos distímicos, é o medo de suportar o prazer, ou seja, ou medo de ter prazer e poder perdê-lo, o que faz com que esses indivíduos entrem em uma espiral de auto-sabotagem, na medida em que tentam ter controle sobre possíveis perdas de suas vidas, antecipando-as. É portanto uma doença que versa sobre ansiedade, medo, ilusão de controle e auto-punição, acarretando perdas afetivas e sociais, dadas as confusões amorosas em que se envolvem.
A distimia, em geral, requer tratamento medicamentoso associado à psicoterapia específica. Apoio familiar e conhecimento a respeito da doença são também fundamentais. Um diagnóstico preciso é sempre o caminho para a transformação. Nas doenças e na vida, vale sempre a recomendação de Caetano: é preciso estar atento e forte.
