Culpada

Peço-te perdão

Mas não precisas me perdoar

De fato

Se não queres

Preciso apenas que saibas

Que, embora seja forte,

Sinto-me vil,

Culpada e absurda

E que sem pronunciar

Esse desejo de reparação

Não haverá, para mim,

Vida

Nem mesmo depois

Da morte.

Eugène Delacroix, Hamlet and Ophelia

Contranarciso

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas
o outro
que há em mim
é você
você
e você
assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos
a sós
Capa do livro de Leminski, Companhia das Letras; 1ª edição (27 fevereiro 2013).

Loucura

É aterrorizante

(Susto que não cessa)

Pensar nos atalhos da mente

Em loucuras em que cremos

E que nos enlouquecem.

É apavorante

Pensar nos atos

Fabulosamente inconsequentes

Que trazem consequências

Desastrosas.

É arrepiante

Pensar que tudo

Fica por um fio

Quando atuamos

Nossos piores papeis.

Pintura de Alex Kanevsky

Lua Nova

A noite surgiu estrelada

Com seus milhões de anos de lampejos

Brilhos no céu, claridade de outrora

Que viajam em anos-luz até nossos olhos.

Me encontram farta de passado

Bufando inquietudes em automóveis

Cruciando memórias no divã da analista

Fingindo mansidão que não sou!

Pouco importa a claridade

Estou imersa em meus escuros

Corro os olhos e busco a lua

Desejo-a, sobretudo, nova…

Imagem @luisebmoreira

Sensorial

Sentir o toque, a pele

O perfume, a maciez

Viver a sensação

Arrepiar-se

Fechar os olhos

E entregar-se

Aos beijos, suspiros, desejos

Ouvir os sons e sabores

Ver a dança e os aromas

Degustar a pele

Enlaçar olhares

Prender os lábios

Permitir os sons

Sensuais

Do corpo

Da garganta

Da alma

Viver plenamente o(s) sentido(s)

De tudo.

“Eles se conheceram. Ele a conheceu e a si mesmo, porque ele nunca tinha se conhecido. E ela conheceu-o e a si mesma, porque mesmo tendo-se sempre conhecido, nunca se reconheceu assim.”
(Italo Calvino, O Barão Rampante)

Eterna Primavera, Rodin, 1884.

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo (…)

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!

Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses! 

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado, 

Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca! 

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, 

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? 

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil, 

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). – 312.

Fernando Pessoa, 1914.