Peço-te perdão
Mas não precisas me perdoar
De fato
Se não queres
Preciso apenas que saibas
Que, embora seja forte,
Sinto-me vil,
Culpada e absurda
E que sem pronunciar
Esse desejo de reparação
Não haverá, para mim,
Vida
Nem mesmo depois
Da morte.

Escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra.
Peço-te perdão
Mas não precisas me perdoar
De fato
Se não queres
Preciso apenas que saibas
Que, embora seja forte,
Sinto-me vil,
Culpada e absurda
E que sem pronunciar
Esse desejo de reparação
Não haverá, para mim,
Vida
Nem mesmo depois
Da morte.

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas
o outro
que há em mim
é você
você
e você
assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos
a sós

O Carnaval acabou
Mas minhas fantasias
Com você
Nunca cessam.

É aterrorizante
(Susto que não cessa)
Pensar nos atalhos da mente
Em loucuras em que cremos
E que nos enlouquecem.
É apavorante
Pensar nos atos
Fabulosamente inconsequentes
Que trazem consequências
Desastrosas.
É arrepiante
Pensar que tudo
Fica por um fio
Quando atuamos
Nossos piores papeis.

Talvez Clarice estivesse falando de mim…

A noite surgiu estrelada
Com seus milhões de anos de lampejos
Brilhos no céu, claridade de outrora
Que viajam em anos-luz até nossos olhos.
Me encontram farta de passado
Bufando inquietudes em automóveis
Cruciando memórias no divã da analista
Fingindo mansidão que não sou!
Pouco importa a claridade
Estou imersa em meus escuros
Corro os olhos e busco a lua
Desejo-a, sobretudo, nova…

Malfeitos
Desfeitos
Refeitos
Imperfeitos.
A vida ainda há
De me olhar por cima
De minhas tolices
E meus defeitos
E gritar bem alto:
Bem feito!

Ver e ouvir
Não se faz (apenas)
Com os olhos
Ou com os ouvidos.

Sentir o toque, a pele
O perfume, a maciez
Viver a sensação
Arrepiar-se
Fechar os olhos
E entregar-se
Aos beijos, suspiros, desejos
Ouvir os sons e sabores
Ver a dança e os aromas
Degustar a pele
Enlaçar olhares
Prender os lábios
Permitir os sons
Sensuais
Do corpo
Da garganta
Da alma
Viver plenamente o(s) sentido(s)
De tudo.
“Eles se conheceram. Ele a conheceu e a si mesmo, porque ele nunca tinha se conhecido. E ela conheceu-o e a si mesma, porque mesmo tendo-se sempre conhecido, nunca se reconheceu assim.”
(Italo Calvino, O Barão Rampante)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo (…)
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). – 312.
