Sem litígio

Que as palavras amanheçam

Tornadas versos sibilados por desejos

Verdadeiros, intensos.

Que as cicatrizes

Possam se curar

Resguardadas por belas tatuagens.

Que nossos crimes

Possam ser perdoados

Pequenos que somos em nossa humanidade.

Passeio pelo bosque, Kunsthalle de Hamburgo, 1876.

Ano Novo

Dentro de mim algo explodiu. Intenso e frio como vidro que estilhaça atingido por uma pedra. Ruíram certezas, laços, promessas. Sobrou o dia surdo e suspenso depois do caos. Restou a promessa – a lâmina das decisões – de buscar a minha verdade, de admitir meus desacertos, de abrir mão do que não cabe.

Intensamente me afogo em versos, em súplicas, em melodias. Escrevo resoluções de ano novo em um caderno que tenho comigo para que eu possa me cobrar sem piedade. E tento aquietar o coração cheio de perdas, dores e incertezas. Sigo em frente encontrando, aqui e ali, cacos do que se partiu.

Sobretudo, não quero remendos ou velhas sandálias. Lixo descartado, páginas viradas, pé na estrada. Novos lugares, outros destinos. Quero pisar novos passos. Reencantar-me. Quero viver a intensidade da vida em agraciadas criações.

Acrílico Jed Dorsay Art

17 anos

Hoje ele faz 17. O tempo entre o sonho, a barriga que se avolumou e ele tão dono de si, parece o mesmo de um suspirar. Ele trouxe cores, cheiros e sons novos para minha vida. Virou o que eu pensava saber do avesso, quebrou minha rotina e meus horários, acordou-me por muito tempo antes do que eu desejei, regurgitou, quando bem pequenino, nas minhas roupas e, ainda assim, a cada dia, eu o amei mais e mais.

Tenho-o visto crescer e se tornar quase um homem. Tenho acompanhado suas preferências, seus desafetos, seus sonhos, sua força. Acho-o lindo em seus sorrisos, sua inteligência, seu perfume sempre presente.

Podemos pensar diferente, discordar de coisas, discutir por vezes. Podemos rir juntos, planejar viagens, gostar dos mesmos programas. Ele está autorizado a ser ele mesmo, a errar para acertar o passo, a questionar o que não entende, a se opor aos meus ideais. Não há condições para meu amor por ele.

Hoje é o seu aniversário. Não importa que ele faça 7, 17, 77, sempre será meu menino. E o tempo de sua vida é o mesmo de ser eu mãe.

Mas hoje ele faz 17. Vamos celebrar seu nascimento, celebrar a vida. O Natal aqui começará mais cedo.

Sentença

a lâmina fria das decisões

faz brotar o sangue

que goteja memórias

do que fomos.

a dor que acompanha o fim

atravessa o sono

e mantém nossos olhos acesos

na madrugada.

a percepção das coisas

da vida

do tempo

dos outros

de tudo

é letra fria impressa

no papel da narrativa

de quem somos

e de quem desejamos ser.

Imagem: Bronze de José Luís Aragão.

Lírica

Há tristeza pelos versos incompreendidos

Pelo poema que, pela métrica

Permaneceu sem rima.

Há dor por querer suas palavras aceitas

Esquecendo-se que a estética

Não desobriga a busca de sentido.

Há desejo de novas poesias

Caóticas, intensas e complexas

Que seduzem pela verdade das ideias

Fieis que são a todo sentimento.

Tela de Josep Moncada, 2016.

Conto de fadas, de Florbela Espanca

Eu trago-te nas mãos o esquecimento

Das horas más que tens vivido, Amor!

E para as tuas chagas o unguento

Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento…

Trago no nome as letras de uma flor…

Foi dos meus olhos garços que um pintor

Tirou a luz para pintar o vento…

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,

O manto dos crepúsculos da tarde,

O sol que é d’oiro, a onda que palpita.

Dou-te comigo o mundo que Deus fez!

– Eu sou Aquela de quem tens saudade,

A Princesa do conto: “Era uma vez…”

Escultura: O beijo, de Yves Pires.

Contos

eu te inventei
você me inventou
co-criadores distantes
de diferentes narrativas
irreais

ao longo do enredo,
fugi tresloucada em um cavalo
ao ver meu castelo construído na areia
enquanto você violava seus escritos sagrados
ao contar histórias de outras princesas

eu te criei encantado
você me criou perfeita
e na coleção das histórias verdadeiras que somos
sobressaíram nossas ilusões
desfeitas

eu te inventei
você me inventou
e é por isso que nenhuma das histórias
pode dar certo.

Lua cheia

nova lua cheia de impermanências
infinita em ciclos sempre inaugurais
a abrilhantar todas as significâncias da vida.
sua luz me enseja a resgatar memórias do que sempre fui,
a preservar as lembranças dos sentidos,
a proteger histórias construídas,
a desejar permanências,
castelos tangíveis,
príncipes verdadeiros,
palavras honestas,
promessas fiéis,
histórias críveis,
enredos verossímeis
finais felizes, enfim.

faz-me
inteira apenas
e tão somente
por ser única.

Quase primavera

O sol voltou a brilhar quente naquela quase primavera. As estações pareciam enlouquecer, assim como o mundo. Uma semana antes havia feito muito frio e chuva. Agora, o calor voltou a ser um convite ao sol, aos passeios, à vida lá fora. As sardas denunciavam o aceite a essas jornadas. Viver não parecia mais tão perigoso.

As novas floradas das árvores voltavam, aos poucos, a colorir a cidade. Se ainda havia rancor pelo abandono e pela insignificância, havia também um crescente sentimento de superação e exaltação da vida. A poda ajuda o crescimento, traz vigor ao que insiste em brotar.

Fiquei rememorando lembranças de outrora. Foi numa quase primavera que minha barriga, pela primeira vez, se agigantou pela vida que também crescia dentro dela. Momento sublime. Lembro-me dos movimentos dentro de mim, do pezinho que vez ou outra formava uma pequena elevação que percorria meu abdômen, da expectativa feliz de todos os dias pela vinda. Meu primeiro filho nasceu num quase verão, no último dia daquela primavera. Trouxe novos cheiros, movimentos, pequenos ruídos, um novo ritmo à existência.

O convite à vida se faz novamente, desta vez com ela se agigantando do lado de fora. Talvez sempre esteja à espreita, de alguma forma. Por mais cansados que estejamos das quase mortes que nos rondam (pela impossibilidade de viver o que se pode em plenitude), a força da continuidade é profícua. Viver é agora, é urgente. Que venha o sol!

Tela de Dorothea Sharp, A jovem jardineira, 1890.