Que as palavras amanheçam
Tornadas versos sibilados por desejos
Verdadeiros, intensos.
Que as cicatrizes
Possam se curar
Resguardadas por belas tatuagens.
Que nossos crimes
Possam ser perdoados
Pequenos que somos em nossa humanidade.

Escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra.
Que as palavras amanheçam
Tornadas versos sibilados por desejos
Verdadeiros, intensos.
Que as cicatrizes
Possam se curar
Resguardadas por belas tatuagens.
Que nossos crimes
Possam ser perdoados
Pequenos que somos em nossa humanidade.

Dentro de mim algo explodiu. Intenso e frio como vidro que estilhaça atingido por uma pedra. Ruíram certezas, laços, promessas. Sobrou o dia surdo e suspenso depois do caos. Restou a promessa – a lâmina das decisões – de buscar a minha verdade, de admitir meus desacertos, de abrir mão do que não cabe.
Intensamente me afogo em versos, em súplicas, em melodias. Escrevo resoluções de ano novo em um caderno que tenho comigo para que eu possa me cobrar sem piedade. E tento aquietar o coração cheio de perdas, dores e incertezas. Sigo em frente encontrando, aqui e ali, cacos do que se partiu.
Sobretudo, não quero remendos ou velhas sandálias. Lixo descartado, páginas viradas, pé na estrada. Novos lugares, outros destinos. Quero pisar novos passos. Reencantar-me. Quero viver a intensidade da vida em agraciadas criações.

Hoje ele faz 17. O tempo entre o sonho, a barriga que se avolumou e ele tão dono de si, parece o mesmo de um suspirar. Ele trouxe cores, cheiros e sons novos para minha vida. Virou o que eu pensava saber do avesso, quebrou minha rotina e meus horários, acordou-me por muito tempo antes do que eu desejei, regurgitou, quando bem pequenino, nas minhas roupas e, ainda assim, a cada dia, eu o amei mais e mais.
Tenho-o visto crescer e se tornar quase um homem. Tenho acompanhado suas preferências, seus desafetos, seus sonhos, sua força. Acho-o lindo em seus sorrisos, sua inteligência, seu perfume sempre presente.
Podemos pensar diferente, discordar de coisas, discutir por vezes. Podemos rir juntos, planejar viagens, gostar dos mesmos programas. Ele está autorizado a ser ele mesmo, a errar para acertar o passo, a questionar o que não entende, a se opor aos meus ideais. Não há condições para meu amor por ele.
Hoje é o seu aniversário. Não importa que ele faça 7, 17, 77, sempre será meu menino. E o tempo de sua vida é o mesmo de ser eu mãe.
Mas hoje ele faz 17. Vamos celebrar seu nascimento, celebrar a vida. O Natal aqui começará mais cedo.

a lâmina fria das decisões
faz brotar o sangue
que goteja memórias
do que fomos.
a dor que acompanha o fim
atravessa o sono
e mantém nossos olhos acesos
na madrugada.
a percepção das coisas
da vida
do tempo
dos outros
de tudo
é letra fria impressa
no papel da narrativa
de quem somos
e de quem desejamos ser.

Há tristeza pelos versos incompreendidos
Pelo poema que, pela métrica
Permaneceu sem rima.
Há dor por querer suas palavras aceitas
Esquecendo-se que a estética
Não desobriga a busca de sentido.
Há desejo de novas poesias
Caóticas, intensas e complexas
Que seduzem pela verdade das ideias
Fieis que são a todo sentimento.

anseio
receio
entremeio
metamorfoseio

Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o unguento
Com que sarei a minha própria dor.
Os meus gestos são ondas de Sorrento…
Trago no nome as letras de uma flor…
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento…
Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é d’oiro, a onda que palpita.
Dou-te comigo o mundo que Deus fez!
– Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A Princesa do conto: “Era uma vez…”

eu te inventei
você me inventou
co-criadores distantes
de diferentes narrativas
irreais
ao longo do enredo,
fugi tresloucada em um cavalo
ao ver meu castelo construído na areia
enquanto você violava seus escritos sagrados
ao contar histórias de outras princesas
eu te criei encantado
você me criou perfeita
e na coleção das histórias verdadeiras que somos
sobressaíram nossas ilusões
desfeitas
eu te inventei
você me inventou
e é por isso que nenhuma das histórias
pode dar certo.

nova lua cheia de impermanências
infinita em ciclos sempre inaugurais
a abrilhantar todas as significâncias da vida.
sua luz me enseja a resgatar memórias do que sempre fui,
a preservar as lembranças dos sentidos,
a proteger histórias construídas,
a desejar permanências,
castelos tangíveis,
príncipes verdadeiros,
palavras honestas,
promessas fiéis,
histórias críveis,
enredos verossímeis
finais felizes, enfim.
faz-me
inteira apenas
e tão somente
por ser única.

O sol voltou a brilhar quente naquela quase primavera. As estações pareciam enlouquecer, assim como o mundo. Uma semana antes havia feito muito frio e chuva. Agora, o calor voltou a ser um convite ao sol, aos passeios, à vida lá fora. As sardas denunciavam o aceite a essas jornadas. Viver não parecia mais tão perigoso.
As novas floradas das árvores voltavam, aos poucos, a colorir a cidade. Se ainda havia rancor pelo abandono e pela insignificância, havia também um crescente sentimento de superação e exaltação da vida. A poda ajuda o crescimento, traz vigor ao que insiste em brotar.
Fiquei rememorando lembranças de outrora. Foi numa quase primavera que minha barriga, pela primeira vez, se agigantou pela vida que também crescia dentro dela. Momento sublime. Lembro-me dos movimentos dentro de mim, do pezinho que vez ou outra formava uma pequena elevação que percorria meu abdômen, da expectativa feliz de todos os dias pela vinda. Meu primeiro filho nasceu num quase verão, no último dia daquela primavera. Trouxe novos cheiros, movimentos, pequenos ruídos, um novo ritmo à existência.
O convite à vida se faz novamente, desta vez com ela se agigantando do lado de fora. Talvez sempre esteja à espreita, de alguma forma. Por mais cansados que estejamos das quase mortes que nos rondam (pela impossibilidade de viver o que se pode em plenitude), a força da continuidade é profícua. Viver é agora, é urgente. Que venha o sol!
