Sentido

Trazia nos olhos turvos

A névoa da renúncia

A certeza do carrossel de aflições

Que atinge os errantes.

Emoldurava os sorrisos de outrora

Na vã tentativa de se agarrar

A nacos de certezas

E memórias de calmaria.

Seguia em ritmo de ciranda

Meio vaga, um tanto evanescente

Nessa busca atordoante que fazemos por algum cabimento.

Desenho de Alireza Karimi Moghaddam.

Inventário de medos

Tenho medo de emergir em mim mesma

De não achar o fio da trama dos sentimentos absurdos

Tenho medo de encontrar os fios

E descobrir enredos internos obtusos.

Tenho medo de acreditar na sorte

De confiar em caminhos cheios de sonhos

Tenho medo da falta de sorte

Do inesperado, do desespero, da ausência de controle.

Tenho medo da falta de amor

Dos outros descobrindo o mar de defeitos em que me derramo

Tenho medo do amor mesmo

E do desespero que nos toma não nos sentirmos credores.

Tenho medo da morte

De descobrir na derradeira hora que o fim é pó e nada mais

Tenho certo medo da vida

Das retas serem sempre curvas e as curvas, sempre tortuosas.

Tenho medo de escrever

E, escrevendo, afundar-me em meus redemoinhos de dores

Tenho medo de deixar de escrever

Porque se calaram as vozes, apagaram-se as ideias, murcharam os amores.

Tenho medo de altura e já tive medo de elevadores

Tenho medo de rios e de sujeitos beligerantes

Tenho medo do próprio medo, da vista escura, da respiração ofegante

Tenho medo de perder o medo, perdendo-me, por fim, naquele instante.

Desenho de Virginia Mori.

Porvir

fez-se um silêncio turvo depois da desordem,

e o ar sólido embaçou os pensamentos.

atrás da vidraça,

desvio de tempo imensurável

onde se dependuraram assombros

se apagaram propósitos

e irradiaram incertezas.

ficaram os barulhos soporíferos

os anseios em semitons

e as tristezas em festivas danças.

o percurso que se avizinha

árido, desnudo, solitário

despido de gentes partidas

segue encoberto em íntimos segredos.

Tito Merello, Galeria de Arte de Barcelona.

O fim, enfim

A noite havia sido de merecido descanso. O dia amanheceu leve, claro e belo. O sol anunciava calor pelo correr das horas e os vizinhos iniciavam animadas conversas nos arredores.

Mesmo assim, ele acordou com uma horrível expressão no rosto. Mal humorado e sombrio, começou a desfiar um rosário de reclamações. Cheio de argumentos, encontrou em cada frase razões para falar de si mesmo e de suas vontades.

Discutiu com ela sem descanso a manhã toda. Repetiu silogismos trocando expressões e palavras. Refez incansavelmente as mesmas indagações e dúvidas. Exaltou-se por vezes, proferiu ameaças e fabulou por horas.

Cansada, quase exaurida em seu desejo de se colocar frente a tudo aquilo, ela viu, pouco a pouco as palavras tomarem todo o espaço da sala, carregadas que estavam com o peso dos sentimentos narcísicos debulhados na sua frente. Seu hálito – o dele – foi ganhando odor cada vez mais ocre, quase soturno. Suas expressões foram colapsando sua face em uma desarmonia sem volta. Seu corpo foi se curvando e retorcendo e sua estatura, diminuindo. Tornou-se um Quasímodo perverso, quase reptiliano.

Arrumou e jogou, já sem paciência, a mala daquele homem para fora, esquecendo-se da gentileza que tem por característica. Pediu para que fosse, quase como uma ordem. Os minutos que se seguiram em uma vã tentativa de ficar com ela e desfazer o malfeito pareceram mais que um século. Por fim, ele pegou suas coisas e desapareceu no hall.

Ela fechou a porta atrás de si com um sentimento de peso do qual se livra. Sentiu-se leve, livre e tola pelo tempo passado com ele. Estava cansada dos jogos que ele fazia, testando a todo momento a crença que ela tinha nele. Estava desacreditada de suas histórias, de seus arranjos sintáticos e verbais, eximindo-se da culpa de suas escolhas confusas e coroando-se de qualidades, ávido por aplausos. Estava, sobretudo, vazia de sentimentos, oprimida que estava pelo peso das últimas horas ou, talvez, dos últimos anos.

Trancou a porta. Ligou para o chaveiro. Mudaria as chaves, a casa, a vida para passar a viver de verdade, sem desvios, atalhos e palavras alheias, as suas verdades. Levaria anos ou, quiçá, o resto da vida para se livrar daquele cansaço.

Óleo sobre tela de Lena Rivo.

Sem litígio

Que as palavras amanheçam

Tornadas versos sibilados por desejos

Verdadeiros, intensos.

Que as cicatrizes

Possam se curar

Resguardadas por belas tatuagens.

Que nossos crimes

Possam ser perdoados

Pequenos que somos em nossa humanidade.

Passeio pelo bosque, Kunsthalle de Hamburgo, 1876.

Ano Novo

Dentro de mim algo explodiu. Intenso e frio como vidro que estilhaça atingido por uma pedra. Ruíram certezas, laços, promessas. Sobrou o dia surdo e suspenso depois do caos. Restou a promessa – a lâmina das decisões – de buscar a minha verdade, de admitir meus desacertos, de abrir mão do que não cabe.

Intensamente me afogo em versos, em súplicas, em melodias. Escrevo resoluções de ano novo em um caderno que tenho comigo para que eu possa me cobrar sem piedade. E tento aquietar o coração cheio de perdas, dores e incertezas. Sigo em frente encontrando, aqui e ali, cacos do que se partiu.

Sobretudo, não quero remendos ou velhas sandálias. Lixo descartado, páginas viradas, pé na estrada. Novos lugares, outros destinos. Quero pisar novos passos. Reencantar-me. Quero viver a intensidade da vida em agraciadas criações.

Acrílico Jed Dorsay Art

17 anos

Hoje ele faz 17. O tempo entre o sonho, a barriga que se avolumou e ele tão dono de si, parece o mesmo de um suspirar. Ele trouxe cores, cheiros e sons novos para minha vida. Virou o que eu pensava saber do avesso, quebrou minha rotina e meus horários, acordou-me por muito tempo antes do que eu desejei, regurgitou, quando bem pequenino, nas minhas roupas e, ainda assim, a cada dia, eu o amei mais e mais.

Tenho-o visto crescer e se tornar quase um homem. Tenho acompanhado suas preferências, seus desafetos, seus sonhos, sua força. Acho-o lindo em seus sorrisos, sua inteligência, seu perfume sempre presente.

Podemos pensar diferente, discordar de coisas, discutir por vezes. Podemos rir juntos, planejar viagens, gostar dos mesmos programas. Ele está autorizado a ser ele mesmo, a errar para acertar o passo, a questionar o que não entende, a se opor aos meus ideais. Não há condições para meu amor por ele.

Hoje é o seu aniversário. Não importa que ele faça 7, 17, 77, sempre será meu menino. E o tempo de sua vida é o mesmo de ser eu mãe.

Mas hoje ele faz 17. Vamos celebrar seu nascimento, celebrar a vida. O Natal aqui começará mais cedo.

Sentença

a lâmina fria das decisões

faz brotar o sangue

que goteja memórias

do que fomos.

a dor que acompanha o fim

atravessa o sono

e mantém nossos olhos acesos

na madrugada.

a percepção das coisas

da vida

do tempo

dos outros

de tudo

é letra fria impressa

no papel da narrativa

de quem somos

e de quem desejamos ser.

Imagem: Bronze de José Luís Aragão.