Diário

a insanidade momentânea é uma senhora obesa e displicente a nos dizer indecências com restos de comida por entre os dentes. espaçosa e repulsiva, não para de tagarelar enquanto mastiga. observo-a, tentando me incomodar cada dia menos com seu jeito intolerável. distancio-me observando pássaros, borboletas e estrelas. procuro constelações à noite e tenho momentos de flerte com vênus e com a lua. cuido de orquídeas, vasos de manjericão, hortelã e de um limoeiro que trouxe para frente de casa. assobio para as calopsitas e compro folhas de couve para elas no mercado. pedalo, faço pilates e tomo um pouco de sol. voltei a fazer dieta.

não quero tomar remédios. ando flertando com florais, aromaterapia, chás e resolvi usar o terço que ganhei como momento de meditação. cada conta, uma respiração a ser modulada, um ruído da mente a silenciar. o mantra da ave-maria incontestavelmente me fala do ciclo da vida, nascimento e morte, começo e fim. o do nosso pai me lembra da fé necessária para nos sustentar, do incontrolável à nossa volta, de nossos tão irrelevantes desejos, afinal não é a minha vontade que deve ser feita. a vida lá fora, sol, flores, pequenos animais, o céu, o vento de agosto seguem em seu louvor cotidiano a deus, vivendo apenas, sem pensamentos, sem preocupações, sem raiva e ansiedade. invejo-os. quero criar, ventar, voar, aquecer, florescer, transformar. quero ser eu mesma, sendo outra.

Viagem

o verde se prolongava no horizonte até onde a vista não mais alcançava. entrelaçava paisagens, ora mais exuberantes, ora meio ressequidas, com breves intervalos para o amarelo dos ipês. os pássaros locais eram sempre um presente: belos, coloridos, barulhentos. por vezes, o sobrevoo circular de alguns urubus nos remetia à essência mesma da natureza: vida e morte, seca e chuva, inverno e verão, a nos evocar, também, a centralidade do tempo. tempo entre o início e o fim, entre as estações, entre o adormecimento das sementes e a explosão das flores e dos frutos, a espera necessária para que a vida cresça, brote, floresça, crie profundas raízes. a ansiedade não pode ter lugar algum neste cenário. o tempo das coisas é sempre kairós.

Agosto

o estampido do chumbinho fez revoar os passarinhos e atirou longe a lata na frente da casa. os cachorros correram em latidos altos pelo barulho feito. a vizinha rompeu a porta descabelada pelo susto, sem perceber os risos abafados dos meninos na janela que se mantinha aberta.

o sol, do lado de fora, iluminava num amarelo sem fim o início de agosto. enrugava os olhos e avermelhava a pele. os pássaros retornaram aos poucos, depois do silêncio que se fez. primeiro os sabiás-laranjeira, depois os bem-te-vis. esbocei um sorriso quase sem perceber ao acompanhar toda a cena.

a vida seguiu indiferente às nossas dores.

Lua

a lua me sorri descomplicadamente. enverga para o alto os cantos da boca, sem pudor. ilumina o pedaço da noite quando olho para ela no céu. me lembra da francesinha na unha, como gosto. me fala da impermanência, das mudanças, das transformações. me chama em seus ciclos, traz em si o desejo do retorno. me faz procurá-la junto às estrelas que se movem. me conforta por sobreviver sempre aos dias, todos os dias, mesmo os mais difíceis.

Despropósito

há um inferno debaixo de nossos pés. sento-me, por vezes, tentando escutar os silêncios da noite. eles nos dizem sobre vozes inaudíveis. nos mostram as sombras dos dias sem lua. ressoam inconveniências que tentamos calar. mesmo assim, abrandam o torpor do excesso de sentimentos e nos permitem pensar nos propósitos. e nos não-desejos. não quero enlouquecer. quero mitigar a raiva. perder o medo. perdoar o abandono. acreditar no imaterial.

não posso crer em um deus que joga dados.

Piripaque

tem horas em que mesmo perseverando, mantendo a firmeza, aguentando todas as pressões, deixamos de suportar. sucumbimos, passamos mal, temos um momento ruim. a sensação de enjoo, a reviravolta dos sentidos, o suor escorrendo pelas costas. deitei-me no chão e ergui as pernas na cadeira. fiquei ali sozinha, sala escura, por longos minutos, interminável tempo de pavor pelo incontrolável. segui com aquela sensação o resto do dia: no chão, vendo a energia se esvaindo, o corpo esquecendo o rumo, a vida perdendo sentido. na alma, ficaram incrustadas a longa espera, a chegada ao limite, o fracasso do que importa, o desejo de jogar a toalha. onde se reencontra a leveza das coisas?

Sem perdão

as culpas se entrelaçaram: minhas, tuas, nossas. desculpar-se não desfaz os malfeitos. o nevoeiro das decisões maltrapilhas não se dissipa na falha da claridade. até a lua se acovarda frente ao vendaval. o meu eu sombrio não pode mais se autoproclamar real. a restinga da narrativa construída em cercania de dor geme sua descoberta. o caminho do inferno é o mesmo dos desejos insensatos.

Noite

as golfadas de frescor da noite trazem em seus sonidos sonhos desvairados que espasmam pernas e chacoalham o sossego. sonhos que invadem pensamentos, sonhos aéreos, de tobogãs, elevadores, subterrâneos e recintos entreabertos. que flertam com o irrefletido dos dias. que trazem chaves para abrir as portas encarceradas da nossa criança de outrora. que rendem prolongadas análises no divã. que nos ensejam acordar para realidades incógnitas. sonhos que nos despertam para noites ensolaradas e que perpetuam o cinza dos dias em reflexões kafkianas.

Calendário

os dias seguem com os assombros do agora. somos tomados pelo tempo em dimensões covardes. deixamos de viver a singularidade dos dias com os outros e estamos mergulhados na infinidade de nós mesmos. vemos, pela graça dos recursos tecnológicos, os bebês de ontem andando, a abundância dos cabelos das meninas em longas tranças, as calças curtas das crianças, o afinamento dos traços que vem com o crescimento, a incontinência dos gestos que solicitam presença. o tempo virou inimigo. não chega, não passa. parece desacatar a resolução das coisas. contamos dias infinitos de dores da alma dilacerantes. ansiamos o futuro pois o presente decidiu debochar de nós. estamos saudosos de um passado recente. fomos jogados no caos da vida. seguimos buscando o sentido do que temos enquanto a vida não nos regressa por ora.

Prato

a beleza do restaurante e o requinte do cardápio trazem certa pompa ao almoço de domingo. pedimos água para amenizar a quentura do dia e um clericot para entremear o encontro amoroso. entre tantos itens do menu – não, não tantos – a escolha declara as ranhuras da alma: a massa caseira que corteja as lembranças de menina. a fome, de amparo. o desejo, de resignificância. a sensação, de abrandamento de dores e reverência ao tempo. gastronomia da alma.