Hoje vesti-me com um belo vestido, tentando disfarçar o semblante cansado. O sorriso, ora doce, ora distante fazia as vezes de normalidade. Os olhos opacos queriam apenas encarar o horizonte à procura da minha alma. Acabei o dia com a maquiagem borrada.
Lembrei-me da citação: “Somos desfeitos pela verdade. A vida é um sonho, é o despertar que nos mata”. Pensei na criança desejosa de tudo, feliz em se imaginar satisfeita em suas vontades pueris. Pensei também nas fantasias, nos devaneios de instantes em que o pensamento vai longe e alcança o invisível. O desejo trai a mente adulta em suas molequices sem juízo. Ele nos põe em reinos de quimeras quase impossíveis.
A vida nos pede mais. Embora seja certo que a mente reta acaba fatalmente a nos levar por caminhos sinuosos, os atalhos não podem ser o curso da história.
Tenho vivido dias de mente abarrotada de compromissos e de urgência de vazios silenciosos. Tenho dormido noites de sonhos abrasadores, de pernas entrelaçadas, sussurros ao pé do ouvido e corpos dançantes. Dia e noite em distância incalculável.
Sinto-me despejada de mim mesma, tocando em sentimentos ingratos. Vejo-me a procura de meus olhos no espelho, tentando decifrar minha mente labiríntica. Sinto-te cada dia mais longe, mas não há como estender a mão para um fôlego momentâneo. Hei de saber, de mim e de você, se as pedras são duras, se a água é cristalina, se o diamante é mais resistente do que o vidro. E se o tempo, esse senhor de soluções e desastres faz conosco gracejos ou perversas artes.
Outono
não espere que
eu desabroche
enquanto
eu não flor
Silêncio
vontade de falar
não me deixa
(um momento sequer)
mas o silêncio se faz certo
enquanto não posso estar
por completo
Leminski
a noite – enorme
tudo dorme
menos teu nome
Defeitos
tanto olho
meus defeitos
– tecido, alinhavo de erros,
não tem jeito –
que eternamente espero o dia
em que meus mal feitos
apontando o dedo me digam:
apontando o dedo me digam:
bem feito!
mais mergulho
falta que (te) sinto
mergulho
em silêncios
de ruídos infindos
os sonhos e pesadelos de agora
Porque, nos últimos meses, ao sentar para escrever algo e deixar meu cotidiano de lado, as palavras me escapam… me fogem… Um quadro branco se posta em minha frente imutável, silencioso, sentencioso. Tenho sido engolida por tudo o que me afasta dos sonhos, mas também tenho me ocupado demais dos sonhos, dos planejamentos, dos fatos concretos da vida, dos prazos, dos horários, das contas. Mas os sonhos a serem postos no papel são outros… aqueles que deixamos escorrer pelos nossos dedos em forma de palavras, são os que sonhamos de noite, os que não estão apenas em nossas mentes, os que refletem um pouco do que vai em nossa alma.
Tenho tido pesadelos nestes dias. O passado recente me esmaga, me apequena. São as pequenas dores, as mágoas engolidas a seco e não digeridas e a luta diária para esquecer tudo isso. São as pessoas que nos roubam a paz de espírito – e que deixamos, de algum modo, em algum momento, que nos roubassem… São os ódios que nos invadem sem pedir licença e que nos cegam para a vida que floresce apesar de nós.
Talvez assim mesmo seja a vida, com alguns caminhos de perguntas sem resposta, com sentimentos que não desejamos ter, com os espaços que temos que abrir, mesmo com força, para deixar entrar novamente o que nos aquieta, nos faz sorrir e nos permite dormir à noite sem os pesadelos. Essa vida de momentos em que temos que cavar o solo com as mãos e desfazer o vermelho das unhas, com a hora chegada de plantar nossas sementes, adubá-las, deixar cair a chuva e rezar, buscar, aonde quer que tenhamos perdido, um pouco de fé, e pedir a Deus, de joelhos, que floresçam.
pelo caminho
nuvens carregadas e vento soprando alheio ao que balança ao redor…
o impulso de seguir em frente e as lembranças que me fazem chorar baixinho…
a coisa do esquecer e não conseguir e, assim mesmo, não desistir…
a dor, as lágrimas, o espinho…
um tanto do imperdoável, do inaceitável…
recolher os cacos e os saltos dos sapatos quebrados no caminho…
recolher a raiva…
hoje duas doses me bastariam:
uma de paciência
outra de vinho
Poeira do tempo
Poeira nas coisas, nos objetos, nas frestas
Poeira do tempo…
Tempo que segue, indiferente, seu curso.
Qual caminho sem volta
Não faz vir novamente o que foi
Não regressa quem não mais está.
Enredo guardado nas fotografias e nas lembranças.
Poeira escura me pôs em devaneio.
Quanto tempo levou para ela marcar aquele objeto?
Fez-me pensar na vida
Nas coisas velhas, nos objetos empoeirados,
Nos brinquedos da infância,
Na casa dos meus avós.
Nas poeiras finas da existência.
o teu abraço
não apenas teus braços
(seguros)
serão cura e
aconchego
para meu desamparo
também teus pés
suportarão os meus
(doce leveza)
ao valsarmos
no compasso do tempo