Poeira do tempo
Poeira nas coisas, nos objetos, nas frestas
Poeira do tempo…
Tempo que segue, indiferente, seu curso.
Qual caminho sem volta
Não faz vir novamente o que foi
Não regressa quem não mais está.
Enredo guardado nas fotografias e nas lembranças.
Poeira escura me pôs em devaneio.
Quanto tempo levou para ela marcar aquele objeto?
Fez-me pensar na vida
Nas coisas velhas, nos objetos empoeirados,
Nos brinquedos da infância,
Na casa dos meus avós.
Nas poeiras finas da existência.
o teu abraço
compasso de espera
(mal dito)
pela música,
que (só) brota
de tanto
sobre a conclusão dos fatos
o que sou
no meio dos risos tontos
(gostosos, de criança)
penso nos momentos únicos
pequenos e sublimes
que vivi com vocês…
enche meu coração de amor
(é possível caber mais?)
tudo de bom que cada um
desperta em mim…
me fazem lembrar
depois da aspereza dos dias,
que tudo passa,
que o tempo voa,
que a vida segue e
que a noite pode ser
mais leve…
Quase abril
(chegou verão ao fim,
enfim!)
momento
é provável
que tenha ficado
meio ins
tá
vel
pro fundo
Quando me senti sozinha e quis falar (pouco, apenas pouco) da tristeza que ia em mim, ouvi das pessoas que dizer sobre o que nos entristece soa deprimente e que sentir-se mal é desagradável aos olhos e ouvidos. Disseram-me que as palavras devem ser sempre leves, doces e, se possível, engraçadas. Ouvi que o desejável é ser sempre otimista, sempre parecer feliz. O desejável nem sempre se alcança. O que sabemos, por vezes, não é suficiente para o que somos e vivemos. Calei-me. Afastei-me. Tornei-me mais só do que já estava.
Sinto que algumas palavras precisam ser ditas para que possamos ouvi-las e entender o que há em nós. Não existem apenas palavras amenas. Não há somente sentimentos despreocupados, reconfortantes e, tampouco, apenas sensações alegres. Há o pesar, há a tristeza, há um pouco de tudo em nós. Procurei um ouvido atento a tamanha complexidade que ia em mim. Procurei uma voz. Gostaria de ser uma criatura mais simples, de sentimentos rasos. Não fui feita assim. Se me calo, transbordam palavras em meu corpo e escorrem pelos meus dedos…
Instantâneos
deixei passar o tempo
instante encerrado, um lamento
não esqueci do que queria
no vazio que se entrevia
segui a procurar, enfim
o que se perdeu de mim