Sem voz


Dormi tarde e acordei com sono. A comida da noite, ingerida sem apetite em meio às balbúrdias de crianças e cachorros, não caiu bem. Indigesta, ficou revirando no estômago, tal como eu na cama de hóspedes da casa de meus pais. Dormir fora de casa sempre traz algum estranhamento. Dormir em casa traz os ruídos da rotina às preocupações, com ar de normalidade.
O passar das horas manteve o sono. A mente, longe do dia-a-dia usual trouxe um torpor infrequente e as palavras calaram-se por um dia inteiro. Elas – palavras – logo elas que já me tiraram da cama pelo volume de suas vozes. Elas que se manifestam em dias sem tempo e sem papel. Foram-se. Ficaram os sonhos, a confusão das imagens, o ruído da televisão. Fiquei sem voz (pela tosse e pelo adormecimento), flertando o vazio. Senti-me doente.
Tenho sentido, nesses dias, necessidade de pensar e uma vontade imensa de calar os pensamentos. Sinto saudades de coisas que foram e vejo-as se transformarem num filme que se passa muitas vezes na cabeça e parecem ser apenas isso: uma narrativa, uma história, fantasia apenas. Sinto-me botão que precisa medrar. Sinto-me entristecida pela consciência do que dificilmente será, consumida pela sensação de que a realidade é capaz de engolir as fantasias e certa de que é preciso perder os primeiros dentes, para que os permanentes possam vingar. Perder, muitas vezes, é o mote das histórias da vida.

Excesso de mim

Dia fresco e claro. Manhã cristalina. O vento que sacode o dourado dos ipês traz o resto de frio do inverno enquanto leva minha mente por lugares e tempos distantes. Faz-me pensar no que fora deixado no caminho e no que é preciso deixar de carregar além do peso das roupas.
Tenho pensado em fusões e separações. Em entendimentos e reparações. A vida tem se apresentado em detalhes tantos que me perco, por vezes, na profusão de pensamentos e sentimentos que se avolumam.
Há muito a entender de mim. Há sensos e desejos, avanços e retrocessos. Há a crueza das percepções de coisas toscas, imateriais, esquecidas ou nunca vistas antes. O entendimento tem se feito em passos pequenos e titubeantes.
Qual o tempo das resoluções? O tempo todo, entre o vivido e o por vir. Qual o prazo para se encontrar? Nunca ontem, hoje tampouco: há prestações a serem acertadas pela vida. Minha alma mergulha em pensamentos ora acelerados, ora enigmáticos. Os sonhos acrescentam temperos singulares à realidade: passado e presente, medos e desejos, detalhes tantos, em preto e branco. Acordo e permaneço sonhando. Durmo raciocinando. A cabeça oprime.  O sentimento extravasa. O excesso de consciência cansa. Qual a morada do remanso?

Sonho e realidade

a batalha travada em mim 
coloca em evidência
sentimentos brutos, fortes, nauseantes
quase inaudíveis
nāo sei fingir que nāo me importam
a febre que me acomete
a impossibilidade de ser mais leve
o tamanho do que sinto
(quase me perco de mim)
sonho com possibilidades:
o resgate sem pagamento
o planejamento (quase) sem falhas
a redençāo dos pecados 
(sonho ser outra sem deixar de ser)

Por hoje

Hoje vesti-me com um belo vestido, tentando disfarçar o semblante cansado. O sorriso, ora doce, ora distante fazia as vezes de normalidade. Os olhos opacos queriam apenas encarar o horizonte à procura da minha alma. Acabei o dia com a maquiagem borrada.
Lembrei-me da citação: “Somos desfeitos pela verdade. A vida é um sonho, é o despertar que nos mata”. Pensei na criança desejosa de tudo, feliz em se imaginar satisfeita em suas vontades pueris. Pensei também nas fantasias, nos devaneios de instantes em que o pensamento vai longe e alcança o invisível. O desejo trai a mente adulta em suas molequices sem juízo. Ele nos põe em reinos de quimeras quase impossíveis.
A vida nos pede mais. Embora seja certo que a mente reta acaba fatalmente a nos levar por caminhos sinuosos, os atalhos não podem ser o curso da história.
Tenho vivido dias de mente abarrotada de compromissos e de urgência de vazios silenciosos. Tenho dormido noites de sonhos abrasadores, de pernas entrelaçadas, sussurros ao pé do ouvido e corpos dançantes. Dia e noite em distância incalculável.
Sinto-me despejada de mim mesma, tocando em sentimentos ingratos. Vejo-me a procura de meus olhos no espelho, tentando decifrar minha mente labiríntica. Sinto-te cada dia mais longe, mas não há como estender a mão para um fôlego momentâneo. Hei de saber, de mim e de você, se as pedras são duras, se a água é cristalina, se o diamante é mais resistente do que o vidro. E se o tempo, esse senhor de soluções e desastres faz conosco gracejos ou perversas artes.

os sonhos e pesadelos de agora

Porque, nos últimos meses, ao sentar para escrever algo e deixar meu cotidiano de lado, as palavras me escapam… me fogem… Um quadro branco se posta em minha frente imutável, silencioso, sentencioso. Tenho sido engolida por tudo o que me afasta dos sonhos, mas também tenho me ocupado demais dos sonhos, dos planejamentos, dos fatos concretos da vida, dos prazos, dos horários, das contas. Mas os sonhos a serem postos no papel são outros… aqueles que deixamos escorrer pelos nossos dedos em forma de palavras, são os que sonhamos de noite, os que não estão apenas em nossas mentes, os que refletem um pouco do que vai em nossa alma. 
Tenho tido pesadelos nestes dias. O passado recente me esmaga, me apequena. São as pequenas dores, as mágoas engolidas a seco e não digeridas e a luta diária para esquecer tudo isso. São as pessoas que nos roubam a paz de espírito – e que deixamos, de algum modo, em algum momento, que nos roubassem… São os ódios que nos invadem sem pedir licença e que nos cegam para a vida que floresce apesar de nós.
Talvez assim mesmo seja a vida, com alguns caminhos de perguntas sem resposta, com sentimentos que não desejamos ter, com os espaços que temos que abrir, mesmo com força, para deixar entrar novamente o que nos aquieta, nos faz sorrir e nos permite dormir à noite sem os pesadelos. Essa vida de momentos em que temos que cavar o solo com as mãos e desfazer o vermelho das unhas, com a hora chegada de plantar nossas sementes, adubá-las, deixar cair a chuva e rezar, buscar, aonde quer que tenhamos perdido, um pouco de fé, e pedir a Deus, de joelhos, que floresçam.