pro fundo

Quando me senti sozinha e quis falar (pouco, apenas pouco) da tristeza que ia em mim, ouvi das pessoas que dizer sobre o que nos entristece soa deprimente e que sentir-se mal é desagradável aos olhos e ouvidos. Disseram-me que as palavras devem ser sempre leves, doces e, se possível, engraçadas. Ouvi que o desejável é ser sempre otimista, sempre parecer feliz. O desejável nem sempre se alcança. O que sabemos, por vezes, não é suficiente para o que somos e vivemos. Calei-me. Afastei-me. Tornei-me mais só do que já estava.

Sinto que algumas palavras precisam ser ditas para que possamos ouvi-las e entender o que há em nós. Não existem apenas palavras amenas. Não há somente sentimentos despreocupados, reconfortantes e, tampouco, apenas sensações alegres. Há o pesar, há a tristeza, há um pouco de tudo em nós. Procurei um ouvido atento a tamanha complexidade que ia em mim. Procurei uma voz. Gostaria de ser uma criatura mais simples, de sentimentos rasos. Não fui feita assim. Se me calo, transbordam palavras em meu corpo e escorrem pelos meus dedos…

O que fica contido

À sombra dos meus temores, as palavras contidas se misturaram em nuvens de tempestade que trovejam sobre mim. Acordam-me dos meus sonhos e me põem a ouvi-las de forma insistente no escuro das noites.
Quero aprender a dissipar as nuvens. Quero chuva sem raios, apenas para derramar sensações de consolo. Quero sonhar sem acordar com trovões. Quero mergulhar em mim sem medo dos pesadelos. Quero que as palavras contidas extravasem a conta gotas.