Sobre o tempo

Não é preciso se assustar com a distância, os afastamentos que acontecem. Tudo volta, voltam as pessoas! E voltam mais bonitas, mais maduras, voltam quando tem de voltar, voltam quando é para ser. Acontece que entre o ainda-não-é-hora e nossa-hora-chegou, muita gente se perde.
Mas, já não temos mais idade para, drasticamente, usarmos palavras grandiloquentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, aos poucos, fomos aprendendo sobre a continuidade da vida. Já não cometemos gestos tresloucados. Contidamente, continuamos.
E substituímos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”.
É o nosso jeito de continuar, o mais eficiente, o que não implica em decisões, apenas em paciência. (adaptado de Caio F. Abreu)

Corpo Perfeito

Sempre fui cismada com cuidados com o corpo. Nada excessivo. Saio da linha vez ou outra sem culpas e arrependimentos. Mas mantenho uma rotina que me permite isso, sem pagar por alguns excessos: exercícios físicos, boa alimentação, boas noites de sono, alguns cremes para cá, outros para lá…

Cismada como sou,  às vezes me vejo comprando revistas femininas que oferecem dicas de saúde e beleza. Nesta semana, resolvi folhear algumas das que ainda tenho em casa  e anotar algumas ideias que aparecem em suas páginas. Eis algumas delas:

– Massagem em casa acaba com a celulite (milagres acontecem).

– Atriz revela segredos de corpo perfeito: 2 horas de musculação por dia, mais uma hora de caminhada diária, três aulas de pilates por semana e yoga todas as manhãs (essa pessoa trabalha?).

– Nossa leitora revela seu programa de alimentação para ter um corpaço: nem um grão de sal e açúcar na sua dieta (isso é vida?).

– Superalimentos que prolongam a vida, previnem o câncer e mantém a juventude:  goji berries, erva de trigo, spirulina, clorela e cacau cru (hã?).

– Tenha um corpo de sereia comendo macarrão integral sem sal e molho, com gotas de limão (um 38, por favor).

– Para não ter barriga, coma feijão e mexirica (junto ou separado?).

– Demi Moore revela sua dieta para desintoxicar: quatro dias a base de limão e água (e uma caixa de Lexotan).

– Coma pimenta para ativar o seu metabolismo (e a sua gastrite).

– Tome água morna com sal ao acordar e sinta-se renovado (um verdadeiro banho de mar com direito a tombo).

Calmaria

Acontece… Às vezes, simplesmente, estou sem inspiração. Nada me vem à cabeça e não quero pensar em nada. Nem mesmo em algum assunto para escrever aqui. Fico com uma sensação latente de que, se algo me vier à mente e eu começar a dar corpo a essa ideia… touché! Vou ficar caraminholando, insone, pensando em coisas esdrúxulas, ao invés de curtir minha cama king size e meu travesseiro anti alérgico. É isso! Às vezes é melhor ficar quieta.
Nessa coisa de ficar calma e manter a mente longe dos tumultos cotidianos, me veio a ideia de fazer ioga e aprender a meditar. Justo eu, que não consigo ficar parada e sou capaz de fazer cinco coisas ao mesmo tempo. Eu, que trabalho o dia inteiro e tenho dois filhos para cuidar. Euzinha, que  acordo às 5 da manhã para ir à academia porque não tenho outro horário para manter a forma. Justo eu, que, vez ou outra, bato ponto aos sábados para trabalhar, ou fico além do horário fazendo serão.
Ideia de jerico. Cheguei à conclusão que o melhor seria fazer meditação em casa mesmo, antes de dormir. Acontece que a exaustão é tanta, que a meditação acaba durando umas 8 horas… Achei que poderia, então, fazê-la depois do almoço. Dois problemas a resolver: primeiro, barriga cheia, dá sono. Segundo, se não fico com sono, fico pensando na agenda da tarde. E quanto mais tento afastar os pensamentos que atrapalham a meditação, mais me irrito. Passo longe da calma desejada.
Li em uma revista que as pessoas que meditam pelo menos por 30 minutos por dia têm ganhos cognitivos e físicos comprovados. São mais concentradas, demonstram memória mais aguçada e mantêm até mesmo o ritmo cardíaco sob controle. A reportagem falava também das várias linhas meditativas e dava dicas das técnicas para conseguir fazê-las.
Interessante. Fiquei bastante curiosa. Mas acho que vou dormir. Boa noite!

Coisas de crianças

Quem tem filhos sabe que eles são mestres em fazer-nos passar vexame. Uma palavra inadequada, um comentário indiscreto, uma pergunta desafiadora, tudo em alto e bom tom e sempre na frente da torcida do Flamengo.

Como tenho estado bastante sozinha com os meus – meu marido tem viajado muito a trabalho – acabo levando-os para todos os lugares aonde vou. Supermercados, farmácias, padarias, hortifrutis…  Se a empregada já foi embora ou se é final de semana, não há escolha: mesmo sob protestos, não posso deixá-los sozinhos, pois ainda são pequenos.

Era um domingo e eu precisava comprar frutas e verduras.Chamei-os.
– Vamos com a mamãe ao mercado, comprar umas frutas bem gostosas para comermos depois do almoço e do jantar e amanhã…
– Obaaaaa! gritou o mais novo, que facilmente se rende a esses apelos.
O mais velho nem se mexeu. Estava “ocupadíssimo”, jogando videogame e nem deve ter me escutado.
– Vamos, meu amor, preciso sair ainda antes do almoço.
– AAAAAAH! Mas eu quero jogar…
– Você joga quando voltarmos.
– Mas… precisa ser agora?
– Sim, precisa. Vamos, você tem muito tempo hoje para isso.
Cara de totalmente contrariado.
– Vamos, assim você escolhe algo gostoso para seu lanche da escola.
Contrariedade levemente atenuada.

Fomos os três e rapidamente compramos o que precisávamos. E o que não precisávamos também: blueberries caríssimas para eu fazer muffins cheios de “coisas roxas no meio”; jabuticabas, porque “elas são muito fofas” e uma caixa de bombons, porque ” eu quero e meu irmão já escolheu muita coisa”.

Tudo no carrinho, a pior parte da história: os caixas lotados. Filas intermináveis. Ficamos, enquanto aguardávamos, conversando e olhando todas as coisas que ficam expostas perto da saída: revistas, esmaltes, escovas de dentes, aparelhos de barbear, balas e chocolates. De repente, um grito, no meio de todo mundo:
– MAMÃE O QUE É IMPOTÊNCIA?
Hã? O quê? Onde está escrito isto? Meu filho, do outro lado, em frente ao local onde os cigarros são vendidos, esperava uma resposta. Fiquei roxa de constrangimento e, enquanto todos me olhavam, eu o trouxe para perto e perguntei por que ele havia gritado aquilo.
– É que está escrito ali ó: O Mi-nis-té-rio da Saúde a-d-ver-te: Cigarro causa impotência.

Expliquei para os dois que a palavra designa o estado de uma pessoa meio “down”, meio “fraquinha”. Eles se contentaram com a explicação e me perguntaram mais 468.392 coisas sobre os malefícios do hábito de fumar. Depois de uma explicação que durou o tempo da fila e de eles olharem TODAS as propagandas advertindo sobre o risco do fumo (fetos mortos, cadáveres, peles enrugadas e outros horrores), me perguntaram por fim:
– E por que, então, tem gente que fuma, se cigarro faz tão mal?

Aí é que a coisa ficou complicada de explicar. E de entender. Só posso chegar à conclusão de que as crianças, algumas vezes, são mais espertas do que os adultos sabichões. E menos complicadas. Se isto, então aquilo, sem rodeios e coisas complexas. As razões são simples e as respostas diretas. Além disso, dão nó em pingo d’água facilmente.

Os meus, pelo menos, dão. E escondem as pontas.

Coisas de mulher

Toda mulher gosta de ir ao cabeleireiro. Fazer unhas, escova, depilação, mechas. Cortar as madeixas. Compromisso semanal consigo e com a atualização de dados sobre a vida alheia. Como resistir?

Resigno-me a achar que sou diferente da maioria. Odeio salões de beleza, fofocas sobre as frequentadoras, leituras de revistas Caras. Faço eu mesma minhas unhas com perfeição, sei me maquiar direitinho, meu cabelo dispensa escovas, alisamentos, chapinhas e afins. Um cortezinho a cada 3 meses. Uma ballayage para “iluminar os fios” no mesmo intervalo.

Ontem foi dia de voltar ao cabeleireiro. Refazer as mechas, conversar um pouco sobre a última vez em que estive lá e não gostei do resultado. Expliquei o que aconteceu, do que não gostei e do que gosto. Ele me ouviu atentamente, enquanto analisava meu cabelo. Depois falou:
– Vamos fazer algo diferente!
– Mas eu não gosto de nada diferente. Tradicional é meu sobrenome!
– Confie em mim, ficará ótimo, você vai ver. E o resultado será o que você deseja.

Confiei no dito cujo. Entendo um pouco de cuidados com corpo e cabelo, mas a minha profissão é outra. Deixar com quem sabe é sempre a melhor pedida. Sempre?

Depois de quase três horas sentada lendo Caras, Contigo e acompanhando alguns pedaços de dois filmes sonolentos que passavam na TV da sala de espera, eis o resultado: vontade de chorar, de matar o “sabidão” e de sair sem pagar. Ai, minha fina educação que me puxa as orelhas e me cala a boca quando sobe pelo corpo o desejo de um barraco digno de novela das oito (ou nove, ou onze, sei lá!). Conversei educadamente com o cabeleireiro, expliquei o que não gostei, ele explicou o que foi feito, retruquei sobre as nuances de cor, ele respondeu, me dando detalhes sobre o porquê do procedimento adotado e me garantiu que era isso que deveria ser feito. E que, na próxima vez, será possível fazer do meu jeito, agora não, por causa disso, daquilo, daquele outro e mais outro. Ok, entendido, aceito, conversado, pago, sorrisos de despedida, beijinhos e um inevitável: “Daqui a um mês tô aqui de novo para você consertar isso”. Essa merda, pensei! Mas não falei. Não sai mesmo. Nota dez para meus pais, pelo empenho na minha educação. Nem a Sorbonne faz tão bem feito. Vou fazer igual com meus filhos.

Cheguei em casa e não podia passar por um espelho que já estava eu olhando o resultado, tentando me convencer de que “não estava tão ruim assim” e de que “ele fez o que podia ser feito”. Acordei no meio da noite, de um sonho em que meu cabelo era cor de laranja e o cabeleireiro me dizia que estava MA.RA.VI.LHO.SO! Pulei da cama e fui beber água.

Hoje de manhã, assistindo ao Bom Dia Brasil, o técnico da seleção uruguaia de futebol deu uma declaração interessante. Disse ele: “Se você tem um problema que tem uma solução, por que se preocupa? E se ele não tem solução, por que se preocupa também?”. Ok, recado dado, tudo entendido. Meu problema TEM solução (espero!) e tenho que parar de pensar nisso.

Cheguei ao trabalho e todo mundo elogiou.
– Menina, seu cabelo está lindo!
– Você está muito chique!
– Que cabeleireiro é esse? Muito bom…

Resolvi me tranquilizar. Talvez eu tenha exagerado na dose e na reação. Vou ficar “na boa” e acreditar na crítica alheia – realmente ficou muito bom, só que diferente do que eu queria. No próximo mês eu volto lá e corrigimos qualquer defeito. Até lá vou ficar tranquila, esquecer esse assunto e parar de me olhar no espelho a cada 10 minutos. Vou aceitar e me acalmar. Não vou ficar pensando que o cabeleireiro poderia ter feito diferente, tentado outra coisa, arriscado outra cor, corrigido na hora em que falei que não gostei…

Que ódio!

De quando fomos outros

Quando fomos crianças, conhecemos várias pessoas na escola. Tornamo-nos amigos de alguns, inimigos eternos de outros; nos entendemos, desentendemos, reatamos, nunca mais nos falamos. Lembramos de muitos pelo rosto, gestos, graças feitas. De outros, pelo nome, dito diariamente nas listas de chamada. De alguns, entretanto, nenhuma memória, semblante ou alcunha.


Brigamos com colegas por razões que esquecemos. No ano seguinte já não nos lembrávamos. Pequenas coisas, palavras mal-ditas, amigos roubados, livros não-devolvidos, passeios esquecidos.  Bons tempos vividos, bobagens partilhadas. Coisas da infância.


Com a adolescência, vieram os namoricos, os novos amigos, os desentendimentos dobrados. O namorado “roubado”, a namorada que nunca foi, o amigo que já era! As idas e vindas de momentos intensos, que acreditávamos duradouros, eternos… Tão furtivos quanto as provas mensais de matemática – todas tiveram o mesmo destino: o lixo. Nunca conseguirei me lembrar de uma questão sequer!  Momentos que passaram, sempre passam, devem passar. Faz parte do crescer, amadurecer, tornar-se adulto: deixar para lá o que deixa de ter importância.


Interessante esse mundo em que vivemos: podemos, nele, reecontrar virtualmente vários colegas de escola,  já adultos. Além das rugas, da barriguinha, dos cabelos brancos, também somos mais maduros (devo acreditar que somos!). A adolescência passou, que bom. Essa é a melhor parte dela, ela passa.

desejo sem rima

por querer ser feliz
todo dia, com razão,
vivo a procurar motivos
e se não os acho, os invento

às vezes com sucesso,
outras apenas com empenho,
algumas com preguiça,
outras com um pouco de descrença

sigo tentando
procurando
persistindo
porque para a seriedade
nem sempre a brincadeira
e o riso fácil
estão na contramão