eu te inventei você me inventou co-criadores distantes de diferentes narrativas irreais
ao longo do enredo, fugi tresloucada em um cavalo ao ver meu castelo construído na areia enquanto você violava seus escritos sagrados ao contar histórias de outras princesas
eu te criei encantado você me criou perfeita e na coleção das histórias verdadeiras que somos sobressaíram nossas ilusões desfeitas
eu te inventei você me inventou e é por isso que nenhuma das histórias pode dar certo.
nova lua cheia de impermanências infinita em ciclos sempre inaugurais a abrilhantar todas as significâncias da vida. sua luz me enseja a resgatar memórias do que sempre fui, a preservar as lembranças dos sentidos, a proteger histórias construídas, a desejar permanências, castelos tangíveis, príncipes verdadeiros, palavras honestas, promessas fiéis, histórias críveis, enredos verossímeis finais felizes, enfim.
faz-me inteira apenas e tão somente por ser única.
O sol voltou a brilhar quente naquela quase primavera. As estações pareciam enlouquecer, assim como o mundo. Uma semana antes havia feito muito frio e chuva. Agora, o calor voltou a ser um convite ao sol, aos passeios, à vida lá fora. As sardas denunciavam o aceite a essas jornadas. Viver não parecia mais tão perigoso.
As novas floradas das árvores voltavam, aos poucos, a colorir a cidade. Se ainda havia rancor pelo abandono e pela insignificância, havia também um crescente sentimento de superação e exaltação da vida. A poda ajuda o crescimento, traz vigor ao que insiste em brotar.
Fiquei rememorando lembranças de outrora. Foi numa quase primavera que minha barriga, pela primeira vez, se agigantou pela vida que também crescia dentro dela. Momento sublime. Lembro-me dos movimentos dentro de mim, do pezinho que vez ou outra formava uma pequena elevação que percorria meu abdômen, da expectativa feliz de todos os dias pela vinda. Meu primeiro filho nasceu num quase verão, no último dia daquela primavera. Trouxe novos cheiros, movimentos, pequenos ruídos, um novo ritmo à existência.
O convite à vida se faz novamente, desta vez com ela se agigantando do lado de fora. Talvez sempre esteja à espreita, de alguma forma. Por mais cansados que estejamos das quase mortes que nos rondam (pela impossibilidade de viver o que se pode em plenitude), a força da continuidade é profícua. Viver é agora, é urgente. Que venha o sol!
A chuva veio cedo, estranhamente em agosto. Quis umedecer o solo e preparar a terra para as sementes da primavera.
Veio como um prenúncio: lavar a alma, levar o que não cabe mais. Esfriar os afetos, as emoções extremadas. Umedecer a urdidura da nossa existência para que possamos descartar os fios que não permitem compor equilíbrio na trama.
Veio trazer cantos matinais longínquos e a insônia, apenas pelo desejo de rememorar os ruídos da água. Trouxe comedimento, ritmou a respiração, acomodou os barulhos internos. Calou a mente para aguçar os ouvidos. Esfriou o corpo. Entrelaçou a alma nos sonhos quase perdidos. Realinhou a fé.
Trouxe um fio de paz, não a mundial, apenas a minha, a que eu preciso para seguir completa. E vento, muito vento, para desgrenhar os cabelos, empoeirar os móveis e derrubar as folhas secas das árvores.
Rogo que ela possa ter realinhado os chakras, os astros, a coluna, as ideias e os ideais. Na dúvida e na esperança, sigo correndo os dedos a completar os ciclos de aves-marias, a me manter sempre em abrigo com o que de fato importa.
Desejos insanos, irreais, irrefletidos. Impossibilidades. Tentar transformar, a todo custo, as fantasias em realidade. Sobreviver aos desajustes, à forma de ser mesma da vida. Transformar as perdas em drama a ser desfeito. Ter como motor da existência o encantamento, a quimera. Adormecer e entorpecer-se. Acordar e desejar o devaneio. Estar sempre à mercê das utopias. Qual o lugar do desejo? Quais as suas possibilidades? Onipresente e onipotente, afinal, é desejo. A realidade que trate de nos talhar.