Chuva
A chuva veio cedo, estranhamente em agosto. Quis umedecer o solo e preparar a terra para as sementes da primavera.
Veio como um prenúncio: lavar a alma, levar o que não cabe mais. Esfriar os afetos, as emoções extremadas. Umedecer a urdidura da nossa existência para que possamos descartar os fios que não permitem compor equilíbrio na trama.
Veio trazer cantos matinais longínquos e a insônia, apenas pelo desejo de rememorar os ruídos da água. Trouxe comedimento, ritmou a respiração, acomodou os barulhos internos. Calou a mente para aguçar os ouvidos. Esfriou o corpo. Entrelaçou a alma nos sonhos quase perdidos. Realinhou a fé.
Trouxe um fio de paz, não a mundial, apenas a minha, a que eu preciso para seguir completa. E vento, muito vento, para desgrenhar os cabelos, empoeirar os móveis e derrubar as folhas secas das árvores.
Rogo que ela possa ter realinhado os chakras, os astros, a coluna, as ideias e os ideais. Na dúvida e na esperança, sigo correndo os dedos a completar os ciclos de aves-marias, a me manter sempre em abrigo com o que de fato importa.

Poema de Alberto Lacerda
Há dias em que sou um corpo
que pegou fogo
E ficou todo
Em ferida
Oferenda II

O lugar do desejo
Desejos insanos, irreais, irrefletidos. Impossibilidades. Tentar transformar, a todo custo, as fantasias em realidade. Sobreviver aos desajustes, à forma de ser mesma da vida. Transformar as perdas em drama a ser desfeito. Ter como motor da existência o encantamento, a quimera. Adormecer e entorpecer-se. Acordar e desejar o devaneio. Estar sempre à mercê das utopias. Qual o lugar do desejo? Quais as suas possibilidades? Onipresente e onipotente, afinal, é desejo. A realidade que trate de nos talhar.

Diário
a insanidade momentânea é uma senhora obesa e displicente a nos dizer indecências com restos de comida por entre os dentes. espaçosa e repulsiva, não para de tagarelar enquanto mastiga. observo-a, tentando me incomodar cada dia menos com seu jeito intolerável. distancio-me observando pássaros, borboletas e estrelas. procuro constelações à noite e tenho momentos de flerte com vênus e com a lua. cuido de orquídeas, vasos de manjericão, hortelã e de um limoeiro que trouxe para frente de casa. assobio para as calopsitas e compro folhas de couve para elas no mercado. pedalo, faço pilates e tomo um pouco de sol. voltei a fazer dieta.
não quero tomar remédios. ando flertando com florais, aromaterapia, chás e resolvi usar o terço que ganhei como momento de meditação. cada conta, uma respiração a ser modulada, um ruído da mente a silenciar. o mantra da ave-maria incontestavelmente me fala do ciclo da vida, nascimento e morte, começo e fim. o do nosso pai me lembra da fé necessária para nos sustentar, do incontrolável à nossa volta, de nossos tão irrelevantes desejos, afinal não é a minha vontade que deve ser feita. a vida lá fora, sol, flores, pequenos animais, o céu, o vento de agosto seguem em seu louvor cotidiano a deus, vivendo apenas, sem pensamentos, sem preocupações, sem raiva e ansiedade. invejo-os. quero criar, ventar, voar, aquecer, florescer, transformar. quero ser eu mesma, sendo outra.
Viagem
o verde se prolongava no horizonte até onde a vista não mais alcançava. entrelaçava paisagens, ora mais exuberantes, ora meio ressequidas, com breves intervalos para o amarelo dos ipês. os pássaros locais eram sempre um presente: belos, coloridos, barulhentos. por vezes, o sobrevoo circular de alguns urubus nos remetia à essência mesma da natureza: vida e morte, seca e chuva, inverno e verão, a nos evocar, também, a centralidade do tempo. tempo entre o início e o fim, entre as estações, entre o adormecimento das sementes e a explosão das flores e dos frutos, a espera necessária para que a vida cresça, brote, floresça, crie profundas raízes. a ansiedade não pode ter lugar algum neste cenário. o tempo das coisas é sempre kairós.

Agosto
o estampido do chumbinho fez revoar os passarinhos e atirou longe a lata na frente da casa. os cachorros correram em latidos altos pelo barulho feito. a vizinha rompeu a porta descabelada pelo susto, sem perceber os risos abafados dos meninos na janela que se mantinha aberta.
o sol, do lado de fora, iluminava num amarelo sem fim o início de agosto. enrugava os olhos e avermelhava a pele. os pássaros retornaram aos poucos, depois do silêncio que se fez. primeiro os sabiás-laranjeira, depois os bem-te-vis. esbocei um sorriso quase sem perceber ao acompanhar toda a cena.
a vida seguiu indiferente às nossas dores.

Lua
a lua me sorri descomplicadamente. enverga para o alto os cantos da boca, sem pudor. ilumina o pedaço da noite quando olho para ela no céu. me lembra da francesinha na unha, como gosto. me fala da impermanência, das mudanças, das transformações. me chama em seus ciclos, traz em si o desejo do retorno. me faz procurá-la junto às estrelas que se movem. me conforta por sobreviver sempre aos dias, todos os dias, mesmo os mais difíceis.

Despropósito
há um inferno debaixo de nossos pés. sento-me, por vezes, tentando escutar os silêncios da noite. eles nos dizem sobre vozes inaudíveis. nos mostram as sombras dos dias sem lua. ressoam inconveniências que tentamos calar. mesmo assim, abrandam o torpor do excesso de sentimentos e nos permitem pensar nos propósitos. e nos não-desejos. não quero enlouquecer. quero mitigar a raiva. perder o medo. perdoar o abandono. acreditar no imaterial.
não posso crer em um deus que joga dados.
Piripaque
tem horas em que mesmo perseverando, mantendo a firmeza, aguentando todas as pressões, deixamos de suportar. sucumbimos, passamos mal, temos um momento ruim. a sensação de enjoo, a reviravolta dos sentidos, o suor escorrendo pelas costas. deitei-me no chão e ergui as pernas na cadeira. fiquei ali sozinha, sala escura, por longos minutos, interminável tempo de pavor pelo incontrolável. segui com aquela sensação o resto do dia: no chão, vendo a energia se esvaindo, o corpo esquecendo o rumo, a vida perdendo sentido. na alma, ficaram incrustadas a longa espera, a chegada ao limite, o fracasso do que importa, o desejo de jogar a toalha. onde se reencontra a leveza das coisas?