Lírica

Há tristeza pelos versos incompreendidos

Pelo poema que, pela métrica

Permaneceu sem rima.

Há dor por querer suas palavras aceitas

Esquecendo-se que a estética

Não desobriga a busca de sentido.

Há desejo de novas poesias

Caóticas, intensas e complexas

Que seduzem pela verdade das ideias

Fieis que são a todo sentimento.

Tela de Josep Moncada, 2016.

Conto de fadas, de Florbela Espanca

Eu trago-te nas mãos o esquecimento

Das horas más que tens vivido, Amor!

E para as tuas chagas o unguento

Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento…

Trago no nome as letras de uma flor…

Foi dos meus olhos garços que um pintor

Tirou a luz para pintar o vento…

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,

O manto dos crepúsculos da tarde,

O sol que é d’oiro, a onda que palpita.

Dou-te comigo o mundo que Deus fez!

– Eu sou Aquela de quem tens saudade,

A Princesa do conto: “Era uma vez…”

Escultura: O beijo, de Yves Pires.

Contos

eu te inventei
você me inventou
co-criadores distantes
de diferentes narrativas
irreais

ao longo do enredo,
fugi tresloucada em um cavalo
ao ver meu castelo construído na areia
enquanto você violava seus escritos sagrados
ao contar histórias de outras princesas

eu te criei encantado
você me criou perfeita
e na coleção das histórias verdadeiras que somos
sobressaíram nossas ilusões
desfeitas

eu te inventei
você me inventou
e é por isso que nenhuma das histórias
pode dar certo.

Lua cheia

nova lua cheia de impermanências
infinita em ciclos sempre inaugurais
a abrilhantar todas as significâncias da vida.
sua luz me enseja a resgatar memórias do que sempre fui,
a preservar as lembranças dos sentidos,
a proteger histórias construídas,
a desejar permanências,
castelos tangíveis,
príncipes verdadeiros,
palavras honestas,
promessas fiéis,
histórias críveis,
enredos verossímeis
finais felizes, enfim.

faz-me
inteira apenas
e tão somente
por ser única.

Quase primavera

O sol voltou a brilhar quente naquela quase primavera. As estações pareciam enlouquecer, assim como o mundo. Uma semana antes havia feito muito frio e chuva. Agora, o calor voltou a ser um convite ao sol, aos passeios, à vida lá fora. As sardas denunciavam o aceite a essas jornadas. Viver não parecia mais tão perigoso.

As novas floradas das árvores voltavam, aos poucos, a colorir a cidade. Se ainda havia rancor pelo abandono e pela insignificância, havia também um crescente sentimento de superação e exaltação da vida. A poda ajuda o crescimento, traz vigor ao que insiste em brotar.

Fiquei rememorando lembranças de outrora. Foi numa quase primavera que minha barriga, pela primeira vez, se agigantou pela vida que também crescia dentro dela. Momento sublime. Lembro-me dos movimentos dentro de mim, do pezinho que vez ou outra formava uma pequena elevação que percorria meu abdômen, da expectativa feliz de todos os dias pela vinda. Meu primeiro filho nasceu num quase verão, no último dia daquela primavera. Trouxe novos cheiros, movimentos, pequenos ruídos, um novo ritmo à existência.

O convite à vida se faz novamente, desta vez com ela se agigantando do lado de fora. Talvez sempre esteja à espreita, de alguma forma. Por mais cansados que estejamos das quase mortes que nos rondam (pela impossibilidade de viver o que se pode em plenitude), a força da continuidade é profícua. Viver é agora, é urgente. Que venha o sol!

Tela de Dorothea Sharp, A jovem jardineira, 1890.

Chuva

A chuva veio cedo, estranhamente em agosto. Quis umedecer o solo e preparar a terra para as sementes da primavera.

Veio como um prenúncio: lavar a alma, levar o que não cabe mais. Esfriar os afetos, as emoções extremadas. Umedecer a urdidura da nossa existência para que possamos descartar os fios que não permitem compor equilíbrio na trama.

Veio trazer cantos matinais longínquos e a insônia, apenas pelo desejo de rememorar os ruídos da água. Trouxe comedimento, ritmou a respiração, acomodou os barulhos internos. Calou a mente para aguçar os ouvidos. Esfriou o corpo. Entrelaçou a alma nos sonhos quase perdidos. Realinhou a fé.

Trouxe um fio de paz, não a mundial, apenas a minha, a que eu preciso para seguir completa. E vento, muito vento, para desgrenhar os cabelos, empoeirar os móveis e derrubar as folhas secas das árvores.

Rogo que ela possa ter realinhado os chakras, os astros, a coluna, as ideias e os ideais. Na dúvida e na esperança, sigo correndo os dedos a completar os ciclos de aves-marias, a me manter sempre em abrigo com o que de fato importa.

Escultura de Luo Li Rong.

O lugar do desejo

Desejos insanos, irreais, irrefletidos. Impossibilidades. Tentar transformar, a todo custo, as fantasias em realidade. Sobreviver aos desajustes, à forma de ser mesma da vida. Transformar as perdas em drama a ser desfeito. Ter como motor da existência o encantamento, a quimera. Adormecer e entorpecer-se. Acordar e desejar o devaneio. Estar sempre à mercê das utopias. Qual o lugar do desejo? Quais as suas possibilidades? Onipresente e onipotente, afinal, é desejo. A realidade que trate de nos talhar.

Sonhos, de Zelda Devon e Kurt Huggins.