Quase primavera

O sol voltou a brilhar quente naquela quase primavera. As estações pareciam enlouquecer, assim como o mundo. Uma semana antes havia feito muito frio e chuva. Agora, o calor voltou a ser um convite ao sol, aos passeios, à vida lá fora. As sardas denunciavam o aceite a essas jornadas. Viver não parecia mais tãoContinuar lendo “Quase primavera”

Chuva

A chuva veio cedo, estranhamente em agosto. Quis umedecer o solo e preparar a terra para as sementes da primavera. Veio como um prenúncio: lavar a alma, levar o que não cabe mais. Esfriar os afetos, as emoções extremadas. Umedecer a urdidura da nossa existência para que possamos descartar os fios que não permitem comporContinuar lendo “Chuva”

O lugar do desejo

Desejos insanos, irreais, irrefletidos. Impossibilidades. Tentar transformar, a todo custo, as fantasias em realidade. Sobreviver aos desajustes, à forma de ser mesma da vida. Transformar as perdas em drama a ser desfeito. Ter como motor da existência o encantamento, a quimera. Adormecer e entorpecer-se. Acordar e desejar o devaneio. Estar sempre à mercê das utopias.Continuar lendo “O lugar do desejo”

Diário

a insanidade momentânea é uma senhora obesa e displicente a nos dizer indecências com restos de comida por entre os dentes. espaçosa e repulsiva, não para de tagarelar enquanto mastiga. observo-a, tentando me incomodar cada dia menos com seu jeito intolerável. distancio-me observando pássaros, borboletas e estrelas. procuro constelações à noite e tenho momentos deContinuar lendo “Diário”

Viagem

o verde se prolongava no horizonte até onde a vista não mais alcançava. entrelaçava paisagens, ora mais exuberantes, ora meio ressequidas, com breves intervalos para o amarelo dos ipês. os pássaros locais eram sempre um presente: belos, coloridos, barulhentos. por vezes, o sobrevoo circular de alguns urubus nos remetia à essência mesma da natureza: vidaContinuar lendo “Viagem”

Agosto

o estampido do chumbinho fez revoar os passarinhos e atirou longe a lata na frente da casa. os cachorros correram em latidos altos pelo barulho feito. a vizinha rompeu a porta descabelada pelo susto, sem perceber os risos abafados dos meninos na janela que se mantinha aberta. o sol, do lado de fora, iluminava numContinuar lendo “Agosto”

Lua

a lua me sorri descomplicadamente. enverga para o alto os cantos da boca, sem pudor. ilumina o pedaço da noite quando olho para ela no céu. me lembra da francesinha na unha, como gosto. me fala da impermanência, das mudanças, das transformações. me chama em seus ciclos, traz em si o desejo do retorno. meContinuar lendo “Lua”

Despropósito

há um inferno debaixo de nossos pés. sento-me, por vezes, tentando escutar os silêncios da noite. eles nos dizem sobre vozes inaudíveis. nos mostram as sombras dos dias sem lua. ressoam inconveniências que tentamos calar. mesmo assim, abrandam o torpor do excesso de sentimentos e nos permitem pensar nos propósitos. e nos não-desejos. não queroContinuar lendo “Despropósito”