o verde se prolongava no horizonte até onde a vista não mais alcançava. entrelaçava paisagens, ora mais exuberantes, ora meio ressequidas, com breves intervalos para o amarelo dos ipês. os pássaros locais eram sempre um presente: belos, coloridos, barulhentos. por vezes, o sobrevoo circular de alguns urubus nos remetia à essência mesma da natureza: vidaContinuar lendo “Viagem”
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Agosto
o estampido do chumbinho fez revoar os passarinhos e atirou longe a lata na frente da casa. os cachorros correram em latidos altos pelo barulho feito. a vizinha rompeu a porta descabelada pelo susto, sem perceber os risos abafados dos meninos na janela que se mantinha aberta. o sol, do lado de fora, iluminava numContinuar lendo “Agosto”
Lua
a lua me sorri descomplicadamente. enverga para o alto os cantos da boca, sem pudor. ilumina o pedaço da noite quando olho para ela no céu. me lembra da francesinha na unha, como gosto. me fala da impermanência, das mudanças, das transformações. me chama em seus ciclos, traz em si o desejo do retorno. meContinuar lendo “Lua”
Despropósito
há um inferno debaixo de nossos pés. sento-me, por vezes, tentando escutar os silêncios da noite. eles nos dizem sobre vozes inaudíveis. nos mostram as sombras dos dias sem lua. ressoam inconveniências que tentamos calar. mesmo assim, abrandam o torpor do excesso de sentimentos e nos permitem pensar nos propósitos. e nos não-desejos. não queroContinuar lendo “Despropósito”
Piripaque
tem horas em que mesmo perseverando, mantendo a firmeza, aguentando todas as pressões, deixamos de suportar. sucumbimos, passamos mal, temos um momento ruim. a sensação de enjoo, a reviravolta dos sentidos, o suor escorrendo pelas costas. deitei-me no chão e ergui as pernas na cadeira. fiquei ali sozinha, sala escura, por longos minutos, interminável tempoContinuar lendo “Piripaque”
Sem perdão
as culpas se entrelaçaram: minhas, tuas, nossas. desculpar-se não desfaz os malfeitos. o nevoeiro das decisões maltrapilhas não se dissipa na falha da claridade. até a lua se acovarda frente ao vendaval. o meu eu sombrio não pode mais se autoproclamar real. a restinga da narrativa construída em cercania de dor geme sua descoberta. oContinuar lendo “Sem perdão”
Noite
as golfadas de frescor da noite trazem em seus sonidos sonhos desvairados que espasmam pernas e chacoalham o sossego. sonhos que invadem pensamentos, sonhos aéreos, de tobogãs, elevadores, subterrâneos e recintos entreabertos. que flertam com o irrefletido dos dias. que trazem chaves para abrir as portas encarceradas da nossa criança de outrora. que rendem prolongadasContinuar lendo “Noite”
Calendário
os dias seguem com os assombros do agora. somos tomados pelo tempo em dimensões covardes. deixamos de viver a singularidade dos dias com os outros e estamos mergulhados na infinidade de nós mesmos. vemos, pela graça dos recursos tecnológicos, os bebês de ontem andando, a abundância dos cabelos das meninas em longas tranças, as calçasContinuar lendo “Calendário”
Prato
a beleza do restaurante e o requinte do cardápio trazem certa pompa ao almoço de domingo. pedimos água para amenizar a quentura do dia e um clericot para entremear o encontro amoroso. entre tantos itens do menu – não, não tantos – a escolha declara as ranhuras da alma: a massa caseira que corteja asContinuar lendo “Prato”
Manicômio
os dias seguem com imbecilidades chegando pelas frestas das janelas. sinto-me alienista a ser internada em hospício de uma pessoa só. brigo com coisas tolas, enraiveço pelo desconhecido, entôo canções antigas que me lembro não sei como, nem por quê. recomeço semanalmente dietas inúteis e inventei de colocar glutamina no suco de laranja. leio. releio.Continuar lendo “Manicômio”