Conto de fadas, de Florbela Espanca

Eu trago-te nas mãos o esquecimento Das horas más que tens vivido, Amor! E para as tuas chagas o unguento Com que sarei a minha própria dor. Os meus gestos são ondas de Sorrento… Trago no nome as letras de uma flor… Foi dos meus olhos garços que um pintor Tirou a luz para pintarContinuar lendo “Conto de fadas, de Florbela Espanca”

Contos

eu te inventeivocê me inventouco-criadores distantes de diferentes narrativas irreais ao longo do enredo,fugi tresloucada em um cavaloao ver meu castelo construído na areiaenquanto você violava seus escritos sagradosao contar histórias de outras princesaseu te criei encantadovocê me criou perfeitae na coleção das histórias verdadeiras que somossobressaíram nossas ilusões desfeitaseu te inventeivocê me inventoue éContinuar lendo “Contos”

Lua cheia

nova lua cheia de impermanênciasinfinita em ciclos sempre inauguraisa abrilhantar todas as significâncias da vida.sua luz me enseja a resgatar memórias do que sempre fui,a preservar as lembranças dos sentidos,a proteger histórias construídas,a desejar permanências, castelos tangíveis,príncipes verdadeiros,palavras honestas,promessas fiéis,histórias críveis, enredos verossímeisfinais felizes, enfim.faz-meinteira apenas e tão somente por ser única.

Quase primavera

O sol voltou a brilhar quente naquela quase primavera. As estações pareciam enlouquecer, assim como o mundo. Uma semana antes havia feito muito frio e chuva. Agora, o calor voltou a ser um convite ao sol, aos passeios, à vida lá fora. As sardas denunciavam o aceite a essas jornadas. Viver não parecia mais tãoContinuar lendo “Quase primavera”

Chuva

A chuva veio cedo, estranhamente em agosto. Quis umedecer o solo e preparar a terra para as sementes da primavera. Veio como um prenúncio: lavar a alma, levar o que não cabe mais. Esfriar os afetos, as emoções extremadas. Umedecer a urdidura da nossa existência para que possamos descartar os fios que não permitem comporContinuar lendo “Chuva”

O lugar do desejo

Desejos insanos, irreais, irrefletidos. Impossibilidades. Tentar transformar, a todo custo, as fantasias em realidade. Sobreviver aos desajustes, à forma de ser mesma da vida. Transformar as perdas em drama a ser desfeito. Ter como motor da existência o encantamento, a quimera. Adormecer e entorpecer-se. Acordar e desejar o devaneio. Estar sempre à mercê das utopias.Continuar lendo “O lugar do desejo”

Diário

a insanidade momentânea é uma senhora obesa e displicente a nos dizer indecências com restos de comida por entre os dentes. espaçosa e repulsiva, não para de tagarelar enquanto mastiga. observo-a, tentando me incomodar cada dia menos com seu jeito intolerável. distancio-me observando pássaros, borboletas e estrelas. procuro constelações à noite e tenho momentos deContinuar lendo “Diário”