as culpas se entrelaçaram: minhas, tuas, nossas. desculpar-se não desfaz os malfeitos. o nevoeiro das decisões maltrapilhas não se dissipa na falha da claridade. até a lua se acovarda frente ao vendaval. o meu eu sombrio não pode mais se autoproclamar real. a restinga da narrativa construída em cercania de dor geme sua descoberta. oContinuar lendo “Sem perdão”
Arquivos do autor:Ana Bittencourt
Noite
as golfadas de frescor da noite trazem em seus sonidos sonhos desvairados que espasmam pernas e chacoalham o sossego. sonhos que invadem pensamentos, sonhos aéreos, de tobogãs, elevadores, subterrâneos e recintos entreabertos. que flertam com o irrefletido dos dias. que trazem chaves para abrir as portas encarceradas da nossa criança de outrora. que rendem prolongadasContinuar lendo “Noite”
Calendário
os dias seguem com os assombros do agora. somos tomados pelo tempo em dimensões covardes. deixamos de viver a singularidade dos dias com os outros e estamos mergulhados na infinidade de nós mesmos. vemos, pela graça dos recursos tecnológicos, os bebês de ontem andando, a abundância dos cabelos das meninas em longas tranças, as calçasContinuar lendo “Calendário”
Prato
a beleza do restaurante e o requinte do cardápio trazem certa pompa ao almoço de domingo. pedimos água para amenizar a quentura do dia e um clericot para entremear o encontro amoroso. entre tantos itens do menu – não, não tantos – a escolha declara as ranhuras da alma: a massa caseira que corteja asContinuar lendo “Prato”
Manicômio
os dias seguem com imbecilidades chegando pelas frestas das janelas. sinto-me alienista a ser internada em hospício de uma pessoa só. brigo com coisas tolas, enraiveço pelo desconhecido, entôo canções antigas que me lembro não sei como, nem por quê. recomeço semanalmente dietas inúteis e inventei de colocar glutamina no suco de laranja. leio. releio.Continuar lendo “Manicômio”
Juiz
o telefone tocou e fez ressoar as palavras: ele deveria recolher sua trouxa e se retirar. a batalha não encerrava a guerra, mas o novo capítulo permitiu um sono sem cortes. lembrei-me, enojada, do jeito vulgar de quem tenciona riqueza, dos argumentos vis, das relações descerebradas e das palavras quase obscenas: tudo para mim éContinuar lendo “Juiz”
Matinal
as curvas da manhã começaram a se mostrar em meio ao sexo que embalou o bom dia. deixamos os lençóis quentes e fomos caminhar passos de outono. o céu nos convidava ao amanhecer enquanto os olhos, turvos do prazer recente, desejavam ainda perdurar certa mornidão. o café precisou ser forte. e muito. os olhos arderamContinuar lendo “Matinal”
Falso poeta
Cavei cova funda e enterrei teus contos escritos na melodia cafona dos sentimentos rasos e desejo$ torpes. Teus exageros (mal) disfarçados te fizeram construir sonhos mascarados em trouxas de búzios e patuás. Teus falsos protetores fizeram-me abraçar o rosário de aves-marias (ladainha de contas decimais) guardado no baú das recordações insuspeitas.
Balela
Sabiá
A insegurança invade em ondas Os espaços da mente já ocupados. As preocupações se avolumam Junto com as contas que não param de chegar. … Sabiá laranjeira Aparece na janela Indiferente à vida lá fora. Olho o sabiá e sorrio quase sem perceber. O azul do céu garantirá mais um dia de sol.