Acordei pensando no quão injusto é que só possamos experienciar a vida a partir do nosso corpo. Uma vida todinha a partir do mesmo corpo, que sequer é o mesmo a vida toda. E quão injusto é com o mundo que cada habitante só saiba de si. Os passarinhos cantam lá fora e não seiContinuar lendo “Introspectar”
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Cidade Terminal
a cidade se mostra com seus muros altos e cinzas de onde florescem concertinas, alarmes e cercas as ruas semi cheias de grandes carros inurbanos a compensar as pequenas mentes dos proprietários o seco calor que inflama as ideias e os afetos com grandes enxurradas de incômodos as rasas crenças em diminutas autoridades servis aContinuar lendo “Cidade Terminal”
Imprevisível
no caminho indeterminado da vida – poeira, cascalhos, atalhos e curvas- há imprevistos que nos desconcertam, nos fazem perder a marcha, ralar os joelhos, machucar as mãos. sentimo-nos cochos, vulgares, desprovidos da beleza que o balé dos movimentos provoca em quem o vê. nem sempre fecham-se as feridas, quase nunca esquecem-se os tombos, fatalmente permanecemContinuar lendo “Imprevisível”
Guarida
vou passar por aí nesta semana para combinarmos de sair um pouco dos trilhos não que a vida já não esteja descarrilada mas preciso tomar uma soda italiana e lembrar das risadas que dividíamos quando imitávamos os mais velhos dando sermões por quase nada preciso pegar em suas mãos para guardar a certeza de queContinuar lendo “Guarida”
Ângulo
aprendi a afastar o medo aprendi que acertar demora a vida, afinal, é o que acontece cá dentro mesmo que tudo desabe lá fora
Glacial
faz frio e a chuva escorre gotas de inverno sinto o corpo trêmulo tão gelado quanto a aurora busco outras pernas para enlaçar nas minhas num desesperado desejo por qualquer conforto aqueço-me no mormaço do corpo como quem bebe para afastar os maus espíritos os turbilhões e as crises como quem pede para dormir esquecerContinuar lendo “Glacial”
Experimentação
quando mergulhei naquele rio lodoso, eu estava de costas, nunca havia mergulhado em rio, tampouco de costas, não conhecia a profundidade, o terror escuro do fundo, as águas que pareceram me carregar para a morte, machuquei-me ao tocar o piso quando alcancei o pé e um tanto mais ao sair da água e carreguei asContinuar lendo “Experimentação”
Traço
_ Por que fazer algo que te deixa uma marca que é para sempre? – perguntou-me o senhor sentado à minha frente. Devolvi-lhe a pergunta com outra: _ Que marca não é para sempre?
Resistência
no átrio ou ventrículo (não sei) ficou alojada a bala de prata que tentou matar meus sonhos. não morri tampouco os planos. meu coração se sustenta em costuras de teimosia e persistência, em camadas de diligência e paixão.
Enfrente as feras
a ferocidade do viver ao subjugar o caos o inevitável e o (quase) incontornável ao enfrentar o descrédito na humanidade e o medo da iniquidade sobrevive aos nossos piores dias aos nossos piores medos aos caprichos da vida ao imprevisto das horas para nos amparar no ontem, no agora e (queira deus) pelos séculos (amém).