Carta ao vizinho

Vizinho, bom dia!
Não te conheço, ou melhor, conheço-te apenas de relance ao nos encontrarmos todas as manhãs, proferindo um educado “bom dia” um para o outro. Sei que tua casa passa o dia vazia, fechada, sem ninguém. Pelo menos sei disso na hora do almoço, único horário em que estou em casa antes do fim do dia. Ouço-te, depois das seis: teus passos, o salto alto de tua esposa, o choro de teu filho menor (já vi pela janela que são dois). Não, não é isso que me incomoda. De fato, não há incômodo algum, à exceção dos churrascos eventuais – não pela fumaça ou pelo cheiro da carne, mas pelas músicas de gosto muito duvidoso. Nada que a porta fechada e o ar condicionado ligado não resolvam. O que me intriga é o fato de teus móveis serem arrastados tarde da noite. Nove, dez horas e os escutamos – os móveis – de um lado para outro, e mais um tanto, e mais um pouco. Impossível não ouvir. Tanto quanto é impossível não se perguntar: acaso limpam a casa a esta hora? Mudam a decoração diariamente? Instituíram novo hábito noturno? Têm alguma mania ou superstição? Não consigo não ficar devaneando sobre isto, ao mesmo tempo em que penso o quanto em nosso tempo moramos lado a lado e não nos falamos, o quanto – não apenas nós, mas todos, em geral – somos tão próximos e tão desconhecidos, o quanto a nossa vida reservada nos mantém apenas conosco mesmos, sem muitas relações, nenhuma troca, nenhuma conversa, sem ver nossos filhos brincando juntos pelo condomínio e sem explicações para os móveis itinerantes e as músicas irritantes.

Escrita interior

Instalou-se o desejo de libertar-se. Não havia mais o que fazer com aquele sentimento desagradável e desajeitado. Já percebera que não havia solução para aquilo. Não se pode mudar as pessoas, nem desejar que as situações se resolvam por si mesmas. Há o desejo sempre infantil de que alguma mágica aconteça. Mas não… ela talvez aconteça por meio das palavras. Terapia. Fala-se, escreve-se, compõe-se, rima-se, transforma-se o vivido. Muda-se o que vai dentro, não o que está fora. Tarefa árdua e necessária. Desejo de conseguir rir daquilo que faz chorar.

Nota

Imagine uma criatura impertinente e empertigada. Desagradável. Que a todos despreza por meio de atitudes nada delicadas e que se julga acima do bem e do mal. Uma pessoa deselegante, mas que se esconde, por vezes e por rápidos momentos, atrás de uma roupagem educada e fina. Insolente, arrogante e louca por dinheiro – de uma forma nauseante. Alguém que, embora tente manter as aparências, é transparente demais para consegui-lo. Seu humor está sempre estampado no riso cínico, semelhante ao de uma bruxa de história infantil, nos gestos exagerados e no topete. Sim, no topete. Quanto mais descabelado, mais ouriçado, mais certa a conclusão de que a histeria está presente junto dela, desta pessoa. Sempre faz questão de manter todos em um patamar abaixo de si, sobre o qual se eleva, apontando dedos, gritando erros, tomando decisões segundo sua própria perspectiva.
É a pessoa ideal para ser tema de piadas veladas. Embora temida por todos (ou quase todos), nos bastidores é sempre ridicularizada e malhada, tal qual Judas em véspera de Páscoa.
Na última vez em que a vi, por rápidos segundos, mentalmente imaginei uma cena: um dia, andando pelas ruas de Paris, às margens do Sena, algo único aconteceu. Gesticulando e falando alto, histericamente, tamanha a felicidade por estar em um lugar tão digno de sua importante presença e por poder dizer a todos que lá esteve, colhendo, com satisfação, as bocas abertas de admiração ao seu redor, tropeçou em seu próprio topete. Caiu, desajeitada que era e gritou alto e esganiçado, deselegante como sempre foi. Acabou por afogar-se no rio, em dia frio e com poucos a presenciarem sua ida para o outro mundo, levada por Deus ou carregada pelo diabo, não sabemos.
PS. A criatura acima, embora motivo de piadas entre os que a conheceram, nunca valeu um conto (nem de assombração!), uma crônica, menos ainda um romance. Não valia nem uma referência. Talvez, uma nota. De falecimento.

Silêncio

Não há como negar: sinto coisas difusas e inexprimíveis. Sob diversas formas, estes sentimentos tomam meus pensamentos e desalinham meu equilíbrio. Desconheço a paz sob a forma de “manso lago azul”. Meu interior é cheio de ondulações. Às vezes me assombram ventos e algumas tempestades. As coisas têm sido um tanto efêmeras, mas nem por isso insignificantes. Isto torna tudo mais penoso, mais complexo. Isto definitivamente não significa sossego. Talvez inquieta seja minha alma. Flerto com o silêncio em sonhos.

Re-sentimento

Pegue sua raiva. Ponha-a em um recipiente. Guarde-a. Deixe-a destilando por algum tempo. Não, não despeje-a imediatamente, substância turva, azeda, vômito incontido. Deixe-a quieta. Olhe de longe para ela, analise-a, resguardando-se – o tanto quanto isto for possível! Separe os elementos mais sólidos dos fluidos. Quando percebê-los com nitidez, escolha os mais interessantes. Ou os mais repugnantes. Ou os esquisitos. Os mais desagradáveis. Ou os viscosos. Dê, aos eleitos, outro destino. Um lugar simbólico, de significação própria. Transforme-os. Componha um texto, crie uma imagem. Faça nascer um conto, uma história, uma poesia. Não se desfaça do sentimento. Faça com que ele seja impiedosamente seu e, sobretudo, sedativamente belo. Transforme a raiva em ouro. Permita nascer o verbo.

Idéia Fixa

Era uma menina cismada. Algo acontecia e aquilo ficava dias lhe rondando os pensamentos. Alguém lhe incomodava e aquela pessoa passava a fazer parte de sua rotina, hora após hora em sua cabeça, imaginando cenas e situações que ainda poderia viver. Sua mãe lhe dizia: deixe de devaneios, menina! Escute uma música, olhe as estrelas… Seus ouvidos ouviam as melodias. Seus olhos se encantavam com a lua. Mas sua cabeça distava de tudo aquilo. Longe, junto de seus pensamentos, de suas fixas idéias cotidianas.
Aconteceu que um dia, ela cismou de cismar com palavras. Uma a uma iam lhe aparecendo e ela passava horas compondo histórias, construindo idéias, inventando rimas. Gostou desta cisma. Esta lhe agradava. Esta lhe permitia olhar para a lua e as estrelas, estar com elas e pensar sobre elas. Permitia-lhe ouvir músicas e prestar atenção em suas rimas, descobrindo-as óbvias ou fascinantes. Passou a escrever o que lhe vinha à mente. Deixou seus pensamentos sobre o papel e passou a partilhá-los com outros, que liam seus textos. Descobriu um vício, uma coceira. Tornou a fantasia palpável, palatável. Não deixou de cismar. Talvez nunca deixasse.

Bug

Pequeno inseto voando pousou sobre o seu braço e deu-lhe uma ferroada. E o menino chorou. Senti sua dor na medida em que via a pele ao redor da picada ficar vermelha e inchada. Sim, meu filho, doem as ferroadas. Não, não acontece apenas uma vez na vida. Sim, há venenos mais potentes e outros que apenas nos trazem à realidade da vida: encontramos insetos em flores, em belos lugares, em locais que nos parecem protegidos. Olhando de perto, talvez encontremos não insetos, mas um pouco de veneno em nós mesmos.

Pés no chão

Ela nunca havia tido medo de avião. Mas agora sentia enorme angústia ao voar. Pensar na fragilidade daquela situação, na possibilidade de qualquer pequeno erro levar tudo (e todos) pelos ares – literalmente – a apavorava. Cada minuto de voo se tornara, nos últimos tempos, um exercício de afastar pensamentos desagradáveis e persistentes e de tentar encontrar distrações em meio ao enjoo, às turbulências, aos atrasos.
Metáfora da vida: gostava de andar com os pés no chão. Embora sonhasse com situações além da realidade imediata e não se acomodasse frente ao conquistado, nada era sem planejamento. Havia um exercício de percepção, de mergulho no ser e na vida, buscando entender, sempre e pouco a pouco as pessoas e situações que a envolvia. Sim, definitivamente, seus pés gostavam do solo, da terra, da sensação de saber os caminhos que trilhava e de escolher seus percursos. Voar apenas na imaginação. Andar em terra firme, seus próprios passos.

Clarice

Não me deem fórmulas certas porque eu não espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração. Não me façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre.