Adjetivo para a vida: preciosa (de grande valia, importante, de grande apreço, magnífica).
Adjetivo para a vida própria: particular (privado, protegido, que é pessoal e não expresso em público).
Adjetivo para a vida alheia: desinteressante (não porque não seja de valor, mas porque os fatos da vida merecem mais a privacidade que a demonstração pública).
Exposição: exibição, lugar onde se expõe coisas à vista.
Egocêntrico: que considera seu próprio eu como centro de todo interesse.
Conclusão: ao gosto do freguês. Que cada um se permita tirar sua própria.
Sobre a política II
Réquiem para um ébrio: a cachaça (alheia) tornou-o político.
(inspirado nos comentários da postagem anterior)
Sobre a política
Réquiem para um político: o poder deixou-o ébrio.
Liberdade
Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
(…)
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa… (Fernando Pessoa)
À frente
Inconstância. Impermanência. Movimento. Estou sempre em busca.
Tudo fica
Não passam as dores, também não passam as alegrias. Tudo o que nos fez feliz ou infeliz serve para montar o quebra-cabeça de nossa vida, um quebra-cabeça de cem mil peças. Aquela noite em que você não dormiu por não parar de chorar, aquele dia em que você ficou caminhando sem saber aonde ir, o beijo inesquecível que você recebeu, a visita surpresa que alguém lhe fez, o parto do seu filho, a bronca do seu pai, a demissão injusta, a mudança indesejada, a viagem planejada, o acidente que lhe deixou cicatrizes, tudo isso vai, aos poucos, formando quem você é. Não há peça que não se encaixe. Todas se aproveitam. Como são muitas, pode-se esquecer de algumas, e a isso dizemos “passou”. Não passou. Está lá, meio perdida e quando você menos espera, ela torna-se necessária para completar o jogo e se enxergar por inteiro. (adaptado da crônica de Martha Medeiros)
Toujours la politesse
Boas maneiras são bem vindas em qualquer situação. Até quando se compra uma briga.
Dilema
– Na próxima vez falarei mesmo!
E a amiga olhou-a com olhos arregalados de espanto.
– Mas ela vai ficar brava!
– Pode ser!
– E vai dizer um monte pra você!
– Estou me preparando para isso…
E ficou pensando no quanto, de fato, estava preparada. O quanto já tinha ensaiado esse diálogo. E o quanto uma “chuva” de palavreado nocivo mexeria com ela. Não sabia. Sabia, apenas que precisava falar. Que, se não falasse, seria pior. Seria pior mesmo? Com certeza. Guardar dentro de si coisas não resolvidas e sentimentos desagradáveis não era seu feitio. E ficou com tudo aquilo martelando em sua cabeça o dia inteiro. Mais do que já costumava martelar.
Tentou ler um texto. Levantou e foi tomar água. Deu uma volta e conversou com outras pessoas. Pequenas distrações. Sua mente insistia em voltar aos mesmos pensamentos e rever mentalmente o diálogo ensaiado, as palavras escolhidas e a postura decidida, com uma fala direta e segura. Endireitou as costas e empinou o peito ao pensar nisto. Respirou fundo, como que tomando coragem.
Às 4:30, aquela com quem decidira falar, telefonou. Sim, era sempre assim, sabia que ela diria que estava atrasada, que demoraria mais um pouco a chegar. Sempre esbaforida, apressada, ofegante. Insuportável! Teria que falar o que queria com pressa, não era o que havia planejado. Tentou pensar rapidamente como abordaria o assunto em apenas poucos minutos.
– Oi querida! Estou atrasada!
– Sim…
– Como tenho muitas coisas ainda a resolver, decidi que hoje não irei até aí.
– …
– Talvez amanhã. Talvez na próxima semana apenas.
– Ok.
Sentiu um misto de sensações. Alívio pelo adiamento da situação, misturado com desapontamento por ter se preparado para enfrentá-la. Talvez assim fosse melhor, falar em outra hora, com menos pressa.
Continuaria com o firme propósito de dizer tudo o que queria? Manteria sua mente longe da dúvida? Não sabia. Sabia apenas que ainda não seria desta vez que a enfrentaria. Talvez, na próxima. Talvez…
Bem-te-vis
Pensamos que fosse um ninho de pombas. Pombas detestáveis, ratos de asas, com suas doenças e seus parasitas. Planejamos sua retirada. Pedimos ao senhor que foi chamado para o serviço que tirasse tudo, folhas, galhos, ninho, ovos, todos instalados no espaço do ar condicionado do quarto. Não queríamos tal perigo tão perto. No dia combinado, ficamos a postos, satisfeitos com a empreitada que evitaria possíveis problemas futuros. Mas… quanto desapontamento! O suposto ninho de pombas era, na verdade, um belo ninho de bem-te-vis, com quatro pequenos ovos esperando para nascer. Decepção! Ficamos todos entristecidos com o trágico destino dos pássaros que nós mesmos selamos: enquanto os pais piavam em desagrado no telhado, os ovos quebraram todos ao caírem no chão. Como não havíamos percebido antes? Como não notar que, naqueles estreitos espaços do suporte do ar condicionado, não caberiam gordas pombas indesejadas? Como não ter tido mais tempo para observar e notar que não precisaríamos retirar o ninho, deixando os bem-te-vis nascerem, crescerem e cantarem? Como poderíamos evitar aquele infeliz enredo? Já era tarde… o trabalho já havia sido realizado. Decidimos por fim, que aquele ninho poderia se converter, posteriormente, em abrigo para outros bichos indesejáveis. Convencemo-nos de que não havia sido em vão. E dissemos uma frase non sense: “assim foi melhor”, que nada resolve, que não adianta, mas encerra a história.
Procura-se
Procura-se um lugar para viver. Um lugar conhecido, onde se possa encontrar, em alguma esquina, uma ou outra lembrança. Um lugar onde não se sinta sempre estrangeiro. Um lugar novo, porém antigo. Um lugar fresco, porém farto de calor – humano! Um lugar onde não se sinta só. Onde não se seja só. Onde não haja sempre a sensação de pessoas sem memória e lugares sem história. Um lugar onde se possa ser visto. Visto e lembrado.
Procura-se um emprego. Sem dúvida, bem remunerado. Com pessoas com quem se possa aprender e a quem se possa admirar. Onde se possa crescer com dores suportáveis. Onde se possa conviver com situações contornáveis. Onde se possa ser e se arriscar, sem temer. Onde se possa ser criativo. Criativo e feliz.