O que mais gosto no Carnaval é a possibilidade de ficar distante dele. Física e mentalmente falando. Quando dizem que o Brasil é o país do samba ou quando vejo uma manifestação brasileira no exterior cheia de passistas, me frustro. Não tenho nenhuma ligação com isso. Simplesmente não aprecio.
Quando morei no Rio, adorava a época do Carnaval. Todo mundo ia aos bailes, aos blocos, à avenida. Saiam à noite, dançavam muito, bebiam excessivamente e, provavelmente, dormiam durante o dia. A praia e a cidade ficavam numa tranquilidade que não se via em dias normais de trabalho. Nem em fins de semana de sol. Gostava de ir à praia caminhando e apreciar a pouca vizinhança na areia. Gostava de andar pelo calçadão, com a certeza do descanso do feriado. Nada de bailes. Nada de samba. Nenhuma fantasia.
Houve um tempo em que era gostoso juntar a turma e ir ao clube nesses dias. Não pela música e, sim, pela possibilidade de brincar e festejar em um grupo de amigos. Beber um pouco, dançar bastante, sair da linha, dar muitas risadas, ser feliz de madrugada! Acho que eu ainda toparia uma boa festa com uma turma divertida por uma noite. Mas, apenas uma noite. Depois, o merecido descanso do feriado, o silêncio da distância dos ritmos, um pouco do sol e um banho de piscina… parem a percussão, que se cale a bateria e cessem os tamborins, por favor, obrigada!
Fim de semana
Um brinde à possibilidade de fazer nada no fim de semana – sentar em frente à TV, comer bolo e tomar café no meio da tarde, jogar conversa fora, passear com o marido e os filhos, deitar com a certeza de não ser acordada pelo despertador no dia seguinte.
Pelo menos por dois dias, olhar pouco para o relógio, fazer pouco por obrigação, andar pouco em ritmo apressado. Guardar um momento para assistir um filme, sair para um almoço simples e tranquilo, andar pelo sol.
Pensar em nada… pensar em quase nada… pensar em muito pouco.
Barata
De onde vêm as baratas? Como uma criatura nojenta e desagradável daquelas aparece na porta do quarto cheirando a limpo, ar condicionado ligado, às nove da noite? Onde habitam esses seres tão repugnantes? Que caminhos fazem para que apareçam desta forma?
Lembrei-me de um sonho que tive: encontrava um escorpião atrás de uma almofada sobre a qual eu iria recostar. Acordei assustada, procurando algum bicho peçonhento escondido no quarto.
Parece que temos sempre alguns monstros ou pequenos seres estranhos guardados em algum canto de nós, que teimam em aparecer sem aviso, em horas estranhas e inoportunas. Lógico, estranhos dificilmente são bem vindos.
A barata, eu matei. Não tenho medo. Inseticida em uma mão, chinelo na outra, não há chance para ela. O escorpião, nunca mais sonhei. Matei o sonho (pesadelo?).
De alguns monstros conseguimos nos livrar. Com outros temos que conviver, aos tropeços, por longos tempos. Fazem parte de nós. Fazem parte do que somos, mesmo que sejam vistos apenas por nós mesmo.
Não sei se é possível matá-los todos. Mas podemos deixar de alimentá-los pouco a pouco, para que padeçam a míngua, sem força de se mostrarem.
Ir e vir
Uma hora inteira para ir… 45 minutos para voltar
40 km em cada trecho… 160 km percorridos por dia
(sim, duas idas e duas voltas!).
Quase quatro horas dentro do carro
Diariamente…
Irritação, desagrado.
Duas saídas: mudar de emprego ou de casa.
Optei por uma terceira via: mudei de cidade.
Minha atual preocupação:
Encontrar os dois únicos semáforos do caminho fechados
Na ida para o trabalho.
Se abertos: cinco minutos. Se fechados: sete.
Não preciso lembrar do que veio antes disso.
Gosto de saber que a vida não me foge em quatro rodas.
Itinerário
Respiro fundo e sigo em frente. Há que se recobrar o fôlego durante a caminhada.
Des
Às vezes nos concentramos em tão minúsculos detalhes desagradáveis, que azedamos o que nos é doce com pequenas gotas de sabor acre…
Meu desejo: passar do desconforto ao “desincômodo”… quero saborear as sobremesas servidas após as refeições…
Déja vu
Estas imagens de lugares onde andei e vivi que aparecem em meus olhos sem aviso e sem razão, de mim fazem parte.
Por que elas aparecem eu não sei, apenas reconheço-as e me permito viver as sensações que delas advém.
Então, choveu…
Vício da escrita
Sem conseguir cumprir uma das minhas promessas para o novo ano (o que chamei de vício da escrita), acabo por descobrir que o trabalho é uma excelente clínica de reabilitação… não deixa tempo nem espaço para as idéias que alimentam o desejo…
Amanhecer
Hoje vi escrito em um outdoor: “Não acordo cedo, apenas aproveito melhor o dia”. Nada mais perfeito para quem sai da cama às 5:20 da manhã…



