De quando fomos pequenos

Gostava de bicicleta e lembra quando aprendeu a andar em apenas duas rodas, sem apoio. Gostava do sol e dos dias de verão. Do clube, nos fins de semana e da praia, nas férias. Dos pastéis, comprados quentes na feira. Dos sorvetes de palito da padaria. Das idas à pizzaria com frequência. Dos passeios ao shopping, apenas para um lanchinho. Das idas a São Paulo para visitar os parentes. Das sopas feitas pela mãe em dias frios, à noite. Das viagens a Campos do Jordão, em julho.
De brincar com uma grande lousa, escrevendo tudo o que aprendia na escola. De brincar de super heróis, com as irmãs, no jardim de casa. De andar atrás do gato (apesar da terrível alergia que isso lhe custava). De contar piadas bobas. De assistir a Fantástica Fábrica de Chocolate todos os finais de ano. De ler Agatha Christie, um pouco mais velha, em dias chuvosos.
Gostava do Natal e de dormir tarde no réveillon. De ter trinta dias de férias no meio do ano. Gostava de quando suas primas iam dormir em sua casa e de quando podiam adiar o sono por conta disto. De ir à escola e do intervalo com as amigas. Das bonecas e das arrumações para brincar de casinha. De ver seu avô dando corda no relógio cuco. De ouvir sua mãe contar histórias de sua infância e das orações, feitas todas as noites antes de dormir. Dos bolos de laranja de sua avó e de sua antiga geladeira Frigidaire. De ir ao cinema, assistir os Trapalhões. De dançar no teatro, nos finais de ano, o que ensaiara nas aulas de ballet. De jogar Atari na casa dos primos. Dos bifes cortados em pequenos pedaços pelo seu pai. Das brincadeiras de esconde-esconde com uma grande turma na rua. Dos passeios em família.

Os anos passam e muitas coisas ficam no passado: os parentes que morreram, as pessoas que não mais encontramos, os lugares aonde nunca mais estivemos. Tudo, entretanto, permanece na memória. Pequenas coisas, singelas histórias, estranhas lembranças. Um pouco do que temos, muito do que somos. O que seremos para os nossos filhos e em tudo o que ficará depois de nós.

Chuva incessante

Quando chove sem trégua
Como há quatro dias, sem pausa
Nos sentimos enamorados pelo sol
E esquecemos, por momentos
(longos?… pequenos?)
Do desagrado que trazem o calor e o suor.
Não deixamos de nos queixar,
Apenas mudamos o objeto da queixa
(do sol para a chuva).
A ausência muda a forma de pensar sobre as coisas.
A saudade nos invade sempre cheia de desejos.

Carnaval

O que mais gosto no Carnaval é a possibilidade de ficar distante dele. Física e mentalmente falando. Quando dizem que o Brasil é o país do samba ou quando vejo uma manifestação brasileira no exterior cheia de passistas, me frustro. Não tenho nenhuma ligação com isso. Simplesmente não aprecio.
Quando morei no Rio, adorava a época do Carnaval. Todo mundo ia aos bailes, aos blocos, à avenida. Saiam à noite, dançavam muito, bebiam excessivamente e, provavelmente, dormiam durante o dia. A praia e a cidade ficavam numa tranquilidade que não se via em dias normais de trabalho. Nem em fins de semana de sol. Gostava de ir à praia caminhando e apreciar a pouca vizinhança na areia. Gostava de andar pelo calçadão, com a certeza do descanso do feriado. Nada de bailes. Nada de samba. Nenhuma fantasia.
Houve um tempo em que era gostoso juntar a turma e ir ao clube nesses dias. Não pela música e, sim, pela possibilidade de brincar e festejar em um grupo de amigos. Beber um pouco, dançar bastante, sair da linha, dar muitas risadas, ser feliz de madrugada! Acho que eu ainda toparia uma boa festa com uma turma divertida por uma noite. Mas, apenas uma noite. Depois, o merecido descanso do feriado, o silêncio da distância dos ritmos, um pouco do sol e um banho de piscina… parem a percussão, que se cale a bateria e cessem os tamborins, por favor, obrigada!

Fim de semana

Um brinde à possibilidade de fazer nada no fim de semana – sentar em frente à TV, comer bolo e tomar café no meio da tarde, jogar conversa fora, passear com o marido e os filhos, deitar com a certeza de não ser acordada pelo despertador no dia seguinte.
Pelo menos por dois dias, olhar pouco para o relógio, fazer pouco por obrigação, andar pouco em ritmo apressado. Guardar um momento para assistir um filme, sair para um almoço simples e tranquilo, andar pelo sol.
Pensar em nada… pensar em quase nada… pensar em muito pouco.

Barata

De onde vêm as baratas? Como uma criatura nojenta e desagradável daquelas aparece na porta do quarto cheirando a limpo, ar condicionado ligado, às nove da noite? Onde habitam esses seres tão repugnantes? Que caminhos fazem para que apareçam desta forma?
Lembrei-me de um sonho que tive: encontrava um escorpião atrás de uma almofada sobre a qual eu iria recostar. Acordei assustada, procurando algum bicho peçonhento escondido no quarto.
Parece que temos sempre alguns monstros ou pequenos seres estranhos guardados em algum canto de nós, que teimam em aparecer sem aviso, em horas estranhas e inoportunas. Lógico, estranhos dificilmente são bem vindos.
A barata, eu matei. Não tenho medo. Inseticida em uma mão, chinelo na outra, não há chance para ela. O escorpião, nunca mais sonhei. Matei o sonho (pesadelo?).
De alguns monstros conseguimos nos livrar. Com outros temos que conviver, aos tropeços, por longos tempos. Fazem parte de nós. Fazem parte do que somos, mesmo que sejam vistos apenas por nós mesmo.
Não sei se é possível matá-los todos. Mas podemos deixar de alimentá-los pouco a pouco, para que padeçam a míngua, sem força de se mostrarem.

Ir e vir

Uma hora inteira para ir… 45 minutos para voltar
40 km em cada trecho… 160 km percorridos por dia
(sim, duas idas e duas voltas!).
Quase quatro horas dentro do carro
Diariamente…
Irritação, desagrado.
Duas saídas: mudar de emprego ou de casa.
Optei por uma terceira via: mudei de cidade.
Minha atual preocupação:
Encontrar os dois únicos semáforos do caminho fechados
Na ida para o trabalho.
Se abertos: cinco minutos. Se fechados: sete.
Não preciso lembrar do que veio antes disso.
Gosto de saber que a vida não me foge em quatro rodas.