Tantas idéias
Um sem número de palavras
Milhões de informações.
Meu processador interno
Precisa de uma noite inteira
De sono calmo, profundo
Para lembrar cada movimento,
Palavra, idéia, objetivo,
Coisa e tal.
Preciso de um tempo
Para lembrar quem sou afinal.
Brasília – recortes e releituras
Brasília é construída na linha do horizonte – artificial. Tão artificial quanto deve ter sido o mundo quando criado. É bonita? Se eu dissesse isto, diriam que gosto dela, mas digo que ela é a imagem da minha insônia. Uma acusação? Minha insônia sou eu, é vívida, é meu espanto.
Em Brasília tenho medo – vejo urubus sobrevoando ao longe. O que estará morrendo, meu Deus?
Brasília é praia sem mar, é prisão ao ar livre.
Todo um lado de frieza humana que eu tenho, encontro em mim aqui em Brasília e floresce gélido, potente, força gelada da Natureza. Aqui é o lugar onde os meus crimes (não os piores, mas os que não entenderei em mim), onde os meus crimes não seriam de amor. Vou embora para os meus outros crimes, aqueles que eu e Deus compreendemos.
Clarice
Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? Assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou, por assim dizer, vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir de modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.
Sempresente
Folhas secas
Idéias tortas
Vento que passeia
Por debaixo das portas.
Frio, tardio, nos gela,
Nos faz olhar a vida
Através da janela.
Olhar para fora,
Pelo vidro
Olhar para dentro
Buscar sentido.
Insônia
Veio a chuva
Sem tréguas
Para lavar a alma
E borrar palavras
Mal colocadas.
Permaneceu a umidade nas letras
O frio, o desejo do aconchego.
Deixar o tempo
Passar e se encarregar
De recolher as pedras
Lançadas.
Diamantes
O diamante é o mais resistente material de ocorrência natural que se conhece, cuja escala de dureza é 10, ou seja, a mais alta que existe. Isto significa que não pode ser riscado por nenhum outro mineral ou substância que possua dureza inferior. No entanto, é muito frágil e esse fato deve-se a sua clivagem octaédrica perfeita.
O valor dos diamantes reside na ausência total de impurezas e de cor. Uma vez selecionados, são cortados e talhados ao longo de direções nas quais há dureza menor. Uma talha bem realizada é aquela que realça o foco ou o conjunto de cores derivados dos reflexos. A lapidação e o polimento de diamantes requerem de diversas horas, até meses para serem feitos. São eles os determinantes no valor final da pedra. Neles residem seu preciosismo.
Assim são as lapidações. “Machucam” os objetos, tirando-lhes várias camadas para que se tornem mais belos, mais brilhantes, mais valiosos. Perfeitos, talvez. Ou quase isto.
Incompletude
Jogar tudo para o alto
E dizer: “não mais!”
Todo o desígnio
Desfaz-se no contíguo
Roda viva
Sensação
Contradição
Desejo
De andar na contramão
Incomum
Semana insana
Desejo
Da minha cama…
Entremeio
Tudo anda assim
Meio cheio
Como visconde partido ao meio
Meio sonho, meio anseio
Meio desgosto e receio…