Máquina humana

Não me dou com números e códigos
Frios, calculados, exatos
Quase perfeitos.
Admira-me quem o faz…
Mas gosto mesmo das palavras, suas composições
Idéias, sentidos atribuídos
Gestos subentendidos
Desejos expressos e contidos.
Das máquinas… atrai-me a humana
Suas idiossincrasias, singularidades
Seus afetos, seus sentidos
Seus enganos, erros cometidos
Frustrações e imperfeições.
Não me dou com a exatidão.
Prefiro a possibilidade remota
A curva na estrada, a flutuação…

Bebidas

Quero beber a vida em taça de cristal
Com algumas frutas frescas
Muitas pedras de gelo
E adoçada com mel
Nos quentes dias de verão dos trópicos…
E quero continuar a bebê-la
Em uma grande caneca com alça lateral
Quente, espessa
Polvilhada de canela
E com um toque de cacau
Quando o inverno quiser gelar
Nosso espírito e nossos sonhos
E quando o cinza do céu se impuser sob o sol…

Passado

Nosso passado sempre nos condenará? Seremos sempre confundidos com nossos atos cometidos em pleno processo de aprendizado de viver? Espero que não… A flecha do tempo corre em uma única direção e o passado deve se converter no arco por meio do qual empunhamos tal flecha. Não temos como mudar o que já foi. É posto. Ao contrário, temos como tentar manter o alvo ao alcance dos olhos…

Fernando Pessoa

Pessoa novamente… sempre.

Ameaçou chuva.
E a negra nuvem passou sem mais…
Todo o meu ser se alegra
Em alegrias iguais.
Nuvem que passa…
Céu que fica e nada diz…
Vazio azul sem véu
Sobre a terra feliz…

E a terra é verde, verde…
Por que então minha vista
Por meus sonhos se perde?
De que é que a minha alma dista?

Fernando Pessoa

Retrato do céu. Metáfora da alma.

Tenho dó das estrelas
luzindo há tanto tempo,
há tanto tempo…
Tenho dó delas.
Não haverá um cansaço das coisas,
de todas as coisas (…)?
Um cansaço de existir,
de ser,
só de ser,
o ser triste brilhar ou sorrir…
Não haverá, enfim,
para as coisas que são,
não a morte,
mas sim uma outra espécie de fim,
ou uma grande razão – qualquer coisa assim
como um perdão?