Fernando Pessoa

Pessoa novamente… sempre.

Ameaçou chuva.
E a negra nuvem passou sem mais…
Todo o meu ser se alegra
Em alegrias iguais.
Nuvem que passa…
Céu que fica e nada diz…
Vazio azul sem véu
Sobre a terra feliz…

E a terra é verde, verde…
Por que então minha vista
Por meus sonhos se perde?
De que é que a minha alma dista?

Fernando Pessoa

Retrato do céu. Metáfora da alma.

Tenho dó das estrelas
luzindo há tanto tempo,
há tanto tempo…
Tenho dó delas.
Não haverá um cansaço das coisas,
de todas as coisas (…)?
Um cansaço de existir,
de ser,
só de ser,
o ser triste brilhar ou sorrir…
Não haverá, enfim,
para as coisas que são,
não a morte,
mas sim uma outra espécie de fim,
ou uma grande razão – qualquer coisa assim
como um perdão?

Infância

Fim de dezembro, muito calor e as crianças todas indo à escola de bermuda e camiseta sem mangas. Neste dia, meu filho de apenas três anos cismou de ir à escola de botas de montaria. Sim, bermuda, camiseta sem mangas e botas de montaria. Quase ridículo! E absolutamente genial, maravilhoso! Quando mais, a não ser na infância, podemos fazer isto? Ou ir ao supermercado vestidos de Super-Homem ou com a máscara do Batman? Ou correr pelo quintal apenas de cueca e com um pedaço de pau na mão imitando uma espada, nos intitulando “Homem- Cueca”? Ou colocar os riggatoni do almoço nos dedos e dizer que eles – os dedos – são feitos de macarrão? Ou falar verdades inconvenientes sem constragimento? Ou sair correndo de medo do bando de passarinhos que, aos berros, sobrevoou o nosso jardim?
Não sei se a vida é uma só, se é apenas esta. Mas sei que a infância passa logo e que, ao nos tornarmos adultos, seremos sempre adultos…

Vasto mundo

O mundo é grande e, desde o início, pouco familiar. Com o tempo, ele vai nos mostrando todas as coisas – seus lugares, seus encantos e sua escuridão… Nos mostra também aqueles que nele vivem – as pessoas, o mais importante. Torná-lo familiar é um processo lento, difícil, doloroso por vezes… O processo da vida. É o que nos move e o que nos transforma. Quanto mais vivemos e mais conhecemos, mais partilhamos dessa aventura de sermos apresentados a tudo o que nos rodeia…
Quero sentir o mundo dentro de mim, quero tê-lo como algo cada vez mais conhecido e, ao mesmo tempo, sempre novo… Quero não ter medo de ir em frente e ver o que ainda não vi, nem sei, nem ter vontade de voltar sempre ao lugar primeiro – o ninho, inicial, familiar, sempre encantado. Quero ganhar asas, voar, me sentir mais leve, poder ver tudo o que está em volta com olhos de supremo interesse e de desejo curioso. Quero ter comigo, sobretudo, as pessoas, sempre… aquelas que passam e que encantam, de algum modo, com sua fala, seus olhos, sua doçura, sua sabedoria ou apenas com seu bom humor…
Como Fernando Pessoa, quero sentir-me nascida a cada dia para a eterna novidade do mundo, tendo o medo apenas como um tempero, um “frio na barriga”, nunca um impedimento.

Chuvas de verão

Na minha mente… uma enxurrada de idéias…
E assim como as chuvas, elas mesmas,
As palavras que delas brotam – das enxurradas –
Ajudam, por vezes,
A apaziguar a estiagem…
Outras vezes, entretanto são não mais
Que águas que transbordam e rompem diques
Que quase afogam
Que tiram o fôlego, o foco e a tranquilidade
Que deve habitar na alma…
Prefiro tempos amenos… mesmo silenciosos…