Pequenos

Gosto dos pequeninos. Quanto menores e mais novos, mais trabalho e cansaço nos dão. Mas, ao mesmo tempo, nunca serão tão nossos como quando são apenas pequenos. Protegidos em nosso mundo previsível e rotineiro, vivem totalmente vinculados à nossa própria existência.
Gosto de pegá-los ao colo. De beijá-los sentindo o cheiro gostoso de suas peles. De ficar abraçada com eles assistindo desenhos na televisão. De ajudá-los a montar seus quebra-cabeças, seus trilhos de trens, seu pântano de dinossauros ou mesmo a fazer seus (crescentes) deveres de casa.
Cada nova fase em que entram, sinto um misto de sensações: a inefável visão deles crescendo e se tornando cada vez mais donos de si e menos dependentes de mim e uma pontada aguda de dor, por saber que, a medida em que o tempo passa, serão cada vez menos meus e mais do mundo. Contradições internas sutis. Sentimentos complexos.
Lembro quando meu filho mais velho começou a andar, cheio de energia e vontade de explorar tudo em volta. Lembro quando começou a falar, passando rapidamente a tagarelar (coisa que faz até hoje). Quando largou as fraldas. Quando foi pela primeira vez à escola. Quando caiu seu primeiro dentinho. E depois o segundo. Quando começou a ler as primeiras letras e depois todas as palavras que encontrava pela frente. Arrebatador. Nos dois sentidos.
Toda mãe que cria seus filhos com sabedoria, cria-os para o mundo. Sabemos, sempre, que um dia, os pequenos se tornarão grandes, farão suas próprias escolhas, seguirão seu próprio caminho. Mas este processo não é fácil, nem para eles, nem para nós, pais. Acabamos arranhados. Sabemos, pois vivemos isto antes deles, que o mundo a que somos impelidos, nem sempre é justo, eventualmente é previsível, raras vezes seguro e outras poucas vezes benevolente. Tornamo-nos adultos e, com a vida adulta, sozinhos e desprotegidos em uma existência caprichosa – não funciona conforme nossos desejos.
Crescer é doloroso. Mas é a dor que, infelizmente, nos ensina a fazer escolhas, a perseverar quando necessário, a desistir quando preciso e a criar uma base sólida de conhecimentos para que permaneça depois de nós.
O crescimento dos filhos vai-nos pouco a pouco trazendo à tona a limitação da nossa existência. Tornamo-nos cônscios de que não somos eternos, de que todos temos um tempo determinado neste mundo. A aguda percepção da transitoriedade é o que nos traz também a consciência do caráter valioso da vida. Das nossas escolhas e da sempre presente possibilidade de modificar o presente e o porvir. E, apesar do paradoxo da existência e dos sentimentos, a certeza de que a única verdade real é aquela que descobrimos por nós mesmos.

Leveza

A inundação tomou conta…
Invadiu os espaços
Com espessas lágrimas
E tremores de tristeza imensa.
Depois de secas as angústias
Serenados os temores
Repensados os sonhos
Aquietados os pensamentos…
Um singelo instante.
Uma brincadeira
Risadas.
Leveza que paira no ar
Como uma pequena pluma
Que registra aquele momento
E apaga todo o restante.

Estações

Ao final da tarde, nuvens pesadas de chuva cresceram do calor que fizera durante o dia. Novamente. Os verões são assim: intensos, temperamentais, quase malcriados. E, talvez, assim deva ser. Não há verões sem o tormento das fortes chuvas, assim como não há invernos sem gostosos dias de sol. Lembro-me dos outonos de minha infância: dias claros, azuis intensos, os mais bonitos do ano. E, apesar das folhas secas que caíam na grama, insistindo em mantê-la sempre coberta, não havia como resistir ao encanto das flores-de-maio que florescem exatamente nesta época. Deixam cair seus longos cabelos de flores brancas, cor-de-rosa, alaranjadas numa teimosia que desafia a estação.
Sempre gostei das primaveras. Elas trazem um alento após dias frios e o desejo de, novamente, gozar a vida do lado de fora: enchem-se os parques, as piscinas, voltam as brincadeiras pelas ruas e nos gramados das casas. E assim, mais uma vez, deve ser. A sucessão dos eventos, das temperaturas, dos encantamentos e das singularidades. A sempre presente dúvida de como será aquela nova estação, se mais seca, mais chuvosa, mais quente, mais gelada. Numa sucessão interminável de surpresas, também nossa vida se nos mostra como algo sempre em mutação, pronta para nos surpreender com o que nos comove, nos assusta, nos alegra, o que nos tranquiliza ou o que nos faz pensar simplesmente que sempre será assim e que o controle das coisas não está em nossas mãos, embora desejássemos que sim. Nada que nos acontece modifica nossa vida de forma definitiva. Mais à frente, haverá sempre uma nova estação e, com ela, todas as suas peculiaridades. Resta-nos viver. Resta-nos enfrentar.

Pérolas

Título de um livro de Rubem Alves: “Ostra feliz não faz pérola”. Resta-me supor que estes grãos de areia a me perturbar, incomodar, coçar, injuriar, que, nas ostras, se tornam preciosidades que compõem belos ornamentos, estejam se transformando em algo precioso em mim também, feito de letras, palavras, frases, textos. Ornamentos que tentam dar sentido às coisas na medida em que caem no papel.

Trigêmeos

Minha irmã teve três bebês. Trigêmeos. Três de uma só vez, juntos. Milagre da vida e da ciência. Tudo em triplo: sustos, alegrias, descobertas, choros, fraldas, resfriados, banhos, tombos, cansaço… E o encantamento… Três pequenas criaturas diferentes que nos seduzem em dose tripla.
Não os tenho por perto. Moro longe. Sinto falta de vê-los crescer e descobrir o mundo como fizeram meus filhos antes deles.
Descobri que são um pouco meus também, que adoro saber deles e seus pequenos passinhos (ainda que estejam engatinhando por hora). Que minha irmã tem dentro de si uma força e uma disposição que nem mesmo ela sabe que tem. E minha mãe, um grande coração e uma generosidade sem par, num trabalho cotidiano que não parece querer acabar.
É algo único a acontecer com uma pessoa. E com todos em volta. Não há filho que seja igual. Não há experiência que seja a mesma ou que não possa ser partilhada. A experiência da maternidade (e da paternidade também) é singular porque nos deixa marcas eternas, nos modifica de forma definitiva, sem chances de retorno ao que éramos antes deles, dos filhos. A experiência da minha irmã transcende a imaginação e nos faz pensar que a vida é dotada de um sentido quase que inescrutável, mas cheio de surpresas que nos levam a supor, por vezes, que a divindade, definitivamente, habita em nós.