Estações

Ao final da tarde, nuvens pesadas de chuva cresceram do calor que fizera durante o dia. Novamente. Os verões são assim: intensos, temperamentais, quase malcriados. E, talvez, assim deva ser. Não há verões sem o tormento das fortes chuvas, assim como não há invernos sem gostosos dias de sol. Lembro-me dos outonos de minha infância: dias claros, azuis intensos, os mais bonitos do ano. E, apesar das folhas secas que caíam na grama, insistindo em mantê-la sempre coberta, não havia como resistir ao encanto das flores-de-maio que florescem exatamente nesta época. Deixam cair seus longos cabelos de flores brancas, cor-de-rosa, alaranjadas numa teimosia que desafia a estação.
Sempre gostei das primaveras. Elas trazem um alento após dias frios e o desejo de, novamente, gozar a vida do lado de fora: enchem-se os parques, as piscinas, voltam as brincadeiras pelas ruas e nos gramados das casas. E assim, mais uma vez, deve ser. A sucessão dos eventos, das temperaturas, dos encantamentos e das singularidades. A sempre presente dúvida de como será aquela nova estação, se mais seca, mais chuvosa, mais quente, mais gelada. Numa sucessão interminável de surpresas, também nossa vida se nos mostra como algo sempre em mutação, pronta para nos surpreender com o que nos comove, nos assusta, nos alegra, o que nos tranquiliza ou o que nos faz pensar simplesmente que sempre será assim e que o controle das coisas não está em nossas mãos, embora desejássemos que sim. Nada que nos acontece modifica nossa vida de forma definitiva. Mais à frente, haverá sempre uma nova estação e, com ela, todas as suas peculiaridades. Resta-nos viver. Resta-nos enfrentar.

Pérolas

Título de um livro de Rubem Alves: “Ostra feliz não faz pérola”. Resta-me supor que estes grãos de areia a me perturbar, incomodar, coçar, injuriar, que, nas ostras, se tornam preciosidades que compõem belos ornamentos, estejam se transformando em algo precioso em mim também, feito de letras, palavras, frases, textos. Ornamentos que tentam dar sentido às coisas na medida em que caem no papel.

Trigêmeos

Minha irmã teve três bebês. Trigêmeos. Três de uma só vez, juntos. Milagre da vida e da ciência. Tudo em triplo: sustos, alegrias, descobertas, choros, fraldas, resfriados, banhos, tombos, cansaço… E o encantamento… Três pequenas criaturas diferentes que nos seduzem em dose tripla.
Não os tenho por perto. Moro longe. Sinto falta de vê-los crescer e descobrir o mundo como fizeram meus filhos antes deles.
Descobri que são um pouco meus também, que adoro saber deles e seus pequenos passinhos (ainda que estejam engatinhando por hora). Que minha irmã tem dentro de si uma força e uma disposição que nem mesmo ela sabe que tem. E minha mãe, um grande coração e uma generosidade sem par, num trabalho cotidiano que não parece querer acabar.
É algo único a acontecer com uma pessoa. E com todos em volta. Não há filho que seja igual. Não há experiência que seja a mesma ou que não possa ser partilhada. A experiência da maternidade (e da paternidade também) é singular porque nos deixa marcas eternas, nos modifica de forma definitiva, sem chances de retorno ao que éramos antes deles, dos filhos. A experiência da minha irmã transcende a imaginação e nos faz pensar que a vida é dotada de um sentido quase que inescrutável, mas cheio de surpresas que nos levam a supor, por vezes, que a divindade, definitivamente, habita em nós.

Mamãe e o sentido da vida

Li num livro: “Somos criaturas que buscam sentido, que tem que lidar com o inconveniente de serem lançadas num universo que, intrinsecamente, não tem sentido algum”.
Palavras perfeitas
Completas
Plenas de sentido.
Dizem tudo sobre meu momento.
Gostei tanto que passaram
A fazer parte de mim.
Tornaram-se um pouco minhas.

O tamanho das coisas

Aqui e ali…
Vou passando
Vou ficando
Pouco ou o suficiente…
Conheço o sol, o mar, a praia
Conheço a poeira, a secura na garganta
Conheço frio e calor extremos
Mate tomado frio ou tomado quente.
Conheço alegrias e decepções
Coisas e gentes
Que acabam por deixar sua marca
Pela beleza ou pela necessidade
De serem apagadas da mente.
Aqui e ali, tudo vai se conhecendo
Muitos vão se deixando conhecer.
E quando penso nisso tudo
Com frio na barriga
E receio do que ainda há pela frente
Penso que tem que valer a pena
Que o mundo visto por esta lente
É interessante, novo, sempre diferente.
Penso que meu tamanho é o do mundo.

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Não queres que eu me divida contigo
Não queres ouvir queixas, ver minhas fraquezas
Queres apenas a imagem de mim
Manter longe a dúvida, ter o conforto da certeza
A idéia de que tudo permanece
E que os abalos são de pequena grandeza.
Resta-me ficar comigo mesma
Tentando desesperadamente aceitar
O que quer que seja.
Restam meus pensamentos recorrentes
Minhas poucas palavras
Minha teimosa franqueza.