Ao abrir a porta
Um manto de certezas
Máscaras de arrogância
E prontas respostas a tudo.
Olho em volta
E escolho a indagação,
O ceticismo, a hesitação.
São as interrogações
Que movem o mundo.
Palavras
Dentre todos no mundo
Quero brindar à vida
Com generosos seres
Doces, gentis criaturas
Há sempre uma taça de vinho
A ser partilhada com candura
Com aqueles que escrevem
Na vida, eterna partitura.
Palavra: música que encanta
Alegra, seduz e conquista
Convida a partilhar
O que está à nossa vista.
Palavras escritas
Eternizam-se no papel
Há que se ter cuidado
Podem ser elas nosso inferno
Ou nosso céu…
Leminski – genial
“Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.”
Rimemos todos os dias
Os amores de nossa vida
Com sabores
Cores e humores
Pendores
E suores…
E o nosso coração
Com diversão
Atenção
E gratidão…
Vida em prosa ou em verso
Feita de escrita ritmada
Vida desejada…
Existencial
Com quem falar?
Com quem contar?
A quem chamar?
Minha condição
É insular…
Distância
Longe… distante.
A solidão se mostra
Sombra constante…
Não há ninguém
Apenas eu mesma…
Meu texto é meu amante.
Inquieta
Vejo a vida
Como estrada sinuosa
Em paisagem incompleta.
Minha alma
É inquieta.
Proust
Os outros… quem são?
“Nós envolvemos o contorno físico da criatura que vemos com todas as idéias que já formamos a seu respeito e, nesse retrato completo que criamos em nossa mente, essa idéias constantemente tem o papel principal. No final, elas preenchem tão completamente a curva de suas faces, seguem tão exatamente a linha de seu nariz, combinam tão harmoniosamente com o som de sua voz, que não parecem ser nada além de um invólucro transparente, de modo que cada vez que vemos o rosto ou ouvimos a voz são nossas próprias idéias a seu respeito que reconhecemos e escutamos.”
Não seja gentil (Yalom)
Eu eu era tão seguro. Que arrogância! E agora, que tipo de verdade eu estava perseguindo? Acho que meu alvo é a ilusão. Eu luto contra o encantamento. Creio que, embora a ilusão seja muitas vezes alegre e confortadora, ela essencialmente sempre enfraquece e constringe o espírito…
A vida não examinada não vale a pena ser vivida…
Olhos toldados
Ela sentou-se e chorou.
Sentia-se devastada…
Haviam morrido sonhos
Projetos, esperanças
Certezas, ilusões
Lógicas, lembranças…
Foi-se um edifício inteiro
Do que havia feito primeiro
Pôs-se a questionar
Entrever, imaginar.
Ficou voltada para si
Mergulhou fundo no que permaneceu
E com os olhos turvos pode ver melhor
O que era de outros e o que era seu.
Cecília – releitura
O pranto… no instante em que viste
Que a vida se mostrava incompleta
Por vezes alegre… outras muitas, triste
Não sei… poeta?
Cônscio de que a vida fugidia
Exige mais gozo que tormento
Queria viver noites e dias
Sem sentir apenas… vento!
Sem mais… desmorona, edifica
Permanece, perfaz
Parece mais nada saber.
Não sabe se fica ou se desfaz.
Sei que há o pranto.
Embora terno em lágrimas ritmadas
Ele não é tudo.
E mais nada.