Minha irmã teve três bebês. Trigêmeos. Três de uma só vez, juntos. Milagre da vida e da ciência. Tudo em triplo: sustos, alegrias, descobertas, choros, fraldas, resfriados, banhos, tombos, cansaço… E o encantamento… Três pequenas criaturas diferentes que nos seduzem em dose tripla.
Não os tenho por perto. Moro longe. Sinto falta de vê-los crescer e descobrir o mundo como fizeram meus filhos antes deles.
Descobri que são um pouco meus também, que adoro saber deles e seus pequenos passinhos (ainda que estejam engatinhando por hora). Que minha irmã tem dentro de si uma força e uma disposição que nem mesmo ela sabe que tem. E minha mãe, um grande coração e uma generosidade sem par, num trabalho cotidiano que não parece querer acabar.
É algo único a acontecer com uma pessoa. E com todos em volta. Não há filho que seja igual. Não há experiência que seja a mesma ou que não possa ser partilhada. A experiência da maternidade (e da paternidade também) é singular porque nos deixa marcas eternas, nos modifica de forma definitiva, sem chances de retorno ao que éramos antes deles, dos filhos. A experiência da minha irmã transcende a imaginação e nos faz pensar que a vida é dotada de um sentido quase que inescrutável, mas cheio de surpresas que nos levam a supor, por vezes, que a divindade, definitivamente, habita em nós.
Mamãe e o sentido da vida
Li num livro: “Somos criaturas que buscam sentido, que tem que lidar com o inconveniente de serem lançadas num universo que, intrinsecamente, não tem sentido algum”.
Palavras perfeitas
Completas
Plenas de sentido.
Dizem tudo sobre meu momento.
Gostei tanto que passaram
A fazer parte de mim.
Tornaram-se um pouco minhas.
Desejo
Queria pegar tudo:
Escrita esmerada
Rasgos de inspiração
Frases elegantes
Leituras enlevadas
Pensamentos desconcertantes
Compondo-os, construindo-os,
Transformando-os todos
Num relicário de palavras…
Crepúsculo
Em que lugar a estrada fez a curva
E eu me perdi?
Dito e feito
Tudo dito
Tudo feito
Fito o presente imperfeito.
O tamanho das coisas
Aqui e ali…
Vou passando
Vou ficando
Pouco ou o suficiente…
Conheço o sol, o mar, a praia
Conheço a poeira, a secura na garganta
Conheço frio e calor extremos
Mate tomado frio ou tomado quente.
Conheço alegrias e decepções
Coisas e gentes
Que acabam por deixar sua marca
Pela beleza ou pela necessidade
De serem apagadas da mente.
Aqui e ali, tudo vai se conhecendo
Muitos vão se deixando conhecer.
E quando penso nisso tudo
Com frio na barriga
E receio do que ainda há pela frente
Penso que tem que valer a pena
Que o mundo visto por esta lente
É interessante, novo, sempre diferente.
Penso que meu tamanho é o do mundo.
Partilhar
Não queres que eu me divida contigo
Não queres ouvir queixas, ver minhas fraquezas
Queres apenas a imagem de mim
Manter longe a dúvida, ter o conforto da certeza
A idéia de que tudo permanece
E que os abalos são de pequena grandeza.
Resta-me ficar comigo mesma
Tentando desesperadamente aceitar
O que quer que seja.
Restam meus pensamentos recorrentes
Minhas poucas palavras
Minha teimosa franqueza.
Tristeza
A tristeza que perdura
Cá dentro em mim
Procura na razão
Uma explicação
Para a não continuidade
Para a necessidade do fim.
Introspecção
O futuro incerto
O caminho desconhecido
O ponto de interrogação.
Introspecção.
Arte
Em mim…a arte!
Por que me tomas?
Onde se enconde?
Em que parte?