Vida… caleidoscópio de possibilidades.
Temos que aprender, atentos
A compor belas imagens
Enxergando-as para além do momento.
Infância
Fim de dezembro, muito calor e as crianças todas indo à escola de bermuda e camiseta sem mangas. Neste dia, meu filho de apenas três anos cismou de ir à escola de botas de montaria. Sim, bermuda, camiseta sem mangas e botas de montaria. Quase ridículo! E absolutamente genial, maravilhoso! Quando mais, a não ser na infância, podemos fazer isto? Ou ir ao supermercado vestidos de Super-Homem ou com a máscara do Batman? Ou correr pelo quintal apenas de cueca e com um pedaço de pau na mão imitando uma espada, nos intitulando “Homem- Cueca”? Ou colocar os riggatoni do almoço nos dedos e dizer que eles – os dedos – são feitos de macarrão? Ou falar verdades inconvenientes sem constragimento? Ou sair correndo de medo do bando de passarinhos que, aos berros, sobrevoou o nosso jardim?
Não sei se a vida é uma só, se é apenas esta. Mas sei que a infância passa logo e que, ao nos tornarmos adultos, seremos sempre adultos…
Vasto mundo
O mundo é grande e, desde o início, pouco familiar. Com o tempo, ele vai nos mostrando todas as coisas – seus lugares, seus encantos e sua escuridão… Nos mostra também aqueles que nele vivem – as pessoas, o mais importante. Torná-lo familiar é um processo lento, difícil, doloroso por vezes… O processo da vida. É o que nos move e o que nos transforma. Quanto mais vivemos e mais conhecemos, mais partilhamos dessa aventura de sermos apresentados a tudo o que nos rodeia…
Quero sentir o mundo dentro de mim, quero tê-lo como algo cada vez mais conhecido e, ao mesmo tempo, sempre novo… Quero não ter medo de ir em frente e ver o que ainda não vi, nem sei, nem ter vontade de voltar sempre ao lugar primeiro – o ninho, inicial, familiar, sempre encantado. Quero ganhar asas, voar, me sentir mais leve, poder ver tudo o que está em volta com olhos de supremo interesse e de desejo curioso. Quero ter comigo, sobretudo, as pessoas, sempre… aquelas que passam e que encantam, de algum modo, com sua fala, seus olhos, sua doçura, sua sabedoria ou apenas com seu bom humor…
Como Fernando Pessoa, quero sentir-me nascida a cada dia para a eterna novidade do mundo, tendo o medo apenas como um tempero, um “frio na barriga”, nunca um impedimento.
Chuvas de verão
Na minha mente… uma enxurrada de idéias…
E assim como as chuvas, elas mesmas,
As palavras que delas brotam – das enxurradas –
Ajudam, por vezes,
A apaziguar a estiagem…
Outras vezes, entretanto são não mais
Que águas que transbordam e rompem diques
Que quase afogam
Que tiram o fôlego, o foco e a tranquilidade
Que deve habitar na alma…
Prefiro tempos amenos… mesmo silenciosos…
Insônia
E então a súbita insônia escorre pelo papel, transformando-se em palavras entrelaçadas… Frases. Um pequeno texto.
Silêncio. Voltar a dormir.
Exercício
Pare. Respire (lembrou de fazer isto hoje?). Novamente, então.
Apague a luz das idéias. Descarrile o trem dos pensamentos. Faça calar, uma a uma, as palavras.
Aprecie. Espere. Escute.
O teclado. O grito de araras. Um bem te vi. Carros.
O mundo volta ao seu eixo.
O novo
E a menina corre esperançosa em direção ao ventre daquele Lugar procurando uma sensação de familiaridade e gratidão há algum tempo perdidas…
Aqueles braços estarão abertos?
Como é
As coisas, por serem como são
Devem ficar como estão
Para que possam, de algum modo
Vir a ser…
Para todos os dias…
“…try a little tenderness…”
Solidão
Quanto ao estar só… sei o quanto é necessário no nosso processo de imersão em nós mesmos, no nosso auto-conhecimento… mas sinto falta da família e dos amigos, partilhando o café da tarde e o bolo de fubá feitos carinhosamente antes do jantar…
