“Estranha relação é a que temos com as palavras. Aprendemos de pequenos umas quantas, ao longo da existência vamos recolhendo outras que vêm até nós pela instrução, pela conversação, pelo trato com os livros, e, no entanto, em comparação, são pouquíssimas aquelas sobre cujas significações, acepções e sentidos não teríamos nenhumas dúvidas se algum dia nos perguntássemos seriamente se as temos. Assim afirmamos e negamos, assim convencemos e somos convencidos, deduzimos e concluímos, discorrendo impávidos à superfície de conceitos sobre os quais só temos ideias muito vagas e, apesar da falsa segurança que em geral aparentamos enquanto tacteamos o caminho no meio da cerração verbal, melhor ou pior lá nos vamos entendendo, e às vezes, nos encontrando…”
Ou desentendendo e, assim, desencontrando…
Amor
De tudo o que passa
Aquilo que permanece
O que fica e edifica
É o amor…
Em tempos turbulentos
E momentos desgastantes
No meio do insignificante
Ele nos ajuda a significar
A vida novamente…
Sem ele somos carcaça…
Sem ele, apenas fumaça…
Sem ele, qualquer tentativa
De construção ou caminhada
É vã, frágil, estéril.
Somos destinados
Ao que é sublime.
Destino etéreo…
Transitório
Sutis atitutes
Escolhas imperfeitas
Palavras mal desenhadas
Maneiras controversas
Atitudes esquivas, estreitas
Superficialidade
À espreita.
E as pessoas nos mostram
A matéria de que são feitas.
Por isso, por tudo,
Pela obliquidade,
Sela-se, também nas pessoas,
Sua transitoriedade.
Dúvida
Ao abrir a porta
Um manto de certezas
Máscaras de arrogância
E prontas respostas a tudo.
Olho em volta
E escolho a indagação,
O ceticismo, a hesitação.
São as interrogações
Que movem o mundo.
Palavras
Dentre todos no mundo
Quero brindar à vida
Com generosos seres
Doces, gentis criaturas
Há sempre uma taça de vinho
A ser partilhada com candura
Com aqueles que escrevem
Na vida, eterna partitura.
Palavra: música que encanta
Alegra, seduz e conquista
Convida a partilhar
O que está à nossa vista.
Palavras escritas
Eternizam-se no papel
Há que se ter cuidado
Podem ser elas nosso inferno
Ou nosso céu…
Leminski – genial
“Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.”
Rimemos todos os dias
Os amores de nossa vida
Com sabores
Cores e humores
Pendores
E suores…
E o nosso coração
Com diversão
Atenção
E gratidão…
Vida em prosa ou em verso
Feita de escrita ritmada
Vida desejada…
Existencial
Com quem falar?
Com quem contar?
A quem chamar?
Minha condição
É insular…
Distância
Longe… distante.
A solidão se mostra
Sombra constante…
Não há ninguém
Apenas eu mesma…
Meu texto é meu amante.
Inquieta
Vejo a vida
Como estrada sinuosa
Em paisagem incompleta.
Minha alma
É inquieta.
Proust
Os outros… quem são?
“Nós envolvemos o contorno físico da criatura que vemos com todas as idéias que já formamos a seu respeito e, nesse retrato completo que criamos em nossa mente, essa idéias constantemente tem o papel principal. No final, elas preenchem tão completamente a curva de suas faces, seguem tão exatamente a linha de seu nariz, combinam tão harmoniosamente com o som de sua voz, que não parecem ser nada além de um invólucro transparente, de modo que cada vez que vemos o rosto ou ouvimos a voz são nossas próprias idéias a seu respeito que reconhecemos e escutamos.”