Calendário

os dias seguem com os assombros do agora. somos tomados pelo tempo em dimensões covardes. deixamos de viver a singularidade dos dias com os outros e estamos mergulhados na infinidade de nós mesmos. vemos, pela graça dos recursos tecnológicos, os bebês de ontem andando, a abundância dos cabelos das meninas em longas tranças, as calças curtas das crianças, o afinamento dos traços que vem com o crescimento, a incontinência dos gestos que solicitam presença. o tempo virou inimigo. não chega, não passa. parece desacatar a resolução das coisas. contamos dias infinitos de dores da alma dilacerantes. ansiamos o futuro pois o presente decidiu debochar de nós. estamos saudosos de um passado recente. fomos jogados no caos da vida. seguimos buscando o sentido do que temos enquanto a vida não nos regressa por ora.

Publicado por Ana Bittencourt

escrever para remendar a infância a loucura escrever para estranhar o pai a mãe semelhanças escrever para cerzir terra corpo paisagem escrever carne viva (Tatiana Pequeno)

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