Cidade Terminal

a cidade se mostra com seus muros altos e cinzas

de onde florescem concertinas, alarmes e cercas

as ruas semi cheias de grandes carros inurbanos

a compensar as pequenas mentes dos proprietários

o seco calor que inflama as ideias e os afetos

com grandes enxurradas de incômodos

as rasas crenças em diminutas autoridades

servis a gestos e juízos censuráveis

os saltos muito finos das opulentas senhoras

deselegantes em seus inumeráveis e ridículos excessos

a superficialidade perene dos gestos e afagos

a nos atirar fundo em desejos de trair

o pretenso ordenamento do caos,

de ruptura às histórias toscas e pueris,

de fuga para uma Pasárgada à beira-mar.

Acrílico recente de Josef Kote.

Publicado por Ana Bittencourt

escrever para remendar a infância a loucura escrever para estranhar o pai a mãe semelhanças escrever para cerzir terra corpo paisagem escrever carne viva (Tatiana Pequeno)

10 comentários em “Cidade Terminal

  1. Interessante o comentário da Lunna, principalmente porque cidade é um nome feminino. Talvez por isso, homens as violentam. Os carros interferem no psique coletivo – objeto de amor, arma perigosa de morte. Não traio a mim na minha opção de ser passageiro. Não tenho carta de motorista. A maioria das pessoas não tem condições psicológicas de dirigir. É incrível que, apesar do volume de acidentes, não ocorra um maior número de vítimas.

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    1. Interessante seu comentário. Embora cidade seja um nome feminino, há pouco de maternal, estético ou afetuoso na maior parte delas. Assim como quase não há espaços para crianças. Por sua vez, carros certamente são masculinos. Símbolos de potência, os donos de “carrōes” gostam de exibi-los como grandes falos. Ninguém nunca contou a eles o extremo ridículo desse exibicionismo.

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      1. Bom, isso normalmente é estimulado pelo pai e elogiado pela mãe, suponho. No meu caso, percebi que tirar carta de motorista surgia como uma espécie de rito de passagem civilizado. Eu decidi não participar desse ritual. Para me ajudar, vi uma exposição no Instituto Goethe sobre autobans que tentava demonstrar o condicionamento que o carro criou. O brasileiro adora estar preso ao automóvel como sinal de liberdade. O que é interessante é que muitas mulheres gostam abertamente de carros e costumam se tornar grandes entendedoras desse símbolo de poder. Aliás, o que a mulher não faz melhor?

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