Meia-idade

Quando temos 18, fazer 50 anos nos parece tão distante…

Lembro-me quando completei 39 e (privilégio dos 9), tive uma crise de meia-idade. No instante em que me dei conta de que aquele era o último ano com 30, senti, de súbito, o tempo passar em mim. Afinal, quando eu era criança e ouvia alguém dizer que tinha 40 anos, pensava: que velho! Pois, então, pensei o mesmo de mim ao me dar conta de que no ano seguinte faria 40: que velha!

Essa crise durou alguns meses e veio acompanhada de alguns sintomas: pensei em engravidar novamente (segundo minha terapeuta, a fertilidade é uma espécie de “prova de juventude”), comecei a fazer academia todos os dias, quis fazer botox, fiquei mais ansiosa. Em vão! No ano seguinte, inequivocamente, fiz 40. Com o passar do tempo, comecei a achar que eu nem estava tão velha assim, como eu achava que eram os quarentões quando eu era criança.

Hoje, fazendo 50, olho para trás e rio disso. E conto isso para os amigos em crise de meia-idade. Ainda me sinto bastante jovem, trabalho, vou à academia sem angústia, tenho mil afazeres, além de planos (comecei a fazer doutorado no último ano). Replico minha avó: só fica velho quem não morre. Sim, embora o tempo não nos perdoe com algumas ruguinhas e fios brancos, é um privilégio fazer 40, 50, 60, 70, 80…, o privilégio dos que vivem, dos que estão no jogo, dos que permanecem.

Não que a vida seja fácil. É complicada, difícil, intrigante, exigente. Às vezes dá vontade de chorar, sair correndo, sumir por alguns dias, fazer birra, gritar de raiva… Mas também vamos aprendendo, pouco a pouco, a nos acalmar, a não ligar para um monte de bobagens, a rir um pouco mais de tudo e de nós mesmos, a curtir muitos bons momentos que temos. Vamos encarando os desafios com uma outra cara (literalmente!). Seguimos vivendo a marcha inexorável da vida, como quem aceita estar aqui e agora (nesse pedaço de tempo-espaço que nos foi destinado), eternamente aprendendo a cair, levantar e escolher nossas batalhas. Talvez, envelhecer seja sobre isso e somente isso.

Obra de Silvio Alvarez.

Publicado por Ana Bittencourt

escrever para remendar a infância a loucura escrever para estranhar o pai a mãe semelhanças escrever para cerzir terra corpo paisagem escrever carne viva (Tatiana Pequeno)

17 comentários em “Meia-idade

  1. Gosto da palavra envelhecer… e brinco bastante com ela, admito. Mas nunca entrei em crise com os anos que me acompanham. Brinco com isso também. E adoro as rugas e os fios brancos. Adoro tudo que vem com a passagem do tempo por mim, em mim. Aprendo muito. E uso como desculpas, sometimes. rs

    Ps. Mas eu gostei muito da sua narrativa, o dia seguinte as crises de idade, é sensacional…

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