Experimentação

quando mergulhei naquele rio lodoso, eu estava de costas, nunca havia mergulhado em rio, tampouco de costas, não conhecia a profundidade, o terror escuro do fundo, as águas que pareceram me carregar para a morte, machuquei-me ao tocar o piso quando alcancei o pé e um tanto mais ao sair da água e carreguei as marcas, o sangue escorrido, a sensação de desespero por muito tempo.

entendi que não posso com rios, não gosto da textura suja de suas águas, da sensação de se perder em seu leito, um escuro inominável, do desespero por não conseguir respirar, não conseguir pensar, em ter que sair aos tropeços, abruptamente, desejando fugir de suas margens, de seu curso incerto, de seus peixes sem escamas.

voltei ao mar, seu movimento azul, seu tempero úmido e salgado, seus abraços quase a me derrubar.

tornei a colecionar conchas de muitas estrias e formatos, com sua música a lembrar tempos uterinos.

estendi-me ao sol, pés muito fincados no chão de areia branca, quente, delicados grãos.

voltei à minha casa, talvez destino, escrito nas estrelas do zodíaco de meu mapa astral desconhecido.

meu signo decerto é solar.

Obra de Aykut Aydoğdu, 2019.

Publicado por Ana Bittencourt

escrever para remendar a infância a loucura escrever para estranhar o pai a mãe semelhanças escrever para cerzir terra corpo paisagem escrever carne viva (Tatiana Pequeno)

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