Confissão

Uma amiga minha perdeu o padrasto para Covid há alguns dias. Antes da perda, ainda na angústia da internação, escreveu um lindo texto de sua trajetória junto a esse “pai postiço”. No seu escrito, confessa seu ódio inicial por esse homem, o ciúme que sentiu de sua mãe com ele e o percurso de emoções boas e ruins que nutriu desde que o conheceu.

Gosto de textos corajosos. Aprecio quem confessa seus “crimes” e os maus sentimentos que nos tomam durante a vida. Acho essa sinceridade tocante. Acredito que todos temos nossos monstros, nossas dificuldades, um lado sombrio que, para muitos, é inconfessável.

Do amor ao ódio, da calmaria ao desejo de vingança, da delicadeza à brutalidade, tudo está dentro de nós. E, reconheçamos, a depender das circunstâncias, todos somos capazes de tudo.

Confessar os pecados – não aos outros ou aos padres, mas a nós mesmos – nos torna mais confiáveis. Isso porque reconhecemos o que somos e, ao fazer isso, podemos compreender nossas tormentas. Além disso, nos tornamos capazes de separar o joio do trigo. Nos afastamos do mal quando o compreendemos e não quando o negamos.

Gosto de pessoas honestas com a vida. Que admitem erros e culpas. Que confessam verdadeiramente o que são e sentem.

Temor tenho dos que falam apenas de suas pretensas bondades. Do melhor de si. De qualidades para as quais desejam aplausos. Tenho a sensação de que, ao fazer isso, tentam convencer a si mesmos de que não são capazes do que de fato são.

Imagem: @calicevazio

Publicado por Ana Bittencourt

escrever para remendar a infância a loucura escrever para estranhar o pai a mãe semelhanças escrever para cerzir terra corpo paisagem escrever carne viva (Tatiana Pequeno)

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