Mal dito

Mal ditas são todas as narrativas que nos afastam da verdade. São as palavras que professamos e que escondem mentiras inconfessas. São as rasgaduras forjadas em almas alheias por não sabermos nos expressar corretamente. As coisas que calamos ao engolirmos o que precisa ser dito. Figuras de linguagem que nos afastam do conteúdo ao nos aproximar apenas da forma. Toda a nossa necessidade infantil de aplausos que nos faz ocultar, nos ditos, dores, hiatos, complexidades, contradições, idiossincrasias – o que nos faz humanos.

Mal ditas são todas as falas em demasia que nos cansam pelo excesso. São todos os silêncios que explodem dentro de nós em histórias insensatas. São os versos sem sentido, as vozes em desafino, as opiniões não solicitadas, as alegações inclementes. O mal dito não nos permite construir a urdidura de nossa existência, capaz de nos libertar da escuridão dos vazios sem palavras.

Menhir, Anne Magill, 2020.

Publicado por Ana Bittencourt

escrever para remendar a infância a loucura escrever para estranhar o pai a mãe semelhanças escrever para cerzir terra corpo paisagem escrever carne viva (Tatiana Pequeno)

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